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Futuro digital de bancos e seguradoras passa pela integração entre core e nuvem

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Alessandro Buonopane*


A modernização de sistemas legados complexos tornou-se um dos maiores desafios estratégicos para bancos e seguradoras na América Latina. Em um setor onde estabilidade, segurança e conformidade regulatória são inegociáveis, o core tecnológico – muitas vezes baseado em mainframes com décadas de operação – sustenta operações críticas que movimentam bilhões de transações diariamente. Ao mesmo tempo, a pressão por eficiência, escalabilidade e inovação digital cresce de forma exponencial, impulsionada por novos entrantes, clientes mais exigentes e margens cada vez mais estreitas.

Estudos de mercado indicam que sistemas baseados em mainframe ainda processam a maior parte das transações bancárias globais, especialmente em operações de missão crítica, como liquidação financeira, crédito e seguros. Além disso, dados do setor mostram que o custo de manutenção de sistemas mainframe pode consumir até 75% do orçamento de TI de grandes instituições financeiras, deixando recursos limitados para inovação. Isso ajuda a explicar por que a migração do mainframe para ambientes de cloud, sejam públicos, privados ou híbridos, deixou de ser uma discussão puramente tecnológica e passou a ocupar o centro das decisões de negócio. Não se trata apenas de migrar sistemas, mas de garantir continuidade operacional, resiliência e governança enquanto se prepara a base para o futuro.

Nesse contexto, a modernização de sistemas core exige uma abordagem pragmática e incremental. Bancos e seguradoras não podem se dar ao luxo de “desligar e religar” seus sistemas. O desafio está em modernizar sem interromper, desacoplar funcionalidades críticas, reescrever aplicações de forma inteligente e, sobretudo, acelerar esse processo sem comprometer a segurança ou a experiência do cliente. É aqui que a combinação entre cloud, arquitetura orientada a serviços e automação avançada ganha protagonismo.

O caminho desejado já é desenhado, paralelamente, por fintechs e neobancos construídos nativamente em cloud, que demonstram capacidade de lançar novos produtos em semanas, enquanto instituições tradicionais levam meses ou anos. Esta disparidade na velocidade de inovação não é apenas uma questão de eficiência operacional, mas de sobrevivência competitiva. Entretanto, a migração destes sistemas não pode ser tratada como um projeto tecnológico convencional: cada linha de código COBOL em produção representa décadas de regras de negócio, conformidade regulatória e conhecimento institucional cristalizado em lógicas que frequentemente não estão completamente documentadas.

A Inteligência Artificial (IA) Generativa e os agentes inteligentes emergem como aceleradores decisivos dessa jornada. Essas tecnologias já demonstram capacidade de analisar grandes volumes de código legado, identificar dependências, sugerir refatorações e até gerar novos componentes compatíveis com arquiteturas modernas. Mais do que eficiência técnica, a IA permite ganhos expressivos de produtividade e velocidade, reduzindo riscos humanos e encurtando ciclos que antes levavam anos. Para o mercado financeiro, isso representa modernização com previsibilidade – um ativo tão valioso quanto a inovação em si.

Do ponto de vista do modelo comercial, essa evolução tecnológica viabiliza uma mudança estrutural na forma como projetos de modernização são contratados e entregues. Em vez da tradicional precificação baseada em alocação de pessoas, ganha força um modelo orientado à entrega, produtividade e aceleração, sustentado por ferramentas, plataformas de IA e agentes especializados. Esse movimento não apenas aumenta a transparência e a eficiência dos projetos, como também cria condições mais sólidas para garantia de margem e compartilhamento real de ganhos com os clientes.

Para CEOs que atuam globalmente e mantêm parcerias estratégicas com as principais Big Techs, o desafio adicional é orquestrar esse ecossistema de forma coerente. A escolha da tecnologia certa é importante, mas a capacidade de integrá-la a uma visão de negócio clara é o verdadeiro diferencial. Modernizar legados, nesse cenário, é menos sobre ferramentas isoladas e mais sobre governança, arquitetura e decisões estratégicas bem alinhadas ao contexto regulatório e operacional de cada país.

Equilibrar inovação, segurança, eficiência operacional e continuidade de negócio é, desta forma, o grande exercício de liderança no setor financeiro e de seguros. Os clientes querem – e precisam – reduzir custos, aumentar eficiência e ganhar agilidade, sem renunciar à confiabilidade que sustenta sua reputação. Companhias de tecnologia que assumem esse compromisso, apoiadas por IA, automação e modelos comerciais mais inteligentes, deixam de ser fornecedoras e passam a atuar como parceiras estratégicas na construção do futuro digital do mercado financeiro.

A modernização de legados não é apenas um projeto de tecnologia, mas uma decisão de longo prazo sobre competitividade, sustentabilidade e relevância. Para bancos e seguradoras da América Latina, o futuro já começou – e ele exige coragem para transformar, disciplina para proteger o core e visão estratégica para extrair valor real da inovação.

*Alessandro Buonopane é CEO Latam e Brasil da GFT Technologies


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