Por que copiar estratégias pode prejudicar a competitividade das empresas no longo prazo
*Por João Paulo Melo, designer industrial, empreendedor e líder de projetos em mobilidade
Durante décadas, copiar produtos foi uma estratégia funcional para a indústria brasileira. Adaptar plataformas globais, replicar soluções já testadas e acelerar o time-to-market parecia a forma mais segura de competir em um ambiente de instabilidade econômica, volatilidade cambial e baixo acesso a capital. Essa lógica, no entanto, quando se transforma em método permanente, deixa de ser solução e passa a ser um entrave ao crescimento sustentável.
Hoje, grande parte dos produtos industriais nacionais ainda nasce de adaptações de referências externas. Não como ponto de partida estratégico, mas como padrão operacional. O resultado são portfólios com baixo grau de diferenciação, forte dependência tecnológica e dificuldade crescente de competir por valor. Em vez de liderar mercados, muitas empresas passam a disputar espaço apenas por preço, escala ou eficiência operacional, variáveis cada vez mais pressionadas no cenário global.
O problema não está em aprender com o que é feito fora do Brasil. A indústria global é interdependente por natureza. A questão central é quando a cópia substitui a decisão. Projetos mal definidos impactam diretamente os custos, geram retrabalho, ajustes tardios e soluções improvisadas ao longo da cadeia produtiva. Quando decisões estruturais são adiadas, a conta aparece mais adiante na forma de atrasos, desperdícios, baixa percepção de valor e perda de competitividade.
Empresas que tratam o desenvolvimento de produto como eixo estratégico operam de maneira diferente. Ao integrar design, engenharia, manufatura, suprimentos e estratégia de negócio desde as fases iniciais, reduzem incertezas, antecipam riscos e alinham expectativas antes que o produto chegue à linha de produção. Projeto, nesse contexto, não é estética, nem acabamento final. É decisão. É definir com clareza o que será produzido, para quem, com quais compromissos técnicos, econômicos e ambientais.
Países com indústrias consolidadas entenderam isso há décadas. Alemanha, Coreia do Sul e China não se destacaram apenas por escala ou custo. Investiram de forma consistente em desenvolvimento de produto como ferramenta estratégica, capaz de articular política industrial, desenvolvimento tecnológico e visão de longo prazo. O design industrial orienta investimentos, direciona competências e reduz a dependência de decisões externas.
No Brasil, o debate sobre industrialização ainda se concentra excessivamente em incentivos fiscais, volume de produção e redução de custos. Esses fatores são relevantes, mas insuficientes. Sem decisões claras de projeto, a indústria segue vulnerável a oscilações externas, dependente de plataformas globais e com baixa capacidade de inovação própria. A ausência de projeto não elimina riscos - apenas os empurra para fases mais caras do processo.
A agenda atual de reindustrialização, mobilidade elétrica e transição energética torna esse debate ainda mais urgente. Produzir localmente não é o mesmo que decidir localmente. Montar plataformas globais no país pode gerar empregos e volume, mas não garante domínio tecnológico, autonomia estratégica ou competitividade sustentável. Sem projeto próprio, a indústria apenas executa estratégias definidas fora de suas fronteiras.
Decidir é assumir responsabilidade. É escolher caminhos, abrir mão de atalhos e investir em competências que não geram retorno imediato, mas constroem relevância no longo prazo. A indústria brasileira não precisa copiar melhor. Precisa decidir melhor. Porque só decide quem propõe algo novo. E só lidera quem transforma projeto em estratégia.
João Paulo Melo é designer industrial, empreendedor e líder de projetos em mobilidade, com atuação em desenvolvimento de veículos, transporte coletivo, mobilidade elétrica e indústria automotiva nacional, com mais de 20 anos de experiência e premiação internacional.
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