Cultura do excesso ganha debate após caso polêmico em reality show
Por Ana Endlich é CMO e cofundadora da PersonalGO*
A cena se repete com frequência cada vez maior na televisão brasileira: participantes de realities são submetidos a provas que exigem horas em pé, revezamentos noturnos, privação de sono, alimentação e hidratação. Por alguns dias, o público debate se aquilo é entretenimento ou excesso, até que a programação segue. Desta vez, porém, o ciclo foi interrompido por um gesto institucional. Segundo a cobertura da Itatiaia, o Ministério Público Federal recomendou à emissora responsável por um reality de grande audiência que vetasse provas com mais de três horas ininterruptas em pé ou sob luzes intensas e garantisse intervalos regulares para descanso, alimentação e hidratação. O mesmo documento sugeriu que participantes com problemas de saúde prévios fossem poupados de dinâmicas arriscadas sem sofrer punições. O caso muda o tom da conversa. Quando descanso, hidratação e tempo máximo de esforço viram objeto de recomendação formal, a discussão deixa de ser apenas televisiva e passa a expor um erro cultural mais profundo: o Brasil ainda confunde sofrimento com performance.
Esse equívoco não nasce na televisão, nem se limita ao entretenimento. Ele aparece todos os dias nas academias, nas redes sociais e nos discursos que romantizam intensidade como sinônimo de evolução. A lógica é sempre parecida: quem aguenta mais seria mais forte, mais preparado, mais saudável. O corpo vira um marcador de resistência, não de bem-estar. O problema é que essa leitura ignora um princípio básico da fisiologia: saúde não é a capacidade de suportar castigo, mas a capacidade de sustentar progresso ao longo do tempo. Performance real depende de contexto, recuperação, sono, hidratação, energia disponível e continuidade, não de heroísmo pontual. Quando esses fatores são desconsiderados, o que parece superação pode ser apenas exaustão acumulada.
A diferença entre esforço voluntário e esforço imposto com baixa autonomia de pausa é mais do que ética; é fisiológica. O sono, por exemplo, não é um detalhe. Segundo o CDC, em 2020, 35% dos adultos nos Estados Unidos relataram sono insuficiente, definido como menos de sete horas por noite. Esse dado não é trivial. Sono insuficiente está associado a maior risco de ansiedade, depressão, doenças crônicas, acidentes e lesões. O corpo privado de descanso não se adapta melhor; ele se defende pior. Da mesma forma, o esforço prolongado em pé não é neutro. O NIOSH resume que standing prolongado está associado a dor lombar, fadiga física, dor muscular, inchaço nas pernas, cansaço e desconforto corporal. Resistir por mais tempo não significa evoluir com mais qualidade. Significa acumular mais desgaste.
A hidratação e a nutrição também não podem ser tratadas como concessões. O MedlinePlus destaca que a água é um nutriente essencial e frequentemente negligenciado para atletas. A orientação é clara: o exercício deve começar com o corpo já bem hidratado, não com sede acumulada. A energia disponível, por sua vez, é um fator decisivo de desempenho e saúde. Uma revisão sistemática publicada na Sports Medicine encontrou baixa disponibilidade energética em 44,7% dos atletas analisados e risco de REDs em 63% dos atletas de oito estudos. Esse cenário está associado a piora de performance, coordenação, concentração, julgamento, potência explosiva e maior risco de prejuízo à saúde óssea. A mensagem é simples: o corpo não evolui no vazio. Ele precisa de recursos, tempo e recuperação.
Quando essas evidências são ignoradas, o discurso de superação perde contato com a realidade biológica. O entretenimento apenas torna visível uma lógica que o fitness também repete. Quando o corpo é exigido em contextos de privação, repetição, pouca recuperação e baixa autonomia de pausa, o que está em jogo não é apenas resistência, mas também segurança, recuperação e integridade física. A PersonalGO não defende saúde como capacidade de suportar fadiga física, mas como capacidade de evoluir com acompanhamento, recuperação e leitura contínua do corpo. Progresso real depende de consistência, não de extremos. A diferença entre evolução e exaustão está no tempo que o corpo consegue sustentar a própria melhora.
O caso recente não é um problema isolado, nem um conflito pontual de programação. Ele é um espelho de como a sociedade ainda entende esforço, mérito e saúde. Enquanto intensidade for tratada como virtude em si, e não como parte de um processo estruturado, o debate seguirá preso à ideia de que aguentar mais é sempre melhor. Não é. Aguentar mais pode ser apenas sinal de que o corpo ainda não quebrou. Evoluir, ao contrário, é construir uma base que permite melhorar sem se destruir no caminho. Esse é o debate que o Brasil precisa enfrentar, dentro e fora das telas.
*Ana Endlich é CMO e cofundadora da PersonalGO, plataforma fitness que conecta alunos e personal trainers e fortalece jornadas mais consistentes de treino, saúde e bem-estar, com acompanhamento de progresso e composição corporal.
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