Carreira e IA: como escolher entre aprender ou pular o aprendizado molda seu futuro
Especialista aponta sete alertas sobre o uso acrítico da tecnologia no trabalho e na educação
Existe uma diferença fundamental entre usar inteligência artificial para aprender e usar a tecnologia para pular o aprendizado. A distinção, que pode parecer sutil, já começa a produzir efeitos concretos sobre a formação profissional, a qualidade das decisões e a capacidade de adaptação em um mercado de trabalho cada vez mais automatizado. Enquanto a IA amplia produtividade e acelera processos, seu uso sem critérios claros pode comprometer o desenvolvimento cognitivo e a autonomia intelectual.
Relatório da OCDE aponta que habilidades como pensamento crítico, resolução de problemas complexos e julgamento analítico são cada vez mais determinantes para a empregabilidade em economias digitalizadas. O mesmo levantamento mostra queda consistente no desempenho de leitura, matemática e raciocínio lógico em diversos países nos últimos anos, um movimento anterior à popularização da IA generativa, mas que tende a ser agravado quando a tecnologia substitui o esforço intelectual em vez de apoiá-lo.
Para João Paulo Ribeiro, CEO do Grupo Inove e especialista em cultura organizacional e uso estratégico de tecnologia, o debate ainda é tratado de forma superficial. “Existe uma diferença enorme entre usar IA como apoio ao raciocínio e usá-la como muleta. Quando a pessoa apenas copia respostas, ela deixa de desenvolver a capacidade de pensar, questionar e decidir”, afirma.
No ambiente corporativo, os impactos já começam a aparecer. Estudo publicado pela Harvard Business Review mostra que o uso excessivo de sistemas automatizados sem compreensão crítica tende a reduzir a qualidade das decisões, especialmente em contextos complexos ou ambíguos. A pesquisa indica que profissionais que confiam cegamente em recomendações algorítmicas tendem a questionar menos premissas, ignorar sinais de alerta e reproduzir vieses embutidos nos sistemas.
Na educação, o alerta segue a mesma lógica. Levantamento da PwC mostra que mais de 70% dos estudantes universitários já utilizaram ferramentas de IA generativa para realizar atividades acadêmicas. O uso, por si só, não é o problema. O risco surge quando a tecnologia elimina etapas essenciais do aprendizado, como tentativa, erro, reflexão e reconstrução do raciocínio.
A partir dessa experiência prática, o especialista aponta sete alertas que ajudam a diferenciar o uso produtivo da IA daquele que empobrece o aprendizado.
1.O primeiro é a redução do esforço cognitivo. Quando a resposta vem pronta, o cérebro deixa de exercitar análise, síntese e interpretação.
2.O segundo é a falsa sensação de domínio. Ter acesso à resposta não significa compreender o raciocínio que levou até ela.
3.O terceiro é a dependência progressiva. Quanto menos o indivíduo pensa de forma autônoma, mais dependente se torna a tecnologia para decidir.
4.O quarto é o empobrecimento do pensamento crítico. Sem questionamento, erros, vieses e incoerências passam despercebidos.
5.O quinto é a dificuldade de lidar com situações inéditas. A IA responde bem a padrões, mas o pensamento humano é insubstituível diante do inesperado.
6.O sexto alerta é a formação de profissionais eficientes na execução, mas frágeis na reflexão, um risco especialmente relevante em posições de liderança.
7.O sétimo é a perda do valor do erro como ferramenta de aprendizado. “O erro faz parte do desenvolvimento humano. Quando a IA elimina o erro do processo, elimina também uma etapa essencial da aprendizagem”, diz Ribeiro.
Segundo o executivo, empresas e instituições de ensino precisam estabelecer limites conscientes para o uso da tecnologia. “Não se trata de proibir IA, mas de definir onde ela apoia e onde o raciocínio humano precisa ser exercitado sem atalhos”, afirma. No mundo corporativo, isso significa usar a tecnologia para análise e suporte à decisão, não para substituir pensamento estratégico. Na educação, implica tratá-la como ferramenta de estudo, não como substituta do aprendizado.
Em um cenário em que a inteligência artificial se consolida como infraestrutura do trabalho, o diferencial competitivo tende a ser cada vez mais humano. Para Ribeiro, não vencerá quem usa mais tecnologia, mas quem souber pensar melhor com ela. “A IA amplia capacidades, mas não constrói repertório sozinha. Se abrirmos mão do esforço de pensar, o custo não será tecnológico. Será cognitivo.”
Sobre João Paulo Ribeiro
João Paulo Ribeiro é bacharel em Direito pela UNIB, com três MBAs em sua formação: Administração e Gestão de Negócios (FIA), Negócios Internacionais (Stanford University) e o CEO Program da Fundação Getulio Vargas (FGV). Especialista em atendimento, liderança e cultura organizacional centrada no cliente, é referência na transformação da experiência de atendimento no Brasil.
João começou sua carreira ainda muito jovem, atendendo telefone em centrais de relacionamento. Essa vivência direta com o cliente tornou-se a base para a metodologia que desenvolveu e aplica hoje em empresas de diferentes portes e segmentos. É CEO do Grupo Inove, com atuação nacional e internacional, e também idealizador do Instituto Respirar, iniciativa voltada ao acolhimento estratégico de empresários em momentos de recomeço, sucessão ou reestruturação, oferecendo suporte prático e emocional para lideranças em transição.
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