Conflito no Oriente Médio eleva riscos no seguro marítimo global
Para Tatiana Algodoal, cancelamentos de cobertura são mecanismo previsto no mercado, mas impactos sobre ar
Com mais de 150 embarcações retidas na região do Estreito de Ormuz, a escalada do conflito no Oriente Médio começa a reconfigurar o mercado global de seguros marítimos. Diante do agravamento de ataques a navios e da interrupção parcial da navegação na área, seguradoras e Clubes de P&I passaram a cancelar coberturas contra riscos de guerra ou a suspender a emissão de novas apólices para embarcações que operam na região.
A medida não é arbitrária nem inédita. Segundo Tatiana Algodoal, sócia da área consultiva do Schalch Sociedade de Advogados e especialista em seguros e resseguros, a decisão decorre de uma alteração abrupta e relevante do risco originalmente contratado. "Em cenários de conflito armado ativo, com ataques a embarcações e ameaças diretas à navegação, o risco originalmente contratado é agravado", explica. "Qualquer evento que provoque um aumento imprevisível, súbito e desproporcional da probabilidade de sinistros compromete o equilíbrio econômico do fundo mutual."
Para quem acompanha o setor, o movimento não surpreende. Coberturas de risco de guerra não são permanentes nem automáticas. São, por natureza, voláteis e canceláveis, regidas por cláusulas específicas que permitem a rescisão unilateral justamente porque dependem da estabilidade geopolítica. A chamada Institute War Cancellation Clause, padrão internacional incorporado às apólices de seguro marítimo, autoriza o cancelamento mediante aviso prévio de 7 dias ou 72 horas, com efeitos prospectivos. Embarques realizados antes da notificação permanecem cobertos; os posteriores, não.
"Episódios como esse já ocorreram no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico e em conflitos anteriores", lembra Algodoal. "O mercado reage com avisos de cancelamento, elevação de prêmios ou subscrição caso a caso. Não estamos diante de algo fora do padrão."
Em muitos casos, as seguradoras não cancelam totalmente a cobertura, mas passam a exigir análise individual de cada operação, prêmios adicionais elevados para recompra da cobertura (buy-back) e aprovação prévia da rota e da embarcação.
Impacto direto para armadores, afretadores e financiadores
As consequências práticas, contudo, são severas. Para armadores, o cancelamento da cobertura pode inviabilizar a operação em determinadas rotas, não por proibição legal, mas porque o seguro de guerra costuma ser exigido contratualmente por afretadores, financiadores e operadores, além de funcionar como pressuposto para a aceitação do risco por tripulações, que têm direito de recusa em zonas de operações bélicas.
"Na prática, sem cobertura de guerra, o navio não navega, ou só navega mediante renegociação onerosa", resume Algodoal. Para afretadores, os efeitos se traduzem em atrasos, desvios e aumento de custos. Para financiadores, o cenário pode exigir reforço de garantias ou revisão de covenants, já que a existência de seguro válido é condição essencial em contratos de financiamento naval.
O episódio tende ainda a deixar marcas mais duradouras no mercado segurador. Segundo a especialista, eventos como esse historicamente provocam aumento de prêmios para manutenção de coberturas, processos de subscrição mais seletivos e possível exigência de garantias adicionais. Também é possível a adoção de exclusões geográficas mais amplas, que vão além do epicentro do conflito e passam a abranger águas adjacentes e corredores conectados.
O Brasil não está imune
Embora geograficamente distante da zona de conflito, o Brasil pode sentir os efeitos de forma indireta. Entre os reflexos potenciais estão o aumento do custo do bunker (combustível marítimo) em razão da alta do petróleo, a elevação dos prêmios de seguro marítimo mesmo fora da região afetada e a reprogramação de rotas e escalas globais, com impacto na regularidade de linhas que atendem o país.
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