Virou uma tendência? Como viver em 20 m² se tornou uma nova forma de morar nas cidades
Por Giovanni Bellincanta, arquiteto e urbanista e, sócio-proprietário da Bellincanta Arquitetura.
Durante décadas, o imaginário do morar ideal esteve associado à amplitude. Salas grandes, múltiplos ambientes, metros quadrados em abundância. Mas, à medida que as cidades se adensam e a vida urbana se torna mais dinâmica, essa lógica começa a perder força. Hoje, o valor do morar não está necessariamente no tamanho do espaço, mas na inteligência com que ele é pensado.
Viver em 20 m², contexto que antes soaria como limitação, passa a ser entendido como uma escolha sofisticada. Uma decisão que reflete mudanças profundas no comportamento urbano, na forma de ocupar a cidade e na relação com o tempo. Em grandes capitais globais como Nova York, Tóquio e Paris, essa transição já aconteceu há anos. O que vemos agora é a consolidação desse mesmo movimento em cidades brasileiras, especialmente no litoral catarinense.
São Paulo e Curitiba como laboratórios urbanos
Esse movimento não se limita ao litoral. Cidades como São Paulo e Curitiba já avançam ainda mais nesse modelo habitacional, com empreendimentos que projetam unidades entre 12 e 17 m². Nessas realidades, o compacto deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser parte estruturante da política urbana e do mercado imobiliário, especialmente em áreas centrais, eixos de transporte e regiões com alta concentração de serviços e empregos.
Essas cidades funcionam hoje como verdadeiros laboratórios urbanos para o restante do país, demonstrando que o desafio não está na metragem mínima, mas na qualidade do projeto, na integração com a cidade e na oferta de infraestrutura coletiva adequada.
O crescimento acelerado do valor do metro quadrado, a escassez de terrenos bem localizados e a busca por estilos de vida mais práticos e conectados fizeram com que os studios compactos deixassem de ser exceção. Eles passam a ocupar um papel central na nova paisagem urbana, atendendo tanto quem busca o primeiro imóvel quanto um público interessado em investir em imóveis mais líquidos e alinhados à realidade contemporânea.
O projeto como centro da experiência
O que transforma morar em 20 m² em um estilo de vida não é o contexto urbano. É o projeto. Um apartamento compacto só funciona quando cada escolha é intencional. Não há espaço para excessos, nem para soluções genéricas. Tudo precisa ter função, coerência e fluidez.
Nesse tipo de moradia, o edifício assume protagonismo. Academias, lavanderias compartilhadas, coworkings, áreas gourmet, espaços pet e mercados internos passam a funcionar como extensões naturais do apartamento. A casa deixa de ser um espaço isolado e se transforma em parte de um ecossistema pensado para facilitar o cotidiano. O morar se dilui entre o privado e o coletivo, criando uma experiência mais rica, prática e social.
Dentro da unidade, o design opera quase como engenharia de precisão. Mobiliários multifuncionais, marcenaria planejada até o teto, camas retráteis, mesas rebatíveis e soluções inspiradas em barcos e habitações móveis mostram que conforto não depende de metragem, mas de inteligência espacial. Cada centímetro é aproveitado com propósito, transformando restrição em criatividade.
Menos metragem, mais qualidade urbana
Outro aspecto fundamental desse novo estilo de vida é a relação com a mobilidade urbana. Muitos empreendimentos compactos não oferecem vagas de garagem para todos os apartamentos, refletindo uma mudança clara de comportamento. Para grande parte dos moradores, especialmente quem está no início da vida adulta, o automóvel deixa de ser central. Transporte via aplicativo, Bicicletários, espaços para patinetes e infraestrutura para transportes elétricos dialogam melhor com a lógica urbana atual, onde proximidade e mobilidade importam mais do que posse.
Essa transformação já está em curso no litoral de Santa Catarina. Escritórios de arquitetura da região vêm traduzindo essa nova lógica em projetos reais, alinhados ao plano diretor das cidades e às demandas contemporâneas de morar. É o caso da Bellincanta Arquitetura, que já desenvolveu cerca de sete projetos de studios compactos, com metragens médias em torno de 25 m², focados em transformar espaços reduzidos em experiências completas de habitar.
Mais do que uma tendência, viver em 20 m² representa uma mudança cultural. É sobre escolher morar melhor, não maior. Sobre valorizar o tempo, a localização, o desenho e a cidade como extensão da casa. Um jeito mais inteligente de morar, que não se mede em metros quadrados, mas em qualidade de vida.
No fim, o novo morar urbano não ocupa espaço. Ele ocupa sentido.
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