Por que o risco deixou de ser custo e virou vantagem competitiva no ambiente corporativo
Por Felipe Ramos, empreendedor do setor de seguros e CEO da Granto Seguros*
Durante décadas, o risco ocupou um lugar silencioso dentro das empresas. Era tratado como custo necessário, vinculado a compliance, jurídico ou seguros corporativos, acionado apenas quando algo dava errado. Esse modelo funcionou em um ambiente econômico mais previsível, com cadeias produtivas estáveis e menor dependência tecnológica. Atualmente, porém, essa lógica se tornou insuficiente. A complexidade operacional, a volatilidade econômica e a digitalização dos negócios transformaram o risco em elemento central da estratégia corporativa. Empresas que ainda o tratam apenas como mecanismo defensivo operam com uma leitura ultrapassada da própria competitividade.
Os dados mostram que a incerteza deixou de ser exceção para se tornar condição permanente do mercado. Segundo o Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, mais de 52% dos executivos globais apontam instabilidade econômica, rupturas em cadeias de suprimentos e riscos tecnológicos como as principais ameaças ao crescimento nos próximos dois anos. No Brasil, a Confederação Nacional da Indústria indica, em levantamento de 2024 sobre competitividade, que interrupções logísticas e imprevisibilidade contratual já figuram entre os fatores que mais impactam custos operacionais da indústria. Nesse cenário, risco não pode mais ser tratado como evento isolado. Ele passa a integrar a própria infraestrutura do modelo de negócio, assim como tecnologia, logística e capital humano.
O erro recorrente está na tentativa de minimizar o risco em vez de arquitetá-lo. Historicamente, organizações responderam à incerteza com seguros pontuais, exigências contratuais adicionais ou aumento de garantias financeiras. Essa fragmentação cria a sensação de proteção, mas não gera previsibilidade operacional. A mudança de paradigma ocorre quando o risco passa a ser desenhado dentro do fluxo produtivo, permitindo decisões mais rápidas, expansão segura de fornecedores e maior capacidade de escala. Cadeias resilientes não são as mais rígidas, mas aquelas capazes de redistribuir exposição de forma inteligente, absorvendo choques sem interromper crescimento.
A inteligência artificial acelera essa transformação ao deslocar o risco do campo reativo para o preditivo. De acordo com o relatório AI in Risk Management 2025, da Deloitte, empresas que utilizam modelos preditivos baseados em dados reduziram em até 30% perdas associadas a inadimplência e falhas operacionais. No Brasil, a pesquisa TIC Empresas 2023, do Comitê Gestor da Internet, mostra que 98% das companhias já utilizam internet em seus processos, mas apenas uma parcela avançada consegue transformar dados em inteligência estratégica. A diferença competitiva emerge justamente nesse ponto. A IA não elimina o risco, mas reduz a incerteza ao antecipar fragilidades contratuais, gargalos logísticos e comportamentos financeiros antes que se tornem passivos.
Existe a percepção de que ampliar estruturas de governança pode tornar operações mais lentas e burocráticas. A prática recente mostra o contrário. Segundo estudo da McKinsey publicado em 2024 sobre resiliência corporativa, empresas que integram gestão de risco às decisões operacionais apresentam recuperação até duas vezes mais rápida após choques econômicos relevantes. Governança deixa de ser camada de controle posterior e passa a funcionar como fluidez estruturada. Ao integrar dados, garantias e análise contínua ao fluxo operacional, organizações reduzem retrabalho, diversificam cadeias de fornecimento e ampliam segurança para crescer.
Essa transformação também redefine a forma como o mercado financeiro avalia empresas. Investidores passaram a precificar previsibilidade e governança com mais peso, especialmente após sucessivas crises globais. Relatório da PwC sobre tendências de governança corporativa de 2025 aponta que companhias com estruturas maduras de gestão de risco apresentam menor volatilidade de resultados e maior confiança institucional, fator diretamente associado a valuation mais elevado.
Risco estruturado deixa de representar proteção contra perdas e passa a compor a narrativa estratégica de crescimento sustentável. As empresas que compreenderem essa mudança e aprenderem a precificar e arquitetar risco antes das demais não apenas atravessarão períodos de instabilidade. Elas concentrarão mercado enquanto concorrentes ainda tentam apenas se defender.
*Felipe é empreendedor com mais de 18 anos de experiência e fundador da Granto, insurtech e corretora 100% digital especializada em Seguro Garantia. Atua no desenvolvimento de soluções que ajudam empresas a substituir cauções em dinheiro, depósitos judiciais e bloqueios financeiros por modelos mais eficientes de gestão de risco e capital.
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