A exaustão da empresária: Como a falta de processos adoece quem está no topo
Entenda como a sobrecarga feminina no comando de negócios não é mérito, mas um sintoma de falta de métodos que pode levar ao esgotamento físico e mental.
Um levantamento da Telavita com mais de 4.400 profissionais de diferentes setores revelou que 66,67% das mulheres em cargos de alta gestão já apresentam burnout completo e o número sobe quando o recorte inclui donas de pequenos e médios negócios, onde a concentração de funções é ainda maior. Em 2024, as mulheres representaram 63,8% dos mais de 472 mil afastamentos registrados no Brasil por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social. Por trás desses números há um padrão que se repete silenciosamente nos bastidores de empresas comandadas por mulheres: a confusão entre produtividade e auto sacrifício.
"A empresária que resolve tudo, responde a tudo e está disponível para tudo não é exemplo de liderança, é exemplo de ausência de gestão", afirma Alessandra Freitas, CEO da Anima Impacto Consultoria, especializada em desenvolvimento de lideranças femininas aplicadas ao negócio. Para ela, o problema não começa com o excesso de trabalho, mas com a ausência de estrutura: sem processos definidos, sem delegação real e sem clareza de papéis, o negócio se sustenta no corpo da fundadora. E esse é um modelo insustentável.
A sobrecarga não é fruto de fraqueza ou despreparo. É, na maioria das vezes, resultado direto de um negócio que cresceu sem ter crescido por dentro. "Muitas empreendedoras chegam até mim depois de anos sendo a única engrenagem do próprio negócio. Elas não adoeceram por falta de competência, adoeceram porque nunca tiveram espaço para construir o que as sustentaria: método, time e processo", explica. A consultora, que atua diretamente com pequenas e médias empresas lideradas por mulheres, vê com frequência esse ciclo de exaustão disfarçado de dedicação.
O que aparece como excesso de comprometimento esconde, quase sempre, uma armadilha estrutural: a empresária que não consegue sair de férias, que acorda às 3h da manhã com pensamentos sobre o negócio, que não consegue desligar, não porque é apaixonada pelo que faz, mas porque o negócio, literalmente, para sem ela. "Quando a empresa depende de uma pessoa para funcionar, o problema não é a pessoa. O problema é a ausência de processos que a libertem para liderar de verdade", pontua a CEO da Anima Impacto.
A liderança feminina aplicada ao negócio, na visão da especialista, passa obrigatoriamente por essa reorganização interna. Não se trata de trabalhar menos, mas de trabalhar de forma diferente, com clareza sobre o que só a líder pode fazer e o que pode e deve ser delegado, sistematizado ou automatizado. "Nenhuma mulher deveria ter que adoecer para provar que é boa empresária. O esgotamento não é um troféu. É um sinal de que algo no modelo de gestão precisa mudar e quanto antes isso for reconhecido, menos caro o preço a se pagar", conclui.
A discussão sobre saúde mental e gestão feminina ganha urgência à medida que o empreendedorismo feminino cresce no Brasil. No 4º trimestre de 2024, o país registrou um recorde de 10,35 milhões de mulheres donas de negócio, segundo o Sebrae. Jornal Tribuna Garantir que esse avanço se traduza em negócios saudáveis e em líderes igualmente saudáveis exige que o setor encare a exaustão não como consequência inevitável de empreender, mas como sintoma tratável de um modelo de gestão que pode, e deve, ser reconstruído.
Fonte: Alessandra Freitas - CEO Anima Impacto Consultoria
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