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Feedbacks e a neurociência

Francisco de Mello Francisco de Mello

Por Francisco Homem de Melo

Os feedbacks construtivos são uma ferramenta extremamente poderosa de desenvolvimento pessoal e profissional, pois permitem acessar “pontos cegos” do comportamento, ou seja, ações que têm impactos os quais não se pode prever e nos fazem refletir e levam ao autoconhecimento. Além disso, servem de inspiração para planos de desenvolvimento: caminho para sermos melhores versões de nós mesmos. No entanto, receber feedbacks duros – críticas – pode ser muito difícil. O cérebro humano possui mecanismos de defesa extremamente apurados. Eles são herança de nossos ancestrais que viviam em selvas e savanas e se defendiam das mais diversas ameaças à sua vida. Nessa época, nossos parentes distantes tinham uma vantagem competitiva, e foram sendo selecionados por meio do processo de seleção natural.

Pense comigo: se dois hominídeos dessem de cara com um leão no meio da selva, quem sobreviveria? Aquele que por instinto saiu correndo sem olhar para trás, ou o outro que ficou pensando para saber se realmente aquele leão era uma ameaça? Fácil. Por isso, somos condicionados a responder a ameaças automaticamente. O que acontece no caso dos feedbacks é que, quando recebemos uma “crítica” nosso cérebro interpreta-a como uma ameaça à nossa sobrevivência. A crítica abala nossa autoestima e, consequentemente, tememos não ser bons o suficiente para fazermos parte do nosso meio social. Aí entramos em estado de alerta biológico: batimentos cardíacos acelerados e respiração mais curta.

A base científica do assunto é sólida. No seu livro “Your Brain at Work”, traduzindo para o português “Seu cérebro no trabalho”, David Rock, Diretor do Instituto de NeuroLiderança, iniciativa global que reúne neurocientistas e especialistas em liderança para construir uma nova ciência para o desenvolvimento, expõe uma das descobertas de suas pesquisas: as mesma conexões neurais utilizadas para processar necessidades sociais são utilizadas para processar necessidades de sobrevivência.

De outra forma: se sentimos fome ou somos rejeitados da nossa “tribo”, experimentamos a mesma sensação de ameaça. E o que é rejeição, se não ser excluído da “tribo” que escolhemos? Todos queremos pertencer, sermos amados e admirados. No entanto, receber um feedback construtivo significa intuitivamente o oposto disso. De maneira análoga ao fator biológico, psicologicamente, também nos sentimos atacados de algumas maneiras diferentes quando recebemos uma “crítica”.

Não raro, confundimos comportamentos com identidade: nossa identidade é abalada ao recebermos um conselho ou direcionamento. Acreditamos irracionalmente que “somos” aquele feedback. Tendemos a acreditar que algo é 100% verdade pela forma que nos sentimos no momento (o “raciocínio emocional”). Isto é, se estamos tendo um dia ruim tendemos a achar que somos ruins. Pensamos em termos de “tudo ou nada”: Tendemos a polarizar as situações, as tornando completamente boas ou completamente ruins. “Catastrofizamos”, ou seja, tendemos a exagerar o tamanho, escopo, magnitude e importância de um evento, pensamento ou sensação que nos afeta. Vimos, portanto, que há uma bandeja cheia de fatores biológicos e psicológicos que afetam a forma com que absorvemos e agimos com feedbacks críticos/construtivos.

Agora vamos ao mais importante: como melhorarmos nessa arte? Se estiver recebendo um feedback pessoalmente, mantenha sua linguagem corporal aberta (descruze braços e pernas), mantenha contato visual, faça perguntas para clarear seu entendimento e para que não haja nenhum mal-entendido. Também ajuda tentar resumir o que você entendeu. Apenas tome cuidado com as perguntas esclarecedoras, já que a tendência é que elas se tornem um instinto de defesa. Mesmo que a mensagem não seja nem justa nem verdadeira, sua defensividade pode passar a impressão de que você não é receptivo e bloquear futuros feedbacks. Dê tempo ao tempo, e reflita: da mesma forma com a qual você não deve rejeitar de imediato, também não deve aceitar prontamente o feedback que lhe é dado.

Aceite suas emoções negativas, pois é natural se sentir chateado quando recebemos um feedback negativo. Ao invés de reprimir essas emoções de raiva, ansiedade e orgulho ferido deixe-se apaziguar antes de seguir adiante. Uma boa tática é sair para dar uma volta e espairecer. Assuma o controle do seu desenvolvimento: Sempre que receber um feedback foque nas oportunidades de corrigir ou melhorar determinado comportamento ou competência.

Se você se tornou uma pessoa melhor tanto pessoalmente como profissionalmente, feche o loop: Retorne o seu aprendizado ao emissor do feedback e deixe-o sabendo o que você fez e de que forma teve impacto no seu desenvolvimento. Quando estiver tendo muita dificuldade em aceitar, tente pegar um pedaço de papel e divida-o em duas colunas. Na coluna da esquerda liste o que há de errado com o feedback recebido, podendo ser: a mensagem não é verdadeira; não é justa; foi dada em um momento inapropriado; os motivos para tal feedback são suspeitos; a pessoa estava emocionalmente enviesada no momento em que deu; ou emissor não teve nenhum tipo de cuidado e habilidade. Já na coluna da direita, liste tudo que você acredita estar certo no feedback recebido.

Aprender a administrar estas trocas nos permite expandir nossos horizontes e readquirir perspectivas mais rapidamente quando somos inundados por dúvidas e inseguranças. Desenvolvendo esta resiliência somos capazes de receber feedbacks construtivos com mais abertura e menos defensividade, criando um Growth Mindset e construindo um ambiente de suporte e transparência. Quem sai ganhando? Todo mundo.

Francisco Homem de Mello é fundador da Qulture.Rocks, software de gestão de desempenho. Especialista e estudioso em cultura organizacional. Autor do livro The 3G Way: Dream, People, and Culture, figurando entre os mais vendidos da Amazon em estratégia e negócios. Lança a próxima obra: “OKRs: Da Missão às Métricas”, com o objetivo de ajudar as empresas a implementar uma metodologia de metas direcionada para alcançar resultados.


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