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2026 não será um ano de crescimento real, mas de adiamento

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Marcos Gouvêa, Diretor geral da Gouvêa Ecosystem Marcos Gouvêa, Diretor geral da Gouvêa Ecosystem

Por Marcos Gouvêa de Souza, CEO da Gouvêa Ecosystem

2026 deverá ser um ano de normalidade econômica com algum crescimento e mais um ciclo de postergação com foco prioritário na próxima eleição. Será, na prática, mais um ano de adiamento de decisões, de ajustes e de responsabilidades.

As previsões mostram um crescimento inferior ao do ano anterior – apesar de todos os estímulos já anunciados e implantados. Alguns indicadores irão sustentar essa narrativa mas, por trás dela, o país aprofunda desequilíbrios, posterga ajustes e transfere custos para os próximos ciclos.

Em anos pré-eleitorais, a economia costuma contar histórias melhores do que aquelas que os fundamentos conseguem sustentar. Indicadores escolhidos melhoram, a atividade se mantém em movimento e o discurso da evolução ganha tração. Mas, por trás dessa visão mais favorável, acumulam-se tensões que não desaparecem e apenas são adiadas.

Este ano tende a ser marcado por um baixo crescimento econômico e, ainda assim, artificialmente sustentado. A combinação de estímulos fiscais, expansão do crédito direcionado, políticas de renda, programas de auxílio e investimentos públicos com forte viés eleitoral devem manter a atividade em funcionamento, ainda que com baixo crescimento nominal, ou mesmo desempenho real negativo, quando deflacionados nos segmentos de varejo e consumo, como aconteceu em 2025.

Os dados recentes de desempenho do final do ano envolvendo shoppings centers, foodservice e varejo das lojas físicas apontam que a maioria dos segmentos de comércio, quando deflacionados pela inflação média das categorias envolvidas, mostra desempenho real negativo com exceção do setor de e-commerce e de algumas poucas categorias, o que deve se repetir em 2026.

Mudança estrutural no consumo e no varejo

Trata-se de uma economia “bombada” por estímulos artificiais de toda ordem, capaz de preservar indicadores no curto prazo, mas que aprofunda as desigualdades, amplia a insegurança econômica e social e posterga ajustes estruturais inevitáveis. O resultado é um crescimento instável e artificial apesar de um momento global altamente favorável ao país por conta de todas as questões que envolvem seus diferenciais na produção de alimentos, energia e recursos minerais estratégicos.

Esse cenário implica numa reconfiguração estrutural do consumo e do varejo. De um lado, cresce de forma consistente a participação do varejo de valor, aquele do mais por menos, impulsionado por consumidores mais sensíveis a preço e prazo de pagamento, mais endividados e com menor margem de erro no orçamento doméstico. De outro, o segmento de luxo se mantém, e tende a ampliar seu ritmo de crescimento, sustentado por rendas menos dependentes do ciclo econômico e elevadas remunerações ligadas a aplicações financeiras e por uma demanda estruturalmente mais resiliente.

Nunca convivemos com um consumo tão pressionado na base e tão eufórico no topo.

Ao mesmo tempo, avança a participação dos serviços e soluções associados a produtos como saúde, manutenção, cuidados pessoais, assinaturas, financiamento, seguros e outras modalidades. O consumidor compra menos itens, mais baratos, mas exige mais funcionalidade, conveniência e parcelamento dos pagamentos ao longo do tempo, mesmo que com taxas de juros das mais altas no mundo.

Observa-se também um aumento da participação direta da indústria de bens de consumo no varejo, seja por canais próprios, marketplaces e modelos híbridos, mas sempre com maior envolvimento na relação direta com o consumidor final. Esse movimento intensifica a disputa por margem, dados e fidelidade, elevando de forma estrutural a pressão competitiva sobre o varejo tradicional.

Paralelamente continua a crescer a destinação de renda para apostas online (bets), aprofundando a desconexão entre aumento da massa salarial e consumo produtivo. Esse fenômeno contribui para o avanço do endividamento das famílias e para níveis elevados de inadimplência com impactos diretos sobre a qualidade, a previsibilidade e a sustentabilidade do consumo.

As bets deixaram de ser um desvio marginal e passaram a competir diretamente com categorias essenciais do consumo.

Pressão competitiva exponenciada

O resultado desse conjunto de forças é um ambiente de competição mais intensa e rentabilidade pressionada na maior parte do varejo e dos serviços, com exceção do segmento de luxo e de algumas categorias que preservam maior poder de precificação, diferenciação e fidelização.

No final, 2026 se apresentará menos como um ano de consolidação e mais como um tempo de adiamento.

A aparente normalidade econômica mascara fragilidades que tendem a emergir no ciclo seguinte, quando os estímulos perderem força e a necessidade de correção se tornar inevitável.

Nesse contexto, é fundamental a integração das lideranças empresariais dos setores de varejo, consumo e serviços pessoais. Ela deixa de ser desejável para se tornar imperativa, para muito além de questões político-partidárias. Em um ambiente no qual os três Poderes da República mostram-se de forma majoritária mais comprometidos com o curto prazo, com agendas próprias e interesses imediatos e, cada vez mais afastados da construção de um Projeto de Nação de longo prazo, cabe ao setor produtivo assumir um papel mais ativo e responsável.

Se os setores privado e produtivo não ocuparem o espaço do longo prazo, ele será ocupado pelo improviso e pela visão estreita da próxima eleição. E o custo, como sempre, será transferido para a Nação.

Pela capilaridade, capacidade de geração de emprego e renda, proximidade diária com o consumidor e peso econômico, esses setores deveriam se integrar, se posicionar e atuar de forma coordenada para construir alternativas ao que hoje parece inevitável.

Isso pode ser feito por meio de agendas comuns e integradas, inovação colaborativa, autorregulação, educação do consumidor ou propostas concretas para o debate público.

O quadro futuro não pode estar dado. Ele pode ser moldado pela capacidade coletiva de agir com visão de longo prazo, senso de urgência e compromisso real com a Nação.

Mais do que a reflexão, é preciso ação.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem.


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