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Empreendedorismo por necessidade cresce entre a população negra no Brasil

  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Stefany Oliveira
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Por Guibson Trindade

O avanço do empreendedorismo negro no país revela potência econômica, mas também expõe a permanência de barreiras estruturais que mantêm milhões de pessoas negras fora do mercado formal e longe dos espaços de decisão. Existe uma narrativa confortável em circulação no Brasil contemporâneo. Ela aparece em campanhas publicitárias, ganha palco em eventos corporativos e ecoa em discursos inspiracionais: a ideia de que mulheres negras, sobretudo, seriam empreendedoras por natureza, resilientes por essência, criativas por instinto, capazes de transformar adversidade em negócio, escassez em oportunidade e invisibilidade em potência econômica.

É uma narrativa sedutora e profundamente perigosa. Porque, ao romantizar trajetórias marcadas pela ausência de alternativas, ela desloca o debate estrutural para o campo do mérito individual. O que se apresenta como vocação, em muitos casos, é resposta à exclusão. O que se celebra como autonomia frequentemente nasce da falta de escolha.

Os dados mais recentes sobre empreendedorismo e informalidade desmontam essa construção com clareza. O empreendedorismo negro cresce, é verdade, e já mobiliza cerca de 16 milhões de pessoas no Brasil (Sebrae, 2025, crescimento de 22,1% em uma década). Mas esse crescimento não pode ser lido isoladamente, nem celebrado sem contexto. Ele está diretamente associado a um processo histórico de exclusão persistente do mercado formal de trabalho. No terceiro trimestre de 2025, o Brasil registrou taxa de informalidade de 39,39% (IBGE PNAD Contínua), o equivalente a cerca de 40 milhões de trabalhadores fora das garantias formais. Quando o recorte racial é aplicado, a desigualdade ganha nitidez: pretos e pardos permanecem mais expostos à informalidade em praticamente todos os estados do país, com diferenças que, em várias regiões, ultrapassam dois dígitos percentuais. Entre mulheres negras, essa distância chega a 13 pontos percentuais em relação às mulheres brancas (IBGE).

Nesse território que nasce grande parte do chamado empreendedorismo negro. A ideia de que empreender decorre sempre de oportunidade, planejamento ou visão estratégica não encontra sustentação na realidade de milhões de brasileiros negros. Para uma parcela significativa dessa população, abrir um negócio é, antes, uma resposta possível diante da ausência de portas abertas no mercado formal.

Onde a Precariedade se Concentra

Os números ajudam a dimensionar esse quadro - 60,1% dos empreendedores negros atuam na informalidade (vs. 38,8% entre brancos; Sebrae, 2025) - a renda média mensal da população negra é de R$ 2.701, enquanto entre brancos chega a R$ 4.203 (PNAD IBGE/Cedra, alinhado a 58% da renda branca em 2025) - apenas 26% dos empreendedores negros conseguem acessar crédito (44% de recusa para pretos; CAF/Sebrae). A leitura desses dados é direta: quanto mais precário o ambiente econômico, maior a presença negra. Quanto maior a proteção institucional, menor essa participação. Não se trata de coincidência, mas de uma engrenagem histórica que combina desigualdade educacional, restrição patrimonial, baixa circulação em redes de influência e acesso limitado à capital.

O crédito continua sendo uma das barreiras mais duras. Apenas 26% dos empreendedores negros conseguem financiamento em condições adequadas, em grande parte porque critérios tradicionais de concessão penalizam territórios periféricos e ausência de garantias formais. Estima-se que cerca de 80% das famílias negras não disponham de ativos patrimoniais capazes de cumprir essas exigências. Quase metade desses empreendimentos nasce por necessidade, não por oportunidade, fator que impacta diretamente sua capacidade de inovação, escala e permanência.

Em estados como Maranhão, Pará e Piauí, a informalidade entre jovens negros alcança níveis próximos de 70% (IBGE/estudos regionais). Nesses contextos, empreender não representa necessariamente um projeto de futuro, mas uma estratégia imediata de sobrevivência.

Mulheres Negras: liderança econômica sob maior vulnerabilidade

Entre mulheres negras, os indicadores revelam um padrão ainda mais frágil - 41% estão na informalidade - 92% mantêm negócios sem funcionários - 82% têm empresas com até cinco pessoas - 72% dos negócios possuem até dois anos de existência (Sebrae/PNADC). São empreendimentos pequenos, recentes e altamente vulneráveis às oscilações econômicas. Ao mesmo tempo, essas mulheres convivem com menor renda, menor acesso a redes de apoio e maior sobrecarga doméstica. Ainda assim, essas trajetórias são frequentemente celebradas como símbolos de sucesso individual. Essa leitura é insuficiente. Ao transformar necessidade em virtude, corre-se o risco de naturalizar a precariedade e converter ausência de direitos em narrativa de liberdade.

Alta qualificação como correção de rota

Há iniciativas importantes em curso para alterar esse cenário, como programas de crédito, inclusão produtiva e conexão com cadeias de valor, proposta em estudo pela Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial. Já no ambiente corporativo, o Pacto vem estruturando métricas, compromissos empresariais e mecanismos de aproximação entre grandes empresas e empreendedores negros.

Recentemente, o Pacto lançou a segunda turma do Pacto Transforma, programa nacional voltado à formação de mulheres negras para posições de alta liderança corporativa. O edital recebeu mais de 700 inscrições de mulheres negras interessadas em formação para cargos de C-level. A formação contempla MBA na Fundação Getulio Vargas, mentoria com CEOs de grandes companhias, curso de idiomas, vivências em empresas multinacionais e desenvolvimento socioemocional. Com duração de 14 meses, o programa beneficia 150 mulheres em um primeiro módulo e 30 participantes em fase avançada, oferecendo não apenas formação técnica, mas acesso a repertório, redes e experiências historicamente negadas a grande parte da população negra.

A quinta edição do Festival Pacto das Pretas também avança nessa direção ao aproximar empreendedoras negras de grandes empresas, ampliando oportunidades reais de inserção econômica. Inserindo essas empreendedoras na cadeia de fornecedores das signatárias da associação.

O país que os dados revelam

O empreendedorismo negro é potência. Mas também sintoma. Ele revela capacidade de resistência, criatividade e produção econômica. Mas expõe, ao mesmo tempo, um país em que a liberdade de empreender muitas vezes surge depois da negação do direito de escolher. Enquanto milhões de brasileiros negros continuarem chegando ao empreendedorismo pela ausência de alternativas, qualquer celebração estará incompleta. Porque o verdadeiro desenvolvimento econômico de uma nação não se mede apenas por quantos negócios surgem, mas por quantas pessoas podem escolher, em igualdade de condições, o caminho que desejam seguir.

Comunicólogo, Guibson Trindade é mestre em Administração e Governança, ativista e pesquisador especialista em ESG Racial, conselheiro no CIEDS, professor convidado da Fundação Dom Cabral, Co fundador e Gerente Executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial.


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