Por que decisões femininas redefinem estratégias de gestão e investimento
Por João Marcos Rios
Durante muito tempo, setores ligados ao cuidado foram tratados como extensões da vida privada — e não como mercados que exigem gestão, escala e estratégia. Saúde animal, educação prática e cuidado sênior cresceram impulsionados por demanda real, mas por anos permaneceram à margem dos debates sobre profissionalização. O que mudou esse cenário não foi apenas o aumento do consumo, mas a forma como as decisões passaram a ser tomadas.
Na prática empresarial, tornou-se impossível ignorar que são as mulheres que ocupam o centro dessas escolhas. São elas que decidem onde seus pets serão atendidos, que buscam formação para aprimorar a gestão de seus negócios e que conduzem, direta ou indiretamente, as decisões relacionadas ao cuidado com familiares idosos. À medida que esse protagonismo se consolidou, a exigência por serviços mais estruturados deixou de ser opcional e passou a ser determinante para o crescimento.
Do ponto de vista do mercado, isso produziu um efeito claro: setores historicamente associados ao cuidado passaram a ser pressionados por padrões mais altos de qualidade, previsibilidade e organização. A informalidade, que durante anos foi tolerada, começou a perder espaço para modelos de negócio capazes de oferecer consistência, processos claros e visão de longo prazo.
No setor veterinário, esse movimento é evidente. A presença feminina é dominante tanto entre as profissionais quanto entre as responsáveis pelas decisões de consumo. Médicas-veterinárias, gestoras e tutoras passaram a exigir estruturas mais completas, atendimento padronizado, tecnologia e clareza nos processos. O que antes era sustentado quase exclusivamente pela relação pessoal passou a demandar gestão profissional — não como diferencial, mas como condição básica para crescer de forma sustentável.
O mesmo raciocínio se aplica ao cuidado sênior. Por décadas, essa responsabilidade esteve concentrada no ambiente doméstico e, em grande parte, nas mãos das mulheres. Com o envelhecimento da população e a mudança da dinâmica familiar, esse modelo se tornou insuficiente. O cuidado com idosos passou a exigir soluções estruturadas, capazes de equilibrar acolhimento humano com gestão eficiente, sustentabilidade financeira e escala. Mais uma vez, a pressão por profissionalização veio de quem vivencia o problema no dia a dia.
Há um ponto em comum entre esses mercados: todos cresceram sustentados por decisões femininas, mas demoraram a ser tratados como setores estratégicos do ponto de vista empresarial. Quando esse público deixou de aceitar improviso, inconsistência e falta de padrão, a transformação se tornou inevitável. A profissionalização não surgiu como tendência, mas como resposta direta a uma nova régua de exigência.
Para empresários e investidores atentos, esse movimento representou mais do que uma mudança de comportamento. Representou oportunidade. Profissionalizar setores tradicionalmente negligenciados significou transformar relações emocionalmente sensíveis em operações sustentáveis, sem perder a dimensão humana que caracteriza esses negócios. Foi preciso rever premissas, ajustar modelos e entender que, nesses casos, escala só é possível quando vem acompanhada de organização e governança.
Nesse contexto, atuar em mais de um setor deixa de ser dispersão e passa a ser leitura estratégica. Saúde animal, educação prática e cuidado sênior compartilham um mesmo vetor: são mercados impulsionados por decisões conscientes, alta recorrência de consumo e demanda crescente por gestão profissional. Conectar essas frentes sob uma lógica comum permite construir negócios que crescem com consistência, e não apenas em volume.
O futuro desses setores será definido menos por discurso e mais por estrutura. À medida que as mulheres seguem ocupando posições centrais na economia, mercados antes tratados como secundários tendem a ganhar protagonismo também no radar de investimento. Para empresários, o recado é direto: compreender quem decide, como decide e o que exige deixou de ser questão de sensibilidade e passou a ser fator de sobrevivência competitiva.
A profissionalização dos setores ligados ao cuidado não é uma pauta circunstancial. É um reflexo claro da transformação do papel feminino na sociedade e na economia — e uma das chaves para entender onde estão as oportunidades reais de crescimento nos próximos anos.
Sobre João Marcos Rios
João Marcos Rios, 30 anos, é empresário e investidor multissetorial, cofundador da VFP, rede de hospitais veterinários de alta complexidade. Sua atuação é marcada pela profissionalização de setores que historicamente operaram com baixa maturidade de gestão, especialmente na saúde veterinária. Ao longo da trajetória, estruturou negócios escaláveis com foco em eficiência operacional, uso estratégico de tecnologia e crescimento sustentável. Também atua como mentor de empresários e executivos em fase de expansão.
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