O papel das assembleias no cooperativismo e seu impacto nas decisões
Por Diogo Angioleti
A cada ano, uma cena ainda pouco comum no mercado financeiro se repete em cidades de todo o Brasil: independentemente da quantia de dinheiro que se tem em conta, é possível sentar-se ao lado do dono do banco e decidir com o mesmo peso de voto que ele. No modelo cooperativista, isso é realidade. Em muitas cidades de Santa Catarina, terra do cooperativismo brasileiro, este momento é um dos mais importantes no calendário econômico. Não é uma reunião de investidores em Nova York, nem um encontro de acionistas em São Paulo. É uma assembleia de cooperativa. Ali, produtores, trabalhadores, motoristas, empresários e aposentados sentam lado a lado para votar decisões que influenciam o destino da instituição financeira da qual eles próprios são donos.
O cooperativismo financeiro parte de uma lógica distinta da dos bancos comerciais – o dinheiro é importante, mas a voz das pessoas importa mais. Em empresas mercantis e bancos tradicionais, quem decide são os acionistas com maior capital. Já nas cooperativas, cada pessoa tem direito a um voto. Esse princípio existe desde 1844, quando o cooperativismo surgiu da união de empreendedores locais em Rochdale, na Inglaterra.
No Brasil, as cooperativas possuem mais de 25 milhões de cooperados com mais de R$ 1,3 trilhões. Só no ramo de crédito, são mais de 20 milhões de associados. O setor representa mais de 10% dos ativos do sistema financeiro nacional e vem crescendo a passos largos, promovendo inclusão e democratizando o acesso ao crédito para pessoas e empresas. Presente em mais da metade dos municípios brasileiros – e, em centenas deles, como única instituição financeira – o cooperativismo de crédito cresce de forma consistente, promovendo inclusão financeira, desenvolvimento regional e acesso democrático ao crédito para pessoas e empresas.
É nesse contexto que as assembleias ganham peso operacional. Nelas, os cooperados definem a distribuição dos resultados, elegem os integrantes da administração e traçam diretrizes estratégicas alinhadas aos interesses da comunidade, se fosse em um banco eles seriam apenas clientes e não teriam acesso aos lucros. O cooperado deixa de ser apenas cliente para se tornar coproprietário e agente de decisão. Isso é fascinante, pois amplia a participação ativa em um ambiente de verdadeira democracia econômica.
Nos últimos anos, as cooperativas têm digitalizado suas assembleias, ampliando o acesso, a transparência, investindo em educação financeira e fortalecendo a governança. Ainda assim, muitas cooperativas têm menos de 10% dos cooperados participando efetivamente desses momentos.
O desafio, portanto, não está na estrutura, mas na ativação da base. Sem engajamento, a governança distribuída perde densidade e se aproxima, na prática, de modelos mais centralizados. A sustentabilidade do cooperativismo depende de aumentar a participação efetiva, o que passa por educação financeira, comunicação mais clara sobre impacto das decisões e incentivos concretos para presença nas assembleias.
O avanço do cooperativismo no Brasil mostra que há espaço para modelos financeiros menos concentrados e mais alinhados ao usuário. Mas esse diferencial só se sustenta se a governança for exercida. Sem participação, a promessa de decisão compartilhada vira apenas desenho institucional. Com participação, altera de fato a lógica de poder dentro do sistema financeiro.
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