Brasil,

Infraestrutura Aeroportuária e as Razões para se Comemorar

César Bergo

O sucesso do leilão de aeroportos realizado na última quarta-feira, que atraiu interessados para todos os 3 blocos (sul, norte I e central) e garantiu ao governo federal uma arrecadação inicial de R﹩ 3,3 bilhões, com um ágio médio acima dos 3.822%, possui sólidas razões ser comemorado. São estimados investimentos da ordem de R﹩ 6 bilhões, nos próximos 30 anos, nos 22 aeroportos objeto do certame. O elevado ágio pago pelo negócio decorre mais de modelos e premissas da precificação utilizados pelas partes do que de um eventual comportamento temerário dos vencedores. Além do caráter pioneiro envolvendo aeroportos brasileiros de médio e pequeno portes, temos que eventual ônus a ser pago pelo desbravamento está diretamente associado ao risco assumido e demonstra tão-somente a determinação e o otimismo dos vencedores da disputa na crença de obter o retorno adequado para seus investimentos.

Este acontecimento comprova que o Brasil, pela dimensão continental de seu território e pelo tamanho de sua população, é uma economia que está no radar dos investidores globais e apresenta muito pontencial sendo, portanto, de grande atratividade para empreendimentos dessa natureza e porte, sobretudo se preservada a estabilidade econômica.

Por exigirem grandes espaços para suas instalações, os aeroportos influenciam a estrutura urbana e a própria distribuição espacial e o adensamento da população em seu entorno. Assim, o mesmo aeroporto que pode induzir e atrair o crescimento urbano, acabam mais tarde sendo indesejado pela população próxima as suas instalações, em decorrência de todas as suas externalidades negativas. Em contrapartida, os aeroportos geram grandes benefícios socioeconômicos em termos locais, regionais e, em alguns casos, até internacionais. Em muitos lugares tornam-se verdadeiras "cidades", graças ao intenso fluxo de pessoas que utilizam sua estrutura. Uma boa e eficiente infraestrutura aeroportuária mostra-se decisiva para a competição no mundo empresarial.

No que tange a integração e ao desenvolvimento regional, a própria dinâmica da logística territorial evidencia que os terminais aeroportuários agregam significativo valor aos insumos e serviços que circulam em seus domínios. Além disso, as riquezas estão cada vez menos sendo materializadas, passando a se concentrar na mão-de-obra especializada, na informação e no uso de recursos da telemática.

Com efeito, os aeroportos se transformaram em centros difusores de inúmeros negócios, destacando-se a locação de espaços nos terminais para empreendimentos relacionados ao comércio, hotelaria, estacionamento de veículos e lazer, dentre outros. O desenvolvimento desses negócios vem possibilitando a obtenção de maior volume de receitas e exigindo, neste novo contexto, que as instalações físicas tenham seu uso otimizado e adaptado a este novo modelo privado de operação dos terminais aeroportuários. Há muito, deixaram de ser simples locais de pouso e decolagem de aeronaves e de embarque e desembarque de cargas e passageiros. Hoje, abrigam inúmeros empreendimentos com altíssima rentabilidade. Pelo novo conceito, eles devem ser menos locais de pouso e decolagem e mais centros de convivência e de negócios. Será cada vez mais comum observar pessoas passeando, comprando, saindo de um cinema ou academia, dando contornos à revolução que vem ocorrendo nos aeroportos brasileiros.

A razão do crescente interesse da iniciativa privada é o crescimento observado no trânsito de passageiros e no transporte de cargas no país, que acentua a importância de serem promovidos ajustes na infraestrutura de transporte visando sustentar esse crescimento. Além disso, temos o extraordinário sucesso de outras concessões já realizadas neste setor, que podem justificar inequivocamente o interesse de grandes grupos de investidores.

Dessa forma, é necessário avaliar os benefícios econômicos e sociais para o Estado brasileiro em manter a gestão e a propriedade desses empreendimentos, principalmente em um cenário de escassez de recursos públicos.

Do lado das companhias aéreas podemos observar que, em razão da acirrada concorrência, estão cada vez mais empenhadas em oferecer melhores serviços com o fito de conquistar clientes, mediante a incorporação permanente de atributos que garantam a qualidade, a segurança, a agilidade e a comodidade.

Quanto aos grupos privados e seus investidores, mormente aqueles com conhecimento na administração de terminais de transporte aéreo, procuram desenvolver modelos de negócios calcados na sua própria experiência e adaptados a cada um dos terminais objeto do leilão. Enxergam o aeroporto como centro difusor de negócios e que deve acolher adequadamente as pessoas que nele transitam. Consideram a todos um possível cliente de produtos e serviços ou de parceria em eventuais negócios. Desenvolvem ações para que todas e quaisquer áreas do terminal sejam devidamente ambientadas para serem lugares harmonicamente ocupados por espaços para entretenimento e repouso, praças de alimentação e lojas de todo o tipo, com o objetivo de acolher clientes de renda acima da média e com muita disposição para o consumo.

É notório que o modelo atual de funcionamento dos aeroportos oferecidos no leilão já não se mostra capaz de fazer frente aos desafios do mercado e possuem limitações para a ampliação e crescimento requeridos pela malha aeroviária, sobretudo pelos custos operacionais e administrativos elevados e reduzida produtividade, proporcionada pela ausência dos investimentos necessários. O governo federal também não se mostra capaz de efetuar tais investimentos.

O certame atraiu investidores interessados nos altos retornos projetados para essa atividade de administração de terminais aeroportuários. Tudo indica que esse setor esteja entre os que apresentarão uma recuperação rápida após vencida esta situação de pandemia que vimos enfrentando. A expectativa otimista desses investidores estão calcadas em um cenário de crescimento da aviação regional, com a forte entrada de participantes internacionais, e no aumento das viagens e do transporte de carga.

Para as empresas aéreas, também, parece ser um bom negócio, eis que não podem se conformar em apenas oferecer o meio de transporte mais veloz que existe. Elas precisam pensar, também, na infraestrutura aeroportuaria que torne o tempo dos passageiros mais útil e divertido. Assim, o maior desenvolvimento do lado comercial dos aeroportos poderá trazer grandes beneficios às comunidades locais e ao Pais que, além do aumento na geração de empregos diretos, os terminais poderão expandir seus mercados consumidores e obter novas receitas para seu custeio operacional.

Ainda, no tocante as companhias aéreas, destacamos que as forças da "economia de mercado" estão ensejando adoção de uma série de adequações para melhoria da competitividade e do posicionamento de mercado. O processo de globalização dos mercados fez com que a competição neste setor não ficasse restrita às empresas brasileiras. As fronteiras nacionais estão deixando de ser um obstáculo e as gigantes mundiais do setor já vem operando no País, com a tendência de aumentarem sua participação no mercado brasileiro.

A perspectiva de boa e eficiente gestão desses empreendimentos é capaz de proporcionar novo fôlego a economia das regiões do entorno desses terminais, introduzido novas e modernas técnicas de gestão aliadas à melhoria na prestação de serviços e na obtenção de novas fontes de receitas, provocando mudanças no modelo financeiro e econômico do setor aeronautico.

Parece que, pelo êxito do leilão promovido pelo governo federal, estas forças positivas estarão presentes nos negócios envolvendo o setor aeroportuário, que se beneficiará de uma crescente movimentação de pessoas e de bens em suas dependências e deixarão, paulatinamente, de ser meros terminais de transporte para transformarem-se em polos de desenvolvimento. As regiões ganharão a oportunidade de ter maior acesso aos mercados e promover o setor de turismo. Também ganharão com a geração de empregos, impostos, investimentos e crescimento do comércio.

Neste momento em que vivemos este estado pandêmico global, todos nós estamos empreendendo uma jornada extraordinária e um tanto arriscada para um mundo afetado pela necessidade de mudanças. Alguns negócios se fortalecerão, bem como teremos negócios sucumbido na medida exata de sua capacidade de interpretar o momento e de compreender as implicações das diversas formas que emergiram desta crise. Parece-me que a infraestrutura aeroportuária demonstrou querer vencer este desafio.

César Bergo é Coordenador da Pós-Graduação em Mercado Financeiro e Capitais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília (FPMB) e presidente do Conselho Regional de Economia da 11ª Região. Especialista em governança corporativa, sociólogo e economista, com atuação no mercado financeiro há mais de 30 anos.

Sobre a Faculdade Presbiteriana Mackenzie

A Faculdade Presbiteriana Mackenzie é uma instituição de ensino confessional presbiteriana, filantrópica e de perfil comunitário, que se dedica às ciências divinas, humanas e de saúde. A instituição é comprometida com a formação de profissionais competentes e com a produção, disseminação e aplicação do conhecimento, inserida na sociedade para atender suas necessidades e anseios, e de acordo com princípios cristãos. O Instituto Presbiteriano Mackenzie (IPM) é a entidade mantenedora e responsável pela gestão administrativa dos campi em três cidades do País: Brasília (DF), Curitiba (PR) e Rio de Janeiro (RJ). As Presbiterianas Mackenzie têm missão educadora, de cultura empreendedora e inovadora. Entre seus diferenciais estão os cursos de Medicina (Curitiba); Administração, Ciências Econômicas, Contábeis, Direito (Brasília e Rio); e Engenharia Civil (Brasília). Em 2021, serão comemorados os 150 anos da instituição no Brasil. Ao longo deste período, a instituição manteve-se fiel aos valores confessionais vinculados à sua origem na Igreja Presbiteriana do Brasil.


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