Brasil,

A produção de leite com chancela oficial

Por Roberta Züge; Diretora Administrativa do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS); Diretora de Inteligência Científica Milk.Wiki; Médica Veterinária Doutora pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP); Sócia da Ceres Qualidade

As notícias recentes demonstram que produtores, de diversas regiões do Brasil, fizeram sua lição de casa e se equiparam, em termos de produtividade, com países reconhecidamente modelos de produção de leite. Em 2019, conforme estudos conduzidos pela Embrapa, destaca-se que no Brasil 350 municípios possuem produtividade média acima das encontradas na Nova Zelândia, que é de quatro mil litros por vaca.

E para ampliar esta comemoração, há municípios que extrapolaram a produtividade da Nova Zelândia, e ultrapassaram a média de seis mil litros por vaca, equivalente ao padrão europeu de produção.

Importante salientar que estes dados são encontrados pela maior profissionalização que se apresenta, atualmente, as propriedades leiteiras de bacias consolidadas. Hoje, diversos fatores são cruciais para este processo. Entre as ferramentas que podem ser utilizadas, o controle leiteiro oficial se destaca por proporcionar uma chancela, que permite identificar a produção individual por animal.

Mas o que é realmente o controle leiteiro?

Este processo é regulamentado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento-MAPA, atualmente pela instrução normativa nº 78 de 26 de novembro de 2018. Este serviço é mensuração da produção individual dos animais, contendo informações sobre a qualidade e quantidade da produção individualizada por animal.

Contagem de células somáticas, porcentagem de proteína, gordura, lactose e sólidos totais, além da mensuração da ureia, são alguns componentes analisados por meio do controle leiteiro.

Esse serviço está sempre se adequando as condições da pecuária leiteira. Sabemos que a tecnologia faz parte dos sistemas de produção de leite, um exemplo disso são as ordenhas robotizadas; com isto, precisamos ter um serviço apto tanto para os produtores que ainda realizam a ordenha balde ao pé quanto para os mais tecnificados. Esta modernização tem chegado às legislações, talvez nem sempre na velocidade que o setor demanda.

Os encarregados pela realização do controle leiteiro são conhecidos como controladores, estes podem ser técnicos e até mesmo os produtores, segundo a normativa nº 78. Porém, independe da qualificação, todos devem ser capacitados para essa função e credenciados pelas entidades responsáveis.

Assim, tudo se inicia na escolha do método de controle que o produtor deseja realizar em sua propriedade, existindo quatro categorias, sendo elas:

Após essa definição, que será realizada na propriedade, iniciam-se os serviços. Primeiramente, o produtor deve ter todas as informações de forma clara no momento do controle, como data do último parto, como foi esse parto, saúde geral do animal e qualquer outra informação de relevância que o controlador solicitar.

Em seguida, inicia-se a pesagem da produção de leite de cada animal em 24 horas. A homogeneização das amostras é de extrema importância para que seja coletado o leite de forma igual, lembrando que no início da ordenha o leite é pobre em gordura, já no final é bastante rico.

Quando coletado o leite, deve ser colocado em frascos próprios para as análises, que devem ser identificados com informações do animal e do produtor. Até que cheguem aos laboratórios de análises, que são acreditados pelo INMETRO na ISO 17025 e pertencentes à Rede Brasileira de Qualidade de Leite, as amostras devem ser armazenadas em caixas isotérmicas, para manter uma temperatura de no máximo 5ºC, não alterando a composição do leite.

Depois de todo esse processo, o produtor, por meio dos dados resultantes do controle leiteiro, consegue ter dimensão do que está acontecendo com a sua produção, de forma individualizada de seus animais. Por exemplo, se é necessária uma melhora nas boas práticas de ordenha, ou ainda, se existe alguma disfunção na nutrição dos animais, quais possuem produções melhores e maiores e, até mesmo, comprovar que o trabalho realizado está gerando um produto de qualidade.

Por meio do controle leiteiro oficial que o produtor pode afirmar a produtividade de seus animais. Sob ele que quem deseja comprar animais deve verificar a veracidade das informações relatadas sobre as características de produção de leite. Sem esta ferramenta, que oficializa, seguindo os preceitos legais, os dados de produção não podem ser chancelados.

Depois de todas as vantagens já citadas aqui, o serviço de controle leiteiro ainda tem a possibilidade de promover o melhoramento genético dos animais. Como isso acontece? Com a quantidade e qualidade da produção dos animais em mãos, individualizada, com relatórios que demonstram alterações e flutuações, além de comparações com outras realidades, o produtor consegue selecionar seus melhores animais e focar nas futuras gerações dessas vacas, investindo corretamente seu tempo e capital, elevando cada vez mais o padrão do seu rebanho.

E os ganhos ainda continuam. Chegamos à questão das exposições, ato muito comum na cadeia leiteira. Você sabia que com serviço de controle leiteiro, juntamente com o sistema de classificação, os animais participantes da competição conseguem duplicar seus pontos obtidos em pista? Isso mesmo, para que este ato seja consolidado, o produtor deve estar realizando o serviço há pelo menos um ano. Desse modo, o controle leiteiro proporciona mais um benefício ao produtor, que poderá ter vacas com maior pontuação, facilitando a conquista dos grandes campeonatos.

Sendo assim, constatamos que o controle leiteiro é uma ferramenta com muitos proveitos, para a qualidade de leite que é comercializada, como para o produtor, que irá aprimorar sua produção, aumentando o valor do seu produto e, consequentemente, ampliando os seus lucros.

Referências:

- Instrução Normativa nº78, de 16 de novembro de 2018 – MAPA

- Regimento do Controle Leiteiro da Associação Brasileira de Criadores de Bovino da Raça Holandesa - 2019

Sobre o CCAS

O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo-SP, com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos concretos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, apesar da sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas, não condizentes com a realidade. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça.


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