Brasil,

Seguro rural é peça-chave para a segurança do agronegócio

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A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e a Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), realizou, nesta quarta-feira (08), em Brasília, o Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio: proteção rural e novos instrumentos de financiamento. O objetivo do evento foi debater caminhos para apoiar o agronegócio com soluções inovadoras de crédito e proteção, com foco no fortalecimento do seguro rural, ampliação de instrumentos de financiamento e integração de iniciativas entre entidades setoriais e mercados.

Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, relembrou a infância em uma família de produtores no Sul do Maranhão, marcada pela dependência do regime de chuvas e pelo risco climático na agricultura e ao fazer este comentário, Oliveira ressaltou que o principal risco do campo no Brasil é o clima, especialmente a chuva, o que gera historicamente sucessivas renegociações de dívidas após perdas de safra. “É uma dinâmica que vem prejudicando muito o acesso ao crédito rural porque o banco considera isso na conta. Ao considerar na conta, não é possível calcular com precisão o risco de inadimplência”, afirmou Oliveira. “O custo do crédito no Brasil já carrega o custo das inadimplências, das renegociações e das perdas climáticas, ainda que de forma indireta. Não é que o banco calcula, diretamente, qual é o risco de perda climática ou qual é o risco de inadimplência, por exemplo. O que ele faz é incorporar isso à conta do crédito”, completou o presidente da CNseg.

Segundo o executivo, atualmente, o Brasil tem um dos modelos de agronegócio mais sofisticados do mundo, não apenas dentro da lavoura, mas em toda a infraestrutura. No entanto, apesar disso, ainda há um gap de proteção quando comparado com outros países, como França e Espanha, em que o seguro cobre cerca de 90% da área plantada. “No Brasil, há uma miopia do governo em relação a isso. Ao economizar alguns milhões no seguro rural, acabam sendo gastos bilhões em renegociações. Se houvesse mais investimento em seguro, haveria indenização, menor necessidade de renegociação, menor custo para o Tesouro Nacional e menor encarecimento do crédito para todos os produtores”, enfatiza.

Ingo Plöger, presidente da ABAG, analisa a estrutura agro do país, que segue como motor da economia, com crescimento superior a dois dígitos e impacto direto em indicadores como inflação. “Este ano, por exemplo, a previsão inicial era de crescimento de 2,5% a 2,7%, mas provavelmente ultrapassaremos 3%. Mesmo assim, o Banco Central, com uma visão conservadora, mantém juros elevados por causa da inflação de oferta, que não se combate com juros, mas com políticas industriais, econômicas e fiscais”, examina Ploger.

O presidente da ABAG ressalta ainda que o país tem vocação para a bioeconomia e a bio competitividade proveniente dos recursos naturais e refletindo em setores energéticos, produtivos e industriais. “O Brasil possui cerca de 350 bilhões de dólares aplicados em reservas no exterior. Se utilizarmos apenas 10% disso para resseguros, seriam cerca de 40 bilhões de dólares, um volume capaz de fortalecer significativamente o mercado”, disse. “No entanto, o mercado de resseguros é limitado. Mesmo com legislações emergenciais para seguros de catástrofe, esse capital poderia dar mais longevidade e segurança ao sistema. Esses são os temas que precisamos começar a discutir agora, para construir o futuro que já está em andamento”, completa Ploger.

Também presente no Diálogo Setorial, Tadeu Silva, presidente da Acrefi, detalhou a importância do agronegócio para a economia do país. “Representa cerca de 24% do nosso PIB, segundo a CNA. Emprega milhões de brasileiros e lidera nossas exportações, ancorando a competitividade do país no cenário global. Esse desempenho não é coincidência. Em um momento de tensões geopolíticas, disputas comerciais e instabilidade nas cadeias produtivas globais, o Brasil ocupa uma posição singular”, afirmou.

Durante muito tempo, o Plano Safra foi a principal referência do financiamento agrícola, de acordo com Silva. Mas, atualmente, o mercado vem evoluindo. “A agenda, portanto, não é apenas ampliar o crédito, mas construir um ecossistema de financiamento mais diversificado, inteligente e resiliente para um agronegócio tão pujante e a Acrefi quer estar no centro dessa construção”, explicou. “À medida que esse ecossistema se consolida, ele amplia o acesso ao crédito e abre novas possibilidades para pequenos e médios produtores, especialmente onde o crédito tradicional não chega”, acrescentou Silva.

Finalizando sua participação, o presidente da Acrefi acredita que não adianta estruturar crédito sofisticado se, diante de risco climático, o produtor ficar vulnerável. “O seguro deixa de ser opcional e passa a ser condição de sustentabilidade do sistema. O produtor sem cobertura adequada gera impacto negativo na agenda de crédito, pressiona a cadeia e aumenta a instabilidade do ecossistema”, avaliou Silva.

Ao longo do evento, a senadora Tereza Cristina (PP/MS) também ressaltou a relevância da mudança de cultura do brasileiro frente ao seguro e salientou que o país não pode ficar refém do Plano Safra que “não contempla a modernidade da nossa agricultura”. Ao mesmo tempo, a senadora é convicta de que o país precisa encontrar caminhos para dar suporte ao agro. “Hoje, com as mudanças climáticas, as restrições de crédito e as exigências ambientais e trabalhistas cada vez maiores, precisamos de políticas públicas mais sólidas. E, na minha opinião, o seguro rural é a principal delas”, disse.

Para a política, se o país resolver a questão do seguro rural, resolve o crédito. “Talvez não imediatamente, mas caminhamos para um cenário em que o crédito se torne mais abundante e semelhante ao de outras atividades. Em vez de o produtor buscar crédito como um processo complexo, ele poderá acessar financiamento de forma mais simples.

Dessa forma, a senadora frisa que pequenos produtores ainda deverão ter apoio, mas os médios e grandes produtores precisam de mais autonomia. “O que ganhamos ao apoiar o agricultor? Ganhamos segurança alimentar, estabilidade de preços e continuidade no abastecimento para o mercado interno e externo”, finalizou Tereza Cristina.


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