O verdadeiro desafio do mercado de telecom não é tecnologia, é coragem para crescer
Por Carlos Rangel, VP do Sales Club Telecom
O setor de telecomunicações viveu, durante décadas, sustentado por uma verdade confortável: as ondas tecnológicas sempre chegavam a tempo de salvar todo mundo, Fibra, mobilidade, IoT, cada nova tecnologia criava tanta demanda que o crescimento acontecia quase por gravidade. Bastava existir para crescer. Mas essa era acabou.
O mundo acelerou. A tecnologia deixou de evoluir em ciclos e passou a evoluir em dias. E, pela primeira vez, o setor está diante de um cenário em que capacidade técnica não garante mais futuro. Paradoxalmente, nunca tivemos tanta infraestrutura, e ao mesmo tempo nunca foi tão difícil transformar tudo isso em crescimento real.
Essa é a parte que ninguém gosta de admitir: telecom nunca teve um problema de tecnologia, teve um problema de atitude.
Durante anos, o setor se acostumou a seguir a onda, não a criar estratégia. O raciocínio sempre foi: a próxima tecnologia vai puxar o mercado. E puxava. Até que não puxou mais.
Hoje, mesmo com um mercado que movimenta quase R$ 300 bilhões por ano, vemos empresas tecnicamente brilhantes… mas comercialmente vulneráveis. Crescimento virou loteria. Previsibilidade virou luxo. E boa parte disso vem do fato de que telecom, historicamente, tratou vendas como um complemento quando, na verdade, vendas são o motor do próximo ciclo do mercado.
Quando o mercado amadurece, a conta chega rápido: processos comerciais frágeis, marketing improvisado, poucas métricas, pouca gestão da base e dependência quase total do boca a boca. Resultado? Empresas sendo empurradas para disputar preço. E quando você disputa preço, você abdica de valor. E quando abdica de valor, vira commodity. E quando vira commodity, bem, todo mundo sabe como a história termina.
O ponto central é simples e incômodo: infraestrutura pode ser construída; estratégia, não. O que diferencia quem cresce de quem estagna não é a rede, nem o equipamento, nem a cobertura, tudo isso pode ser replicado. O que não pode ser copiado é a capacidade de transformar tecnologia em valor, e valor em crescimento previsível.
E isso só acontece quando empresas tratam crescimento como disciplina, não como consequência. Com método, indicadores claros, estratégia comercial, diferenciação real e uma postura ativa diante do mercado.
Quando uma empresa faz esse movimento, ela não cresce sozinha — ela eleva todo o ecossistema ao redor. Fornecedores ganham previsibilidade. Parcerias se tornam inteligentes. Cadeias inteiras deixam de depender de guerras de preço. Setores inteiros mudam de patamar.
Telecom já provou que sabe construir redes. Agora precisa provar que sabe construir mercado. No novo cenário, não lidera quem entende mais de tecnologia. Lidera quem entende melhor como competir. Lidera quem consegue vender valor. Lidera quem tem coragem de abandonar o jogo antigo. Lidera quem cria o movimento, não quem espera a próxima onda. O setor está, mais uma vez, diante de uma escolha. Estagnação ou movimento. Só que, desta vez, talvez não exista tão logo uma nova onda tecnológica chegando para empurrar ninguém. Desta vez, a evolução depende de atitude.
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