Impacto social nas empresas: transformações em pessoas, cultura e carreiras
*Por David Braga
O Brasil é um país de contrastes profundos. Ao mesmo tempo em que figura entre as maiores economias do mundo, convive com índices alarmantes de fome e desigualdade. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), mais de 33 milhões de pessoas passam fome no país, muitas delas crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade. Essa realidade escancara um desafio coletivo: nenhum setor, isoladamente, é capaz de enfrentar problemas dessa magnitude.
É nesse contexto que o Terceiro Setor se consolida como um elo estratégico entre governos, empresas e sociedade civil. Quando diferentes atores se unem em torno de um propósito comum, o impacto deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. A transformação social sustentável nasce da cooperação, da continuidade e da capacidade de gestão.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que impacto social consistente exige mais do que boa vontade. Exige visão de longo prazo, governança, profissionalização e pessoas qualificadas. Organizações sociais precisam ser tratadas com o mesmo rigor estratégico das empresas privadas. O Terceiro Setor não pode ser visto apenas como assistência: ele é um agente complementar às políticas públicas e um espaço legítimo de desenvolvimento humano, social e profissional.
O ChildFund Brasil é um exemplo concreto dessa lógica aplicada na prática. Com 59 anos de atuação, a organização construiu um trabalho sólido no apoio a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e hoje é reconhecida entre as 100 melhores ONGs do país. Presente em 95 municípios brasileiros, impactou mais de 1,3 milhão de pessoas apenas em 2024. São 41 mil famílias inscritas no programa de apadrinhamento e mais de 1.300 voluntários atuando de forma contínua. Esses números não são fruto do acaso, mas de uma combinação entre compromisso social, governança estruturada e gestão eficiente.
Um ponto que merece destaque nesse processo é o papel do voluntariado qualificado. No Terceiro Setor, voluntariar-se vai muito além da boa intenção. Trata-se de uma entrega estratégica, responsável e transformadora. Executivos que atuam como conselheiros ampliam sua visão sistêmica, desenvolvem competências de liderança, empatia e tomada de decisão em contextos complexos. Ao mesmo tempo em que contribuem para o fortalecimento institucional das organizações, agregam valor às próprias trajetórias profissionais.
Nesse movimento de fortalecimento da governança, o ChildFund Brasil passou recentemente por uma renovação em parte de seu Conselho de Administração, incorporando profissionais com sólida experiência nas áreas de marketing, desenvolvimento de negócios, recursos humanos e educação. A diversidade de olhares e competências no nível estratégico é essencial para ampliar impacto, garantir sustentabilidade e responder com agilidade aos desafios sociais contemporâneos.
Contribuir com o Terceiro Setor é uma escolha que transcende cargos, agendas e interesses individuais. Sempre é possível fazer algo: doar tempo, conhecimento, escuta, influência ou recursos. Essa atuação não apenas amplia repertórios e fortalece a credibilidade profissional de quem contribui, como também ajuda a construir uma liderança mais consciente, empática e conectada com a realidade do país.
Em um Brasil marcado por profundas desigualdades, escolher contribuir é escolher não ser indiferente. O desenvolvimento social não é responsabilidade de poucos, mas um dever coletivo. Quando cada gesto se soma, o impacto deixa de ser abstrato e passa a transformar, de fato, vidas, organizações e futuros.
David Braga – CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search, empresa de busca e seleção de executivos, presente em 30 países e 50 escritórios pela Agilium Group. Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG); É conselheiro de Administração e professor pela Fundação Dom Cabral e Presidente do Conselho de Administração da ONG ChildFund Brasil.
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