Lipedema: por que tantas mulheres convivem com dor, inchaço e anos de frustração antes do diagnóstico
Confundido com obesidade ou retenção de líquidos, o lipedema é uma condição crônica que afeta principalmente mulheres e ainda passa despercebida por anos. Especialistas explicam os sinais de alerta, os erros mais comuns no tratamento e quais abordagens realmente ajudam a aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Dor nas pernas ao final do dia, inchaço persistente, sensação de peso, facilidade para hematomas e uma frustração constante: emagrecer até emagrece, mas pernas e braços não mudam — e, muitas vezes, doem. Para milhares de mulheres, esse conjunto de sintomas é tratado como falta de esforço, quando pode indicar lipedema, uma condição crônica ainda pouco diagnosticada no Brasil.
Estudos publicados na literatura médica internacional estimam que entre 10% e 12% das mulheres no mundo apresentem características compatíveis com lipedema. No Brasil, especialistas acreditam que o número seja ainda maior, já que o diagnóstico costuma ser tardio ou inexistente.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE) mostram que mais de 70% das mulheres adultas brasileiras relatam insatisfação com o próprio corpo, mesmo adotando hábitos considerados saudáveis. Para especialistas, parte dessa frustração pode estar relacionada a condições pouco reconhecidas, como o lipedema.
“Grande parte das mulheres chega ao consultório depois de uma longa trajetória de tentativas frustradas. Elas já fizeram dieta, exercício, procedimentos estéticos e ainda carregam a sensação de que o corpo não responde porque algo está errado com elas”, explica a fisioterapeuta dermatofuncional Fabi Pinelli. “No lipedema, o problema não é falta de disciplina. É uma resposta corporal diferente da gordura comum.”
Quando o corpo dói — e ninguém escuta
Diferente da obesidade, o lipedema se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em pernas e braços, associado à dor ao toque, inchaço persistente, sensibilidade aumentada e sensação constante de peso. Um sinal clássico é a perda de peso no tronco enquanto os membros permanecem praticamente inalterados.
Essa foi a experiência da empresária no ramo de vinhos, Ale Loureiro, que conviveu por anos com sintomas sem explicação clara.
“Eu sentia dor, peso e uma sensação estranha nas pernas. Fiz bariátrica, emagreci bastante, mas minhas pernas nunca melhoravam. Era como se aquela parte do corpo não acompanhasse o resto”, conta.
Mesmo após mudanças significativas no peso e no estilo de vida, os sintomas persistiam. “Na época, eu não entendia o que estava acontecendo. Achava que era falta de esforço, que eu precisava fazer mais alguma coisa”, relata.
A virada veio com o diagnóstico. “Quando descobri que era lipedema, foi libertador. Não porque tudo se resolveu, mas porque aquilo finalmente tinha um nome. Não era culpa minha. A partir disso, consegui buscar outro tipo de cuidado.”
Com acompanhamento adequado, Ale passou a combinar diferentes abordagens. “A drenagem e o cuidado contínuo ajudaram muito na dor e no inchaço. Hoje, o principal ganho é qualidade de vida e consciência do meu corpo.”
Estética sem diagnóstico pode piorar
O crescimento acelerado do setor de estética no Brasil — que hoje figura entre os três maiores mercados do mundo, segundo a ABIHPEC — trouxe também um efeito colateral: a banalização de procedimentos em corpos inflamados.
“Quando o lipedema é tratado apenas como estética, sem diagnóstico adequado, o risco é aumentar inflamação, dor e sensibilidade”, alerta Fabi Pinelli. “O corpo não responde bem a intervenções isoladas. Em muitos casos, piora.”
Nesse contexto, o suporte farmacológico pode auxiliar, mas nunca de forma isolada.
“Alguns ativos manipulados ajudam no controle inflamatório e do edema, especialmente quando fazem parte de um plano terapêutico maior”, explica a farmacêutica Fabíola Faleiros, da La Pharma. “Eles não substituem o acompanhamento clínico, mas podem melhorar a resposta do organismo quando bem indicados.”
Cirurgia, tecnologias e cuidado integrado: quando cada recurso faz sentido
Com a maior visibilidade do lipedema, cresce também a busca por cirurgia e tecnologias como soluções rápidas. Para a cirurgiã plástica Pamela Massuia, o ponto central é entender em que momento cada recurso pode ajudar.
“A cirurgia não é a primeira linha de tratamento, mas pode ter um papel importante quando a paciente já passou por preparo clínico adequado”, explica. “Hoje contamos com técnicas modernas de lipoaspiração, como lipo 360 e lipo de coxas, além de tecnologias assistidas por laser e aparelhos de retração e estímulo de colágeno utilizados durante a cirurgia, que ajudam na retirada da gordura acometida pela doença e na melhora da qualidade do tecido.”
Além da cirurgia, Pamela destaca o papel das tecnologias clínicas. “Em ambiente de spa clínico, utilizamos aparelhos de laser e ultrassom microfocado, como o Ultraformer, que auxiliam na firmeza da pele, no estímulo de colágeno e no suporte ao tratamento, sempre de forma individualizada.”
Outro ponto essencial é o trabalho multidisciplinar. “Associamos acompanhamento nutricional, controle inflamatório, tecnologias clínicas e terapias complementares. Isso impacta não só a aparência, mas principalmente a mobilidade, o conforto e a qualidade de vida.”
Ela reforça que a expectativa realista é indispensável. “Nenhuma tecnologia funciona sozinha. O resultado vem da soma de diagnóstico, preparo, tecnologia adequada e continuidade do cuidado.”
O que realmente ajuda no lipedema
Orientações práticas (o que fazer, o que perguntar, o que evitar)
Fisioterapia dermatofuncional: o que faz diferença
Segundo Fabi Pinelli, o foco não é estética, e sim controle de sintomas.
- Drenagem linfática terapêutica, não modeladora
- Técnicas para reduzir sensibilidade do tecido
- Controle do edema antes de estímulos mais intensos
- Avaliação da resposta do corpo a cada sessão
Alerta: dor intensa após sessões, aumento do inchaço ou hematomas frequentes indicam excesso.
Suporte farmacológico: onde pode ajudar
De acordo com Fabíola Faleiros, os ativos entram como apoio ao tratamento, nunca isoladamente.
Exemplos usados na prática clínica:
- Para inflamação e dor: curcumina biodisponível, quercetina, antioxidantes específicos
- Para circulação e edema: diosmina, hesperidina, rutina, castanha-da-índia
Importante: não existe fórmula padrão; a prescrição precisa ser individualizada.
Cirurgia e tecnologias: quando considerar
Segundo Pamela Massuia, podem ser indicadas:
- após controle inflamatório
- em casos de gordura que não responde ao tratamento clínico
- com expectativa realista
Podem ser associadas:
- lipoaspiração com tecnologias assistidas por laser
- aparelhos de retração e estímulo de colágeno utilizados durante a cirurgia
- lipo 360 e lipo de coxas, em casos bem indicados
- Ultraformer e lasers clínicos para suporte do tecido
A cirurgia não substitui drenagem, acompanhamento nem controle inflamatório.
Exames que ajudam a orientar o cuidado
Não há um exame único para “confirmar” lipedema, mas alguns ajudam no planejamento:
- exames inflamatórios
- avaliação metabólica
- investigação hormonal, quando indicada
- avaliação vascular em casos específicos
Reconhecer muda tudo
Para muitas mulheres, o diagnóstico representa um divisor de águas.
“Quando a mulher entende que o corpo não está falhando, a culpa diminui e o tratamento finalmente faz sentido”, resume Pamela Massuia.
Para Alê Loureiro, esse entendimento foi decisivo. “Parar de me culpar foi o primeiro passo. O cuidado veio depois.”
Sinais de alerta para o lipedema
- dor frequente nas pernas ou braços
- inchaço persistente
- facilidade para hematomas
- sensação constante de peso
- gordura localizada que não responde a dieta e exercício
Um cuidado que começa pelo entendimento
O lipedema ainda é uma condição cercada de desinformação, culpa e tentativas frustradas. Mas o avanço do diagnóstico, das tecnologias e do olhar multidisciplinar tem mudado esse cenário. Hoje, entender o que o corpo está vivendo é o primeiro passo para sair do ciclo de insistência e sofrimento.
Mais do que buscar soluções rápidas, o tratamento do lipedema exige critério, acompanhamento e respeito aos limites individuais. Quando há leitura clínica adequada, combinação de abordagens e expectativa realista, o cuidado deixa de ser uma batalha constante e passa a ser um processo possível — com menos dor, mais conforto e ganho real de qualidade de vida.
Reconhecer o lipedema não significa aceitar sofrimento, mas compreender o corpo para cuidar melhor dele.
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