Brasil,

Cientistas aprimoram método de produção do óleo de pequi

Um projeto da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) propôs soluções para alguns dos problemas identificados nos métodos tradicionais de produção do óleo da polpa e da amêndoa do pequi na Chapada do Araripe.

Tradicionalmente, o óleo da polpa é produzido no meio da mata, em fogueiras acesas com madeira da floresta. Para preparar um litro do produto, é necessário permanecer oito horas macerando mil caroços em um latão no fogo. Um trabalho duro e com precárias condições de higiene e segurança, mas que garante alguma renda para as comunidades extrativistas quando a safra termina.

Uma pequena parte dos catadores extrai também o óleo da amêndoa que fica no interior do caroço espinhoso. É um processo ainda mais complicado que a extração do óleo da polpa, por conta dos espinhos. Além disso, como as amêndoas são pequenas, o rendimento de óleo é baixo. Por isso, esse produto é mais raro e caro que o óleo da polpa.

Mais rápido e com o dobro de rendimento

O protocolo apresentado pela Embrapa para a extração do óleo de polpa propõe a extração por centrifugação, de forma mais segura, rápida e com maior rendimento do que o esquema tradicional. O método, relativamente simples, consiste na retirada da polpa, aquecimento em banho-maria a 45°C e centrifugação em equipamentos próprios para pequenas agroindústrias.

Uma das vantagens, conforme conta a pesquisadora Elisabeth Barros, é a preservação de compostos nutricionais sensíveis a altas temperaturas, que se perderiam durante o demorado cozimento tradicionalmente empregado na produção. Outra vantagem do novo modelo é o bom rendimento. Enquanto no método tradicional a quantidade de óleo extraído é inferior a 10% da massa de polpa, o processo apresentado pela Embrapa obtém rendimento de 20%. “Isso corresponde a cerca de 76% de todo o óleo presente na polpa, o que significa um alto valor quando se fala de rendimento industrial”, esclarece a cientista.

O que mais chamou a atenção dos produtores ao conhecerem a nova forma de extrair o óleo da polpa foi a redução drástica no tempo de extração, que não chega a uma hora, sem contar o tempo necessário para outras fases do processamento, como a secagem em estufa e a embalagem.

“Nós gastamos oito horas só para cozinhar o caroço de pequi e mais quatro horas para apurar o óleo. A produção desse novo jeito vai dar melhor qualidade de vida pra gente”, festeja o agricultor Antônio da Hora, morador da comunidade da Baixa do Maracujá, na Chapada do Araripe, município do Crato.

De acordo com Barros, o método também apresenta vantagens logísticas e operacionais por exigir menor espaço de estocagem, já que é possível armazenar apenas a polpa congelada. Dessa forma, também é viável guardar a matéria-prima para a produção na entressafra.

O pesquisador da Embrapa Antônio Calixto salienta a redução do risco ambiental, já que a extração por centrifugação dispensa as fornalhas feitas de madeira da floresta. Além disso, favorece a adoção de Boas Práticas de Fabricação.

Óleo de amêndoas

O projeto da Embrapa Agroindústria Tropical estabeleceu também os parâmetros para extração aquosa do óleo de amêndoa de pequi. “O processamento pode ser feito a partir das amêndoas dos caroços descartados ao fim da extração do óleo da polpa”, diz a pesquisadora Janice Lima, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), que atuou no projeto. Segundo ela, a amêndoa do pequi também é comestível, mas é pouco explorada, em função, principalmente, da dificuldade da extração do endocarpo espinhoso.

Pequi: sabor e espinhos

O nome do fruto origina-se do tupi “pyqui”, no qual py significa pele, e qui, espinho, referindo-se aos espinhos do endocarpo do fruto. O pequizeiro é uma planta perene, nativa e típica do Cerrado, pertencente ao gênero Caryocar e à família Caryocaraceae. A espécie Caryocar coriaceum Wittm. ocorre nos estados da Bahia, Goiás, Piauí, Ceará e Pernambuco. Nessas regiões, apresenta-se como árvore frondosa e esgalhada, podendo alcançar até dez metros de altura. Seu fruto, de cheiro e sabor peculiares, é bastante apreciado pela população nas regiões de ocorrência, onde é explorado de forma extrativista.

Na Chapada do Araripe, o pequi se destaca pela importância socioeconômica. Os frutos - ricos em ácidos oleico, palmítico, linoleico e carotenoides - são utilizados tanto na culinária regional como na farmacopeia popular e na indústria cosmética. A safra, que vai de janeiro a março, é comercializada na região e pouco aproveitada pela indústria.

A pesquisadora Janice Lima esclarece que a extração aquosa apresenta a vantagem de não necessitar de solventes orgânicos. Ela explica que as amêndoas são trituradas com água quente, o que ajuda a liberar o óleo dos tecidos, formando uma camada superior separada por flotação ou centrifugação.

De cor clara, com cheiro suave e peculiar, o óleo da amêndoa tem bom potencial para a indústria de cosméticos e óleo de mesa. Ele é rico em ácidos graxos insaturados, reconhecidos como benéficos à saúde, e apresentou bom desempenho em testes sensoriais. Óleo obtido com os parâmetros definidos pelo projeto apresentou estabilidade em prateleira de 350 dias. Para produzir um litro é necessário processar em torno de 3,5 mil caroços.

“Os caroços podem ser secos e armazenados para posterior processamento ao longo do ano, fora do período de safra, tornando-se uma fonte de renda alternativa para a região”, diz Lima. Segundo ela, é importante continuar os estudos com o objetivo de desenvolver equipamentos para extração da amêndoa do endocarpo espinhoso.

Usina-piloto

O município do Crato pode ganhar uma usina para produção de óleo de pequi com tecnologia Embrapa. A prefeitura elaborou um projeto para construção do equipamento na comunidade da Baixa do Maracujá, na Chapada do Araripe. A ideia, conforme o secretário municipal de Desenvolvimento Agrário do Crato, Zilcélio Alves Ferreira, é valorizar a atividade extrativista, gerando mais renda para as comunidades.

“As pessoas catam um cento de pequi e vendem por cerca de três, cinco reais no pico da safra. Com o óleo elas podem aumentar a renda”, prevê. Segundo ele, a intenção é investir também em outras frutas nativas da região, como a mangaba e o cambuí. Além disso, a prefeitura promove capacitação dos moradores da região em produção e mudas e estimula o reflorestamento.

Atividade penosa

“Eu tenho certeza de que se não tivesse o pequi, o Crato não cabia mais de morador daqui da serra, porque é bastante gente que tem aqui na região atrás de um emprego. Não tem emprego nem para os que já são veteranos e têm experiência de emprego, que dirá para um agricultor que vai se habilitar a tudo novamente em uma nova função.”

O depoimento é do agricultor Antônio Agostinho da Hora, morador da Baixa do Maracujá, no município do Crato. Além dele, a esposa e quatro dos oito filhos trabalham na coleta do pequi. “A sobrevivência que a gente tem aqui, principalmente agora, é o pequi, a mangaba e o cambuí”, conta da Hora

O produtor participou de um Dia de Campo promovido pela Embrapa para apresentar o modelo de processamento do óleo a frio. Ele aprovou a novidade, principalmente pela redução do tempo de produção e de exposição ao calor que eles costumam passar. “É ótima, a gente não leva tanta temperatura no corpo quanto a gente leva para fazer o óleo artesanal, porque não é brincadeira não,” declara.

Pequi faz parte do Cariri

No Cariri cearense, o uso culinário do pequi é um traço cultural tão marcante quanto a fé em padre Cícero ou a rica arte popular manifesta em nomes como irmãos Aniceto, Espedito Seleiro e Patativa do Assaré. O fruto compõe pratos apreciados na região, como o baião de dois ou a pequizada – um ensopado cremoso com verduras, leite e queijo coalho. Repleto de vitaminas e óleos, o pequi garante sustança e renda ao povo do lugar.

Na safra, que se estende de janeiro a março, centenas de pessoas montam acampamento na Floresta Nacional do Araripe (Flona) para catar o fruto caído no chão. Parte dos catadores incrementa os ganhos com a produção do óleo da polpa. Enquanto o cento do pequi in natura chega ao consumidor final por até R$ 10,00, o litro do óleo da polpa pode custar até R$ 100,00.


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