Saúde mental nas empresas ganha urgência com proximidade da nova NR-1
Levantamento mostra um cenário de despreparo diante de uma mudança estrutural na forma de gerir pessoas e riscos corporativos
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a vigorar em 26 de maio de 2026, inaugura uma nova fase na gestão de saúde e segurança no trabalho no Brasil ao tornar obrigatória a identificação e o monitoramento dos chamados riscos psicossociais. Apesar da proximidade do prazo, um levantamento realizado em janeiro pela consultoria Heach revela que 68% das organizações ainda não compreendem plenamente as exigências da norma, evidenciando um cenário de despreparo diante de uma mudança estrutural na forma de gerir pessoas e riscos corporativos.
A advogada Glauce Fonçatti, especialista em direito do trabalho, sócia do Escritório Batistute Advogados, explica que a NR-1, considerada a “norma mãe” das diretrizes de segurança do trabalho no país, foi atualizada para incluir explicitamente fatores que afetam a saúde mental no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). “Na prática, isso significa que elementos antes tratados como questões subjetivas ou de bem-estar passam a integrar o rol de riscos formais que devem ser mapeados, mensurados e mitigados pelas empresas, com possibilidade de auditoria e responsabilização”, afirma.
Entre os principais riscos psicossociais que entram no radar corporativo, segundo a especialista, estão a sobrecarga de trabalho, metas irreais, pressão constante por resultados, jornadas prolongadas, conflitos interpessoais, assédio moral e sexual, falhas de comunicação e ambientes organizacionais tóxicos. “Também entram nessa lista fatores mais sutis, como falta de reconhecimento, insegurança no emprego e liderança despreparada, aspectos que, quando combinados, podem levar a quadros de ansiedade, depressão, burnout e queda de engajamento.”
Os impactos dos riscos psicossociais já são mensuráveis. Em 2025, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de licenças médicas, sendo mais de 500 mil relacionadas a transtornos mentais, um recorde histórico. Esse cenário pressiona diretamente indicadores como absenteísmo (ausência do funcionário ao trabalho, abrangendo faltas justificadas, injustificadas, atrasos ou saídas antecipadas), presenteísmo (quando o colaborador está presente, mas produz menos), rotatividade e produtividade, transformando a saúde mental em uma variável econômica relevante para as empresas.
No plano global, a Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade geram a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com impacto econômico de aproximadamente US$ 1 trilhão. Por um lado, esses números ajudam a dimensionar o potencial custo de ignorar os riscos psicossociais, o que se materializa em afastamentos, ações judiciais, perda de talentos e queda de desempenho operacional.
Por outro lado, para se adequarem à nova NR-1, as empresas precisarão investir em diagnóstico organizacional, criação de indicadores, capacitação de lideranças e implementação de políticas estruturadas de prevenção. “Inevitavelmente essa adequação representa um aumento de custos no curto prazo, especialmente em tecnologia, consultorias e programas de saúde mental, mas a adequação tende a reduzir despesas indiretas ao longo do tempo, como turnover, sinistralidade em planos de saúde e passivos trabalhistas”, ressalta Glauce.
Mais do que uma obrigação legal, a nova NR-1 consolida uma mudança de paradigma: saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a ocupar posição estratégica na gestão empresarial. “O desafio, no entanto, está em equilibrar essa agenda com a realidade operacional das empresas, especialmente as de menor porte, que ainda carecem de estrutura e conhecimento técnico para implementar sistemas robustos de monitoramento e prevenção”, pondera a advogada.
Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
<::::::::::::::::::::>