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Reforma tributária redesenha a estratégia fiscal das empresas

  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Giullia Reggiolli
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*Ana Paula Maciel, diretora de conteúdo tributário da Vertex

Por muitos anos, o sistema tributário brasileiro funcionou como um jogo de regras pouco claras, marcado por disputas entre estados, acúmulo de impostos e uma complexidade normativa que exigia esforço constante das áreas fiscal e financeira. Com a aprovação da Reforma Tributária e o avanço das Leis Complementares, esse cenário muda de forma estrutural: o modelo é redesenhado, as premissas são alteradas e as empresas passam a operar sob uma nova lógica de tributação.

A promessa de simplificação trazida pelo IVA Dual, com a criação do IBS e da CBS, não significa uma adaptação imediata. O período de transição, que se estende de 2026 a 2033, inaugura justamente a fase mais sensível do processo, exigindo que as organizações convivam simultaneamente com o sistema atual e o novo modelo. Na prática, isso implica operar com duas estruturas de apuração, controle e compliance ao mesmo tempo, elevando o grau de complexidade operacional e estratégica.

Nesse novo contexto, a principal ruptura está na migração da tributação da origem para o destino. O imposto deixa de ser recolhido onde o produto é fabricado ou o serviço prestado e passa a incidir no local de consumo, desestruturando modelos baseados em incentivos fiscais regionais. A decisão estratégica deixa de ser apenas geográfica e passa a envolver logística, precificação e margens por mercado. A inteligência fiscal, antes vista como suporte ao compliance, assume papel central na competitividade e na sustentabilidade financeira das empresas.

Outro ponto de atenção que exige movimentos precisos é a tecnologia. A Reforma Tributária brasileira nasce digital. O conceito de split payment, que prevê o recolhimento do imposto no momento da liquidação financeira da transação, é revolucionário, mas impõe questões quanto ao fluxo de caixa. Se antes as empresas tinham prazos para recolher tributos, financiando-se com esse dinheiro no curto prazo, agora o Fisco retém sua parte em tempo real.

Neste cenário, a tecnologia fiscal não é mais sobre preencher guias, mas sobre conectividade e validação instantânea de regras. Quem ainda opera com sistemas legados ou processos manuais corre o risco de travar sua operação comercial. Qualquer erro no cadastro de um produto ou na classificação de um serviço não resultará apenas em uma multa futura, mas no bloqueio imediato da operação ou na retenção indevida de valores.

Além disso, temos a questão da não cumulatividade plena. A promessa de que "tudo gera crédito" é música para os ouvidos empresariais, mas a operacionalização disso exige um controle rigoroso. A empresa precisará garantir que seus fornecedores estejam regulares para que o crédito seja validado. Isso transforma a gestão de terceiros em uma peça-chave do tabuleiro. Um fornecedor inadimplente com o fisco pode se tornar um "peão" que impede a vitória na partida.

Portanto, o novo xadrez fiscal exige antecipação. Não basta esperar a obrigatoriedade bater à porta. As empresas precisam, agora, rodar simulações de impacto, revisar contratos de longo prazo, adaptar seus ERPs e, acima de tudo, aculturar seus times. O contador deixa de ser um "apurador de impostos" para se tornar um estrategista de dados.

A Reforma Tributária é, sem dúvida, um avanço necessário para a competitividade do Brasil no longo prazo. Mas, no curto e médio prazo, ela vai separar o mercado entre aqueles que entenderam as novas regras e aqueles que insistiram em jogar damas em um tabuleiro de xadrez. A simplificação virá, mas antes dela, teremos a complexidade da adaptação. E neste jogo, vence quem tiver a melhor tecnologia e a visão mais clara do tabuleiro.


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