Queda da sinistralidade expõe fragilidade de pequenas operadoras de saúde
Especialista em acesso à saúde analisa os dados consolidados de 2025 e aponta os três vetores que vão definir o setor nos próximos anos
Os números da saúde suplementar brasileira em 2025 são, à primeira vista, de recuperação expressiva: receita total de R$ 391,6 bilhões, lucro líquido de R$ 24,4 bilhões e sinistralidade de 81,7% — o menor índice em cinco anos. Mas por trás desses indicadores recordes existe uma dualidade estrutural que merece atenção: enquanto as grandes operadoras colhem os frutos de um choque de gestão bem executado, operadoras de pequeno porte e autogestões enfrentam uma lógica de sobrevivência cada vez mais difícil em um mercado em acelerada concentração.
A análise é de Antonio Carlos Matos da Silva, mestre em Farmácia, mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-EAESP, com MBA em Healthtech pela FIAP e mais de duas décadas de experiência em estratégias de acesso no setor de saúde. "A queda da sinistralidade não é um fenômeno exógeno. Ela reflete o amadurecimento de mecanismos de auditoria em tempo real e a verticalização assistencial nas grandes companhias. O problema é que esse sucesso é altamente concentrado: apenas três grandes players respondem por quase metade da performance de todo o ecossistema", afirma o especialista.
Ele também chama atenção para um dado que costuma passar despercebido no otimismo dos balanços: R$ 14,7 bilhões do resultado total vieram de ganhos financeiros, sustentados pelo ambiente de juros elevados. "Quando a Selic eventualmente ceder, veremos quem de fato construiu eficiência operacional e quem dependeu das aplicações para fechar o balanço", alerta Matos da Silva.
Para as autogestões — que operam com um público cativo e baixíssima rotatividade — o especialista identifica um paradoxo estratégico: estão entre as mais pressionadas operacionalmente, mas têm nas mãos exatamente o ativo mais raro do setor: a estabilidade demográfica de longo prazo. "É o nicho que reúne as condições ideais para investir em prevenção e novos modelos de remuneração, mas talvez falta clareza sobre como transformar isso em vantagem competitiva", avalia.
Matos da Silva aponta três vetores que vão condicionar o setor nos próximos anos: a capacidade de manter margens sem o suporte dos ganhos financeiros; a consolidação inevitável entre pequenas e médias operadoras; e a adoção de inteligência artificial para detecção de anomalias e controle do custo médico crescente.
Importante notar, ainda, explica Antonio Carlos Matos da Silva, que a ANS também publicou os dados de desempenho no relacionamento com o consumidor, que utilizam o Índice Geral de Reclamações (IGR) como métrica oficial. Esses dados, ao analisar o desempenho das dez maiores operadoras do país, mostram uma leve queda no volume de queixas no último trimestre de 2025. Esse descolamento entre a redução de custos e o volume de reclamações pode indicar que a queda da sinistralidade não está relacionada a glossas ou mais restrições deliberadas pelas operadoras, mas sim ao combate aos desperdícios e à otimização de processos — sem cercear o direito do beneficiário ou comprometer o desfecho clínico
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