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O que ainda impede mulheres de chegar à alta liderança no agronegócio

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Barreiras estruturais e comportamentais ainda limitam essa ascensão, mesmo em um setor marcado por transformações tecnológicas profundas e alinhado aos mercados globais, segundo Camila Marion, sócia da EXEC

Apesar do avanço da presença feminina em cargos de gestão, a chegada das mulheres ao topo das organizações brasileiras, especialmente no agronegócio, segue a passos mais lentos do que o esperado. Mesmo assim, seu protagonismo tem transformado o setor, trazendo inovação, inclusão e sustentabilidade para um mercado historicamente dominado por homens.

No entanto, alguns desafios dificultam a ida delas para cargos de alta liderança. Segundo uma pesquisa da Deloitte, 62% das mulheres do setor avaliam o número baixo de líderes femininas nas empresas do agronegócio como uma barreira para avançar em cargos de direção. Outras 57% citam a ausência de políticas institucionais de inclusão e 35% relatam não se sentirem ouvidas. O preconceito de gênero também segue presente. Um levantamento da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) destaca que 44% das profissionais já sofreram preconceito sutil e 30% de forma explícita.

Os entraves acontecem não apenas na porta de entrada. Ele se concentram, sobretudo, nos últimos degraus da escada corporativa, no qual os critérios formais coexistem com decisões informais, redes de influência e padrões históricos de liderança. Para Camila Marion, sócia da EXEC, consultoria especializada na seleção e desenvolvimento de altos executivos e conselheiros, a lentidão não decorre de um único fator, mas de um conjunto de dinâmicas estruturais e culturais.

“Muitas mulheres sentem que ainda não estão prontas para o passo seguinte e acabam não se alçando a cargos maiores. Em algumas empresas falta apoio claro da alta liderança. Historicamente, como o tema não foi tratado como prioridade, há a ausência de programas estruturados que impulsionem esse movimento, seja em contratações internas ou externas”, afirma.

A equação se torna ainda mais complexa quando a chamada “jornada dupla” entra em questão. A percepção, muitas vezes implícita, de que a executiva não terá disponibilidade total para cargos estratégicos devido às responsabilidades familiares ainda influencia as decisões. Soma-se a isso, de acordo com Marion, um “comodismo cultural” de parte da alta liderança, que evita enfrentar as transformações que a diversidade naturalmente provoca.

Vieses inconscientes: desafios “invisíveis”

Entre as principais barreiras invisíveis que mais impactam a ascensão das mulheres do agro em cargos de liderança, especialmente quando competência e performance já estão comprovadas, Camila destaca os vieses inconscientes e enumera alguns. “Falta de autoconfiança das mulheres, julgamentos que distorcem os mesmos adjetivos usados para os profissionais homens, condenação da empatia natural como algo pouco racional, constantes piadas de mau gosto e exclusão delas de espaços informais que concentram a reunião de homens”.

Essa exclusão afeta o acesso delas às decisões estratégicas. “No agro, esse efeito pode ser ainda mais evidente, já que muitas conexões profissionais acontecem em feiras, visitas técnicas, encontros regionais e agendas que extrapolam o horário tradicional de trabalho. Não se trata apenas da presença social, mas de participação em ambientes nos quais a confiança e influência são desenvolvidas”, ressalta Marion.

É nesses espaços que os líderes passam a ser lembrados para participar de projetos estratégicos, sucessões futuras e ocupar posições de maior responsabilidade. “Conversas espontâneas, trocas de experiência e proximidade com tomadores de decisão ajudam a consolidar a reputação e ampliar oportunidades”, complementa.

Reflexos nos processos de avaliação das mulheres

Esses vieses inconscientes se manifestam nos processos de avaliação e promoção dentro das organizações, muitas vezes sem que a liderança perceba. Camila destaca a vida dupla, que une trabalho e maternidade. “O julgamento é automático. A mulher que tem filhos não terá tanta disponibilidade para a alta rotina de viagens, que envolvem presença em campo, agendas extensas e atuação fora dos grandes centros. Conciliar essas demandas com responsabilidades familiares pode tornar o avanço profissional mais complexo, especialmente em fases da vida nas quais a carreira e a maternidade costumam coincidir”.

A sócia da EXEC avalia que as empresas do agronegócio tendem a associar a liderança a traços masculinos. “Por conta disso, muitas mulheres são avaliadas como ‘inferiores’ sob o ponto de vista de tempo de experiência, em posições de liderança sênior. Isso ocorre pelo fato de que o tema vem sendo tratado como relevante somente nos últimos sete anos. Outro ponto é que elas terão dificuldade de atuação em determinados cargos, pois terão pares homens bastante resistentes e não conseguirão realizar um bom trabalho”.

O chamado “double bind” (qualquer escolha leva a uma consequência negativa) também ocorre com frequência, segundo relatos ouvidos por Marion em rodas de conversa com as mulheres do agro. “Não importa o que fizermos, isso sempre será olhado sob o ponto de vista negativo. Se somos firmes, somos consideradas agressivas. Se somos cuidadosas, isso é sinônimo de fraqueza. Se somos diretas, dá a impressão de sermos rudes. Se somos diplomáticas, estamos enrolando. Se somos questionadoras, somos consideradas difíceis e resistentes. Se não há questionamentos, somos passivas ou pouco estratégicas. E assim por diante”, ressalta.

Para equilibrar aspectos como firmeza, autoridade e empatia sem obter esses rótulos, Camila aponta algumas saídas. “É preciso saber onde a mulher quer chegar, comunicar expectativas com transparência, sem abrir mão da escuta e do respeito pelas pessoas. Outro ponto que também ajuda no âmbito estratégico, é a construção de alianças com lideranças masculinas para endossar sua forma de atuar”.

Organizações com mulheres no topo x empresas com discurso vazio

Segundo a sócia da EXEC, empresas que promovem mulheres em cargos de alta liderança tratam o tema como prioridade da gestão e parte da estratégia. “Elas vinculam diversidade a metas concretas, acompanham indicadores de evolução, envolvem o alto escalão nas decisões, alteram práticas internas e estruturam pipelines de liderança feminina desde cedo. Já aquelas que permanecem apenas no discurso costumam concentrar ações em eventos ou campanhas, mas têm poucas ações. As que avançam promovem mudanças reais em processos decisórios, cultura organizacional e critérios de sucessão”.

Para que as mulheres cheguem ao topo sem precisarem se moldar a um padrão de liderança masculino, é preciso ampliar o próprio conceito de liderança. “A cultura corporativa brasileira evoluirá quando a liderança deixar de ter um padrão único e passar a valorizar os resultados entregues por diferentes estilos. O objetivo não é adaptar mulheres ao modelo existente, mas permitir que múltiplas formas de liderança coexistam entre si e sejam igualmente reconhecidas”, enfatiza Camila.

Hoje, os desafios corporativos exigem competências complementares, como colaboração, inteligência emocional, capacidade de escuta e construção coletiva de soluções. “O problema nunca foi o estilo feminino de liderar, mas a limitação dos modelos reconhecidos como legítimos”, pontua.

Dicas para as mulheres avançarem na liderança do agro

Camila fornece alguns conselhos para as mulheres executivas que já entregam resultados, mas sentem que ainda existe um teto frágil acima delas para chegar à liderança. O primeiro passo, segundo ela, é compreender que desempenho, embora essencial, nem sempre é suficiente para alcançar um alto cargo. “A alta liderança também envolve visibilidade estratégica, posicionamento e construção intencional de relações de confiança”.

Além disso, é importante jogar luz nas conquistas, participar de espaços de decisão, ampliar as redes de relacionamento e buscar patrocinadores executivos, ou seja, líderes que defendam o nome das mulheres quando as oportunidades surgem.

Outro ponto fundamental, de acordo com a sócia da EXEC, é não reduzir a própria ambição para se adaptar ao ambiente. “Muitas vezes, o chamado ‘teto invisível’ começa a ser rompido quando a mulher executiva assume o protagonismo de sua carreira, comunica claramente suas aspirações e passa a ocupar espaços antes não considerados naturais.

O agro precisa cada vez mais de lideranças diversas, e mulheres que já entregam resultados têm legitimidade para ocupar posições estratégicas e influenciar o futuro do setor. “O setor evoluiu e hoje é altamente tecnológico, estratégico e conectado aos mercados globais. Isso exige líderes capazes de tomar decisões assertivas e, ao mesmo tempo, engajar equipes, gerir conflitos e conduzir mudanças. Acredito que as mulheres têm contribuído para ampliar o próprio conceito de liderança no setor, mostrando que resultado e sensibilidade não são opostos, mas complementares”, conclui Marion.


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