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Pandemia inspirou brasileiro a pensar mais no futuro

O Valor Investe destaca que a pandemia fez a ampla maioria da população brasileira perceber sua renda como insuficiente para cobrir seu custo de vida, gerou atrasos em contas e postergou planos e realizações, mas também inspirou o brasileiro a pensar mais no futuro, buscar educação financeira e programar sua aposentadoria.

Essas são as principais conclusões do estudo “O bolso do brasileiro”, realizada pelo Instituto Locomotiva e pela Xpeed, braço de educação financeira da XP.

Que a covid-19 fez a maior parte da população penar nas finanças, já se imaginava, mas o levantamento traz números – e contornos de gravidade – à presumida situação.

“A pesquisa mostra que 63% consideram ter conhecimentos apenas básicos de educação financeira. Isso já é muito, mas o retrato é ainda pior, pois a maioria dos que descreviam ter conhecimento avançado mal dá conta de cálculos de juros simples. Temos uma demanda imensa por educação”, comenta Izabella Mattar, CEO da Xpeed.

A empresa foi lançada em junho para reorganizar as iniciativas pedagógicas da XP, “de olho em furar a bolha”, como ela define. “Havia uma demanda importante, antes da minha chegada, por organizar o pensamento e diferenciar bem os cursos de trade, por exemplo, dos conteúdos de educação mais básica”, ela comenta.

Já Renato Meirelles, diretor do Instituto Locomotiva, realça a proposta de medir os impactos de uma crise ocorrida em um contexto diferente dos que marcaram as últimas recessões. “A principal conclusão é que a educação financeira ganhou uma importância maior do que a que já existia, ainda mais na iminência do fim do pagamento, pelo governo, do auxílio emergencial”, comenta.

No dado mais chamativo, o estudo revela que 7 em cada 10 brasileiros concluíram, nos últimos 12 meses, que sua renda era insuficiente para cobrir seu custo de vida – são 115,5 milhões de brasileiros nessa condição, pontua Meirelles. E, nas classes D e E, o índice chega a 87%.

Isso levanta uma questão para agentes financeiros, sejam eles ligados a bancos tradicionais ou às jovens plataformas de investimento e educação: para uma população com a corda no pescoço, é possível falar sobre como investir, ou ainda é o caso de ensinar a evitar o endividamento?

“São movimentos paralelos. A maior razão que leva os brasileiros a traçar objetivos financeiros é justamente pagar dívidas, e a segunda é ter uma reserva para emergências, sendo que a maior emergência apontada pelos entrevistados é justamente não ter dívidas”, pontua Meirelles.

Para ele, essa pergunta ganhará novas respostas conforme aumente a penetração dos serviços oferecidos por fintechs. “Até há pouco tempo, qual era a lógica do banco? Emprestar o guarda-chuva no dia de sol e tirar quando começa a chover, e ganhar dinheiro com juros sobre empréstimos aos mais pobres e com comissões sobre investimentos dos mais ricos. Agora, é possível reverter essa lógica”, comenta.

O estudo apurou ainda que a pandemia fez 3 em cada 10 pessoas atrasarem pagamentos de contas, e 41% dos entrevistados disseram não ter como pagar uma despesa inesperada que equivalesse à renda deles em um mês – nas classes D e E, esse índice piora e chega a 47%.

Além disso, 8 em cada 10 entrevistados dizem ter objetivos financeiros, mas os principais são pagamento de dívidas e formação de reserva de emergência, e 29% nem sequer creem que sua condição permitirá alcançar essas metas.

A pesquisa delineia essa vulnerabilidade como um obstáculo para o desenvolvimento pessoal e, em último caso, para a felicidade. É o que se conclui do fato de que para 58% da população, a situação financeira impede a realização de coisas que consideram importantes. Entre pessoas com mais de 60 anos, esse índice dispara para 70%.

“A gente quis abordar questões pouco citadas, como a fobia financeira. Tem muita gente declarando que dinheiro é um problema que atrapalha a saúde mental. Muitos nem acompanham o extrato ou a fatura do cartão, preferem não pensar nisso. Acontece muito no Brasil, é um tema que vive embaixo do tapete. Estamos jogando luz”, situa Mattar, da Xpeed.

“Pesquisas mostram que quando estão devendo, as pessoas param de atender números desconhecidos no celular”, reforça Meirelles, da Locomotiva, sobre o dano psicológico causado pela fragilidade financeira. Ele completa: “O mercado tende a considerar os inadimplentes caloteiros, quando na verdade são os principais interessados em quitar suas dívidas e voltar ao ciclo de consumo. O sistema financeiro é uma corda: pode servir para se enforcar ou para sair do buraco. A educação serve para que essa corda seja bem utilizada”.

A pesquisa “O Bolso do Brasileiro” ouviu 1.501 pessoas com mais de 18 anos em todo o país, pela internet, entre 16 e 23 de outubro, e vai ser apresentada nesta segunda-feira, às 19h15, em meio à participação da Xpeed na 7ª Semana Nacional de Educação Financeira, que começa hoje (23) e vai até sexta-feira (27). O evento é promovido pelas entidades-membros do Fórum Brasileiro de Educação Financeira, incluindo Banco Central e CVM – veja, ao final, alguns destaques da programação da Xpeed ao longo da semana.

Mais preocupação com o futuro

Tanto Mattar, da Xpeed, quanto Meirelles, do Locomotiva, salientam um inusitado “efeito colateral” da covid-19: a janela de oportunidades contida no inesperado, com maior conscientização sobre a necessidade de se planejar para evitar tombos como o que foi causado pelo vírus.

Para 47% dos entrevistados, o novo coronavírus fez pensar mais no futuro; 41% dizem ter passado a pesquisar mais sobre finanças após a covid-19; e 90% sentem necessidade de educação para aprender a investir e a se organizar.

“A pandemia fez as pessoas terem de lidar com o assunto. Foi de maneira brutal, na veia, sem reserva. É um momento de conscientização, porque abre a cabeça; o cara acabou de sofrer a dor, é a melhor hora para falar nisso”, diz Mattar.

Meirelles concorda: “A pandemia fez o brasileiro pensar em alternativas nas quais até há pouco tempo não pensava, porque não tinha o conhecimento, nem havia plataformas que possibilitassem o acesso a investimentos. Hoje, tem várias. Isso é uma mudança de paradigma”.


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