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Pós-NRF 2026: os principais aprendizados e o impacto no Brasil

  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Renata Rebesco
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 Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

O Brasil vive simultaneamente o menor desemprego da série histórica e um varejo com crescimento real negativo. Essa conta não fecha. E foi isso, mais do que qualquer hype tecnológico, que a NRF 2026 permitiu a quem quis e se propôs a olhar e repensar nossa realidade, comparada com um cenário mais global.

E isso nada tem a ver com mais IA no varejo. Definitivamente, não.

Tem a ver com uma reflexão mais profunda e necessária sobre nosso momento e nossas perspectivas, depois de tudo o que foi visto, discutido, promovido e debatido, envolvendo os diferentes canais, segmentos, categorias, modelos de negócio e de gestão do varejo, do consumo e dos serviços.

É um chamamento às lideranças do comércio e do varejo, setores que são os maiores empregadores privados do País e estão pressionados como poucas vezes em sua história, com desempenho real de vendas negativo em 2025 em relação ao ano anterior e a perspectiva de que esse cenário se repita neste ano.

Os fatos demonstram com clareza que algo não fecha nessa equação envolvendo o Brasil real, aquele que reúne 97% da população que não se beneficia da ciranda financeira do País, que tem 9,2% de taxa real de juros, a segunda maior do mundo, inferior apenas à da Rússia.

Temos hoje perto de 78 milhões de pessoas com um nível sem precedentes de endividamento, segundo dados do Serasa, com crescimento de 22% pelos mesmos critérios, na comparação com 2019. E parte delas paga juros nominais de mais de 400% ao ano quando parcela no cartão de crédito.

Sem contar que a parcela de cerca de 50 milhões de brasileiros dependentes do Bolsa Família e os 92 milhões socorridos por algum programa assistencial.

A equação não fecha

Pelas estatísticas oficiais, o Brasil registra o menor nível de desemprego desde que o índice começou a ser calculado, em 2012, ao atingir 5,1% em dezembro, considerando apenas as pessoas que estão procurando emprego pelos critérios da Pnad Contínua. Ao mesmo tempo, beneficiários do programa Bolsa Família não podem ser contratados formalmente, sob pena de perder o benefício, com raríssimas exceções, que começam agora a ser consideradas.

O resultado é uma consistente falta de gente, especialmente nos segmentos de menor poder aquisitivo para o trabalho formal, ao mesmo tempo que aumenta a informalidade, contribuindo para a redução estatística do desemprego.

Ao mesmo tempo, temos um recorde no indicador de massa salarial, com evolução em termos reais, que atingiu R$ 367,6 bilhões em dezembro, um aumento de 6,4% sobre o mesmo período do ano anterior.

Há perspectiva de continuidade desse crescimento. Porém, o varejo do Brasil, pelos dados oficiais, deve fechar 2025 com evolução real negativa de desempenho e vendas, quando deflacionadas pela inflação média ponderada das diversas categorias de produtos.

Esses dados já estão configurados por outros institutos, entidades, associações e indicadores setoriais ou gerais, com exceção apenas de poucas categorias, segmentos e no canal e-commerce. Na média geral, a evolução real será negativa.

Contribuem para essa situação o mencionado endividamento, as taxas de juros, a menor confiança do consumidor e o desvio de renda para as bets, que sugam parte importante da renda para o jogo travestido de entretenimento.

A perspectiva é de mais do mesmo.

Para 2026, o cenário já está contratado: estímulos, mais benefícios, muita comunicação diversionista, reajustes e correções de salários no setor público e tudo o que for necessário para viabilizar um cenário de ilusão, com vistas à próxima eleição.

Já é sabido que haverá redução do desemprego, nos critérios em que é apurado, e aumento da massa salarial, estimulada pelo autoemprego, pela informalidade e pelos salários no setor público. E o endividamento da população vai aumentar ainda mais, com reflexos na inadimplência.

Na prática, cria-se renda no curto prazo, mas se destrói capacidade de consumo sustentável nos médio e longo prazos. São estímulos que adiam os problemas e aprofundam distorções.

A perspectiva já está definida, com a possibilidade de novo desempenho real negativo do varejo para 2026, com concentração das vendas em segmentos e setores ligados a valor, pressionando a rentabilidade, e com as mesmas exceções nos canais digitais e em algumas poucas categorias ligadas à saúde e aos cuidados pessoais.

No topo da pirâmide vive-se outro mundo.

De outro lado, entre aqueles que se beneficiam da remuneração das aplicações financeiras, vive-se uma realidade absolutamente diversa.

As estatísticas mostram crescimento superior a 20% em diversos setores ligados ao luxo e em tudo o que envolve os segmentos de alta renda.

O Brasil afluente está diametralmente distante do Brasil real. O paradoxo é que o Brasil afluente tem consciência da distorção e da perspectiva de agravamento, mas, diante dos ganhos e benesses de curto prazo, se deixa envolver por essa realidade distorcida.

Trata-se do mesmo comportamento dos que só miram o resultado da próxima eleição como sua maior ambição. Nunca o Brasil foi tão desigual, não apenas em renda e acesso, mas também na percepção da realidade.

Não basta discutir. É preciso agir!

Após todas as reflexões precipitadas pelos comparativos e análises da realidade internacional, amplamente discutidas no contexto de pós-NRF, e diante de uma visão crítica sobre a evidente distorção que vivemos em nosso ambiente, é importante ter consciência da ilusão vivida.

Mas não basta ter consciência da distorção. É preciso mobilizar, discutir, propor e agir para tentar corrigir. Trata-se de uma questão que deveria transcender segmentações, categorias, canais e modelos de negócio, especialmente no comércio, varejo e serviços pessoais, sem qualquer viés político-partidário. O tema é a nação.

Agir significa ter a coragem de pautar o tema em cada possível oportunidade, em cada encontro ou reflexão estratégica, e mobilizar-se para interferir na construção do futuro, pelo caminho da legalidade, quando, nas próximas eleições, forem definidas as opções.

Os danos da inércia e da complacência podem ser ainda maiores do que já está sinalizado.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

SOBRE A GOUVÊA ECOSYSTEM

A Gouvêa Ecosystem é um ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as frentes do setor de consumo, varejo e distribuição. Fundada em 1988, é referência no Brasil e no mundo por sua visão estratégica, atuação prática e profunda compreensão do setor. É membro do Ebeltoft Group, consórcio global de consultorias especializadas em varejo.


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