Brasil fica para trás no venture capital enquanto EUA lideram nova onda de IA com investimentos 60 vezes maiores
A nova onda global de investimentos em tecnologia, impulsionada pela inteligência artificial, reforça um contraste crescente entre Estados Unidos e Brasil. Enquanto o mercado americano retoma patamares próximos a US$300 bilhões anuais em venture capital, o ambiente de juros elevados no país limita a recuperação da indústria e mantém o ecossistema distante do novo ciclo de crescimento.
Dados da National Venture Capital Association e relatórios globais da KPMG mostram que os aportes nos Estados Unidos voltaram a níveis próximos aos recordes de 2021, após a desaceleração observada entre 2022 e 2023. No Brasil, levantamentos da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital e do Transaction Tracking Record indicam que o volume investido segue significativamente abaixo do pico registrado durante o boom da pandemia.
Entre 2020 e 2025, os Estados Unidos concentraram cerca de US$1,46 trilhão em investimentos na indústria, enquanto o Brasil movimentou aproximadamente US$21,7 bilhões. A diferença evidencia a dimensão da disparidade: o volume americano foi mais de 60 vezes superior no período.
Mais do que a distância histórica, o cenário atual revela uma divergência clara de trajetória.
Nos Estados Unidos, o avanço da inteligência artificial reaqueceu o apetite por risco e impulsionou um novo ciclo de investimentos em tecnologia. No Brasil, o ambiente macroeconômico segue restringindo a expansão do setor e dificultando a retomada.
Para Victor Mariz Taveira, CEO da Acrux Capital, a leitura dos números exige contexto.
“A economia global, especialmente a americana, passou por um boom relevante em 2021, impulsionado pelo uso intensivo de tecnologia durante a pandemia. Naquele momento, houve um volume recorde de capital direcionado para venture capital. Agora, o que se observa é uma nova onda, puxada principalmente pela inteligência artificial, que volta a atrair investimentos em grande escala”, afirma.
O cenário brasileiro, por outro lado, ainda não conseguiu recuperar o ritmo observado naquele período.
“Quando olhamos para o Brasil, mesmo considerando os dados mais recentes, o volume investido ainda está distante do pico de 2021. Em termos proporcionais, gira em torno de 40% daquele patamar, o que evidencia que não houve uma retomada consistente da indústria”, diz o CEO da Acrux Capital.
A divergência também aparece nos números mais recentes. Relatórios globais de monitoramento do setor, como o Venture Pulse, da KPMG, indicam aportes na casa de US$1 bilhão no Brasil em 2025, considerando diferentes recortes e períodos, enquanto leituras consolidadas do mercado apontam valores superiores a US$3 bilhões no ano. A diferença reflete metodologias distintas, variações cambiais e critérios de contabilização, mas não altera o diagnóstico central: o país segue operando em um nível bastante inferior ao dos principais centros globais.
Juros altos e entraves estruturais travam o avanço do setor
O ambiente de juros elevados se mantém como o principal fator de pressão sobre o mercado.
“O ponto central está no nível de juros, que permanece elevado por um período prolongado. Esse é um fator que afeta não apenas o venture capital, mas também o endividamento das famílias, a inadimplência e a capacidade de investimento das empresas. Trata-se de um efeito sistêmico”, afirma Mariz.
O comportamento do setor no Brasil historicamente acompanha os ciclos da taxa de juros, o que gera oscilações bruscas e dificulta a formação de uma indústria mais estável de longo prazo. Para Fernando Silva, head de venture capital da Crescera Capital, a volatilidade do custo de capital cria choques recorrentes no ecossistema.
“Historicamente, o venture capital no Brasil é altamente correlacionado aos ciclos de juros. Como temos variações muito abruptas, isso gera choques frequentes no mercado, quase sempre negativos, como vimos nos últimos anos após o pico de 2021”, afirma.
A rápida transição de um ambiente de juros baixos para patamares elevados compromete não apenas novos aportes, mas a capacidade de crescimento das empresas já investidas.
“Quando você sai de uma taxa de 2% para mais de 12% em pouco tempo, o impacto é generalizado. Fica inviável financiar crescimento e inovação com custo de capital tão alto, o que acaba contaminando todo o ecossistema”, diz.
O cenário reflete limitações mais profundas do mercado brasileiro. A baixa profundidade do mercado de capitais e a ausência de grandes empresas de tecnologia com capacidade de liderar ciclos de inovação restringem o desenvolvimento do setor.
Nos Estados Unidos, grandes empresas de tecnologia atuam como motores de inovação, impulsionando aquisições e novos investimentos. No Brasil, esse papel ainda não se consolidou, o que reduz o dinamismo do ecossistema.
O crédito restrito e o alto custo de capital já impactam diretamente o dia a dia das startups. Empresas com modelos consolidados enfrentam dificuldades para captar novas rodadas, enquanto investidores adotam uma postura mais conservadora.
“No que acompanhamos de perto, há uma quantidade relevante de empresas buscando capital sem conseguir avançar em rodadas. Em alguns casos, inclusive dentro do nosso portfólio, empreendedores recorreram a recursos próprios para sustentar o crescimento, diante da dificuldade de captação, mesmo em negócios com fundamentos sólidos”, relata Mariz.
Mercado mais seletivo indica amadurecimento, apesar das restrições
Apesar do ambiente mais restritivo, o ciclo atual também aponta para uma mudança relevante na forma como os investimentos são estruturados no país. O movimento reflete uma transição em relação ao período anterior, marcado por excesso de liquidez e valuations inflados. Para João Braga, CEO e fundador da Booming, a correção foi necessária para reequilibrar o mercado.
“Naquele momento, vimos captações baseadas muito mais em expectativa do que em resultado. Isso naturalmente levou a uma correção relevante nos anos seguintes”, afirma.
O cenário atual indica um mercado mais criterioso, com foco crescente em eficiência financeira e geração de caixa.
“Hoje, as rodadas estão muito mais ancoradas em indicadores concretos, como EBITDA e histórico de receita, e menos em projeções de longo prazo. Isso torna o investimento mais técnico e menos baseado em narrativa”, diz.
A mudança também contribui para a consolidação de empresas mais resilientes, capazes de atravessar ciclos adversos.
“O que vemos hoje é um investidor mais próximo da operação, que entra não só com capital, mas com capacidade real de agregar valor ao negócio”, afirma. O avanço de estruturas híbridas de financiamento também ganha espaço no mercado.
“A combinação entre crédito e equity tende a ganhar mais espaço, trazendo mais disciplina para o mercado e ampliando as alternativas de crescimento para as empresas”, diz Braga.
A combinação entre juros elevados, menor liquidez e maior aversão ao risco limita o desenvolvimento da indústria em um momento em que o mundo vive uma nova onda tecnológica.
Para o executivo da Acrux, o cenário indica que análises baseadas apenas em variações pontuais podem distorcer a percepção sobre o estágio real do setor no país.
“Uma análise baseada apenas no crescimento em relação ao ano anterior pode levar a conclusões equivocadas. Quando ampliamos a perspectiva, fica evidente que o Brasil ainda está muito aquém do que deveria apresentar, inclusive considerando seu potencial empreendedor”, afirma Mariz.
Apesar das restrições, o país mantém uma base relevante de inovação, com alto volume de projetos e empresas em busca de capital.
“O Brasil é, por natureza, um país de empreendedores. O que se observa hoje é uma limitação muito mais associada ao ambiente macroeconômico do que à falta de projetos ou de capacidade de execução”, conclui.
Sobre a Acrux Capital
Fundada em 2003, a Acrux Capital investe e desenvolve ativos de baixa liquidez com especialização em NPLs, legal claims (aquisição de créditos e financiamento de litígios administrativos, judiciais e arbitrais) e venture capital.
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