Seguro patrimonial exige avaliação estratégica do valor em risco
*Daniel Kaneko
No seguro patrimonial, poucas definições são tão determinantes e tão negligenciadas quanto o valor em risco (VR). Para muitos gestores, ele é apenas um número declarado na apólice. Para o mercado segurador, porém, é a base que sustenta a precificação, a capacidade de cobertura, a subscrição e toda a análise de exposição. Quando essa diferença de percepção existe, o problema costuma aparecer no pior momento possível: após um sinistro.
O valor em risco representa o montante máximo de bens que podem ser atingidos por uma perda em determinado local ou operação. Se esse valor não reflete a realidade dos ativos, a consequência pode ser a aplicação da cláusula de rateio, mecanismo que reduz proporcionalmente a indenização quando o valor declarado é inferior ao valor real dos bens. Na prática, a empresa passa a dividir o prejuízo porque não transferiu corretamente o risco. Não se trata de penalidade, mas de regra contratual, e o impacto financeiro pode ser significativo, especialmente para empresas que não revisam seus ativos periodicamente ou não atualizam suas apólices.
Um exemplo simples ajuda a entender o impacto. Imagine uma indústria cujo patrimônio total em um determinado local seja de R$20 milhões, mas que declare na apólice apenas R$10 milhões como valor em risco. Na prática, isso significa que apenas metade do patrimônio está efetivamente segurado. Se ocorrer um incêndio parcial que cause R$4 milhões em prejuízo, a cláusula de rateio pode ser aplicada. Como o valor declarado representa 50% do valor real dos bens, a indenização será paga nesta mesma proporção. Nesse cenário, a empresa receberia cerca de R$2 milhões, menos a franquia prevista na apólice, e precisaria absorver o restante da perda com recursos próprios. Caso o valor em risco tivesse sido declarado corretamente, a indenização seria praticamente o valor integral do prejuízo, descontada apenas a franquia.
A forma de apuração do VR é decisiva. No valor de novo (replacement cost), a indenização considera o custo de reposição por um bem novo equivalente, incluindo compra, frete, instalação e impostos, preservando a capacidade operacional do segurado e garantindo que ele possa recompor seus ativos sem prejuízos adicionais. Já no valor atual ou depreciado (actual value), deduz-se a depreciação física calculada com base na idade, uso e vida útil do bem. É um parâmetro técnico do mercado de seguros. Essa modalidade pode reduzir o custo do seguro, mas também limita a indenização ao valor depreciado, exigindo atenção para que a proteção contratada não seja insuficiente em caso de sinistro.
Há ainda o valor máximo segurável, obtido por meio de avaliação patrimonial especializada, que combina os critérios anteriores e permite uma transferência de risco mais precisa, evitando tanto a subavaliação quanto a contratação de valores superiores à exposição real. Essa modalidade garante equilíbrio entre cobertura e custo, permitindo que a empresa mantenha proteção adequada mesmo para ativos com diferentes graus de depreciação, e possibilita a exclusão da cláusula de rateio quando os valores estão corretamente declarados e fundamentados em avaliação técnica confiável. Esse tipo de avaliação também pode ser realizado por empresas especializadas, que ajudam a estimar com mais precisão o valor real dos ativos.
Em um cenário de aumento dos custos de reposição, inflação e volatilidade econômica, manter valores desatualizados na apólice é uma exposição financeira real que pode comprometer a continuidade operacional. O seguro patrimonial não deve ser encarado apenas como uma despesa a ser reduzida, mas como instrumento estratégico de proteção, capaz de garantir que a empresa continue funcionando mesmo diante de perdas inesperadas, preservando ativos, capital e operações de forma planejada e segura.
No fim, a questão é clara: sua empresa está efetivamente protegida ou apenas acredita que está? Revisar e declarar corretamente o valor em risco não é um detalhe técnico, mas uma decisão estratégica que define a extensão real da proteção e pode determinar a diferença entre atravessar uma crise com segurança ou enfrentar prejuízos inesperados justamente quando a cobertura mais é necessária.
* Daniel Kaneko é diretor de P&C da Howden Brasil
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