Fuga em massa de associados dos sindicatos?
Quando o diálogo morre, as instituições definham. E o que sobra é a vontade de poder.
Não há qualquer dúvida que os sindicatos da categoria perderam força. Mas, talvez, queiram se manter no poder. E isto, repito, não é errado. Errado seria fingir que nada mudou.
Se uma comparação fosse traçada desde os anos 1990, jamais estivemos tão distantes de uma realidade de vigor e influência como agora. Os números confirmam o que o corretor de seguros sente na pele: o associativismo sangra no precipício, a receita financeira legal despenca, e a representatividade se esvazia. O que resta, em muitos casos, são eleitores personalizados, alguns insatisfeitos e dirigentes.
Os números não mentem
O IBGE divulgou em novembro de 2025 os dados da PNAD Contínua sobre características adicionais do mercado de trabalho. Em 2024, a taxa de sindicalização ficou em 8,9% dos ocupados — 9,1 milhões de pessoas. Houve, é verdade, um leve repique de 812 mil novos filiados após anos de hemorragia. Mas a perspectiva histórica é devastadora: em 2012, eram 14,4 milhões de sindicalizados, correspondendo a 16,1% da força de trabalho. A queda acumulada em doze anos supera 36%.
E não se trata de um fenômeno localizado. Todas as regiões do país registraram retração. O Sul caiu de 20,3% para 9,8%. O Centro-Oeste despencou de 14% para 6,9%, a menor proporção entre todas as macrorregiões. O Sudeste, motor econômico do país, recuou de 14,9% para 9,2%. A sangria é transversal, generalizada e persistente.
O próprio IBGE reconhece que a expansão da população ocupada nos últimos anos não se converteu em aumento da cobertura sindical. Mais gente trabalhando, menos gente se filiando. Esse divórcio entre emprego e associativismo é o retrato mais fiel do fracasso institucional.
A perda de receita é consistente — e estrutural
Primeiro, o Imposto Sindical obrigatório foi derrubado pela Reforma Trabalhista de 2017. A Lei 13.467 transformou a contribuição em facultativa, e a arrecadação desabou. O STF, no julgamento da ADI 5794, confirmou a constitucionalidade dessa mudança e foi além: reconheceu expressamente o engajamento notório de entidades sindicais em atividades políticas, o lançamento e apoio a candidatos, e os estreitos laços com partidos. Em outras palavras, o próprio tribunal supremo admitiu que exigir contribuição compulsória a quem discorda desse engajamento configuraria violação da liberdade de expressão.
Antes e depois, o DPVAT. Agora, como sei de verdade, os corretores abandonam o associativismo, e com isso a renda cai ainda mais. Sobram os eleitores — aqueles que permanecem por convicção na causa.
Um estudo acadêmico de Ygor Daniel Silva de Oliveira, defendido na PUC-Goiás em 2024 sob orientação da Dra. Claudia Luiz Lourenço, jogou luz sobre essa crise de maneira direta. O trabalho, intitulado “O Enfraquecimento da Classe Trabalhista Frente à Politização do Sindicato”, identifica a raiz do problema: a captura da imagem sindical pela polarização política tornou inviável o senso de pertencimento coletivo. O trabalhador que se identifica com a direita rejeita o sindicato por considerá-lo aparelhado pela esquerda. O trabalhador que simpatiza com a esquerda nem sempre vê retorno concreto em sua filiação. O resultado é um vazio de representação que atinge a todos indistintamente.
É preciso fazer aqui uma ressalva importante. O trabalho acadêmico de Oliveira trata do sindicato dos trabalhadores — categoria regida pela CLT, com vínculo empregatício e subordinação direta. O sindicato dos corretores de seguros, por sua vez, é de natureza patronal: reúne profissionais autônomos e empresários de suas próprias corretoras. Contudo, a distinção formal não elimina uma simbiose real com as demandas típicas do universo laboral. O corretor de seguros é intermediário das seguradoras, agindo na prática como agente delas. Sua remuneração depende da comissão que a seguradora define. Seu portfólio depende dos produtos que a seguradora disponibiliza. Suas condições de trabalho dependem das regras que a seguradora estabelece. Em larga medida, portanto, o corretor segue os mesmos atributos do trabalhador clássico: a dependência. E é justamente essa dependência que torna a crise de representatividade sindical tão relevante para a categoria quanto para qualquer trabalhador formal. Sem a possível voz coletiva, o corretor negociaria sozinho contra estruturas infinitamente maiores que ele.
E aqui reside uma contradição que agrava dramaticamente a nossa condição. Segundo dados do Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho, os sindicatos patronais no Brasil não diminuíram — cresceram. Eram pouco mais de 5 mil em 2014, e em 2025 já somam 5.317 entidades ativas, contra 12.056 de trabalhadores. Ou seja, enquanto as entidades patronais se multiplicam e consolidam sua influência, o nosso sindicato talvez caminhe na direção oposta: perde associados, perde receita, perde relevância. Comportar-se, na prática, como sindicato de trabalhadores em plena crise de esvaziamento — só que sem a rede de proteção legal que a CLT oferece aos laborais. Os demais patronais crescem porque entregam valor aos seus associados? Negociações coletivas robustas, assessoria jurídica, capacitação, representação institucional efetiva? O nosso encolhe porque, em vez de dialogar e entregar resultados, parece ter se acomodado na estrutura que a unicidade lhe garante? O contraste não poderia ser mais revelador: num país onde os sindicatos patronais prosperam, o dos corretores de seguros talvez definhe. E se definha por qual razão?
A lição esquecida de Leôncio Arruda
Lendo sobre Leôncio Arruda — considerado o maior líder que os corretores de seguros já tiveram e mentor de tantos outros — encontrei um texto revelador no portal do SindsegSP que descreve três traços fundamentais de sua trajetória.
O primeiro é a coragem. Leôncio era destemido sem fazer alarde. Não se vangloriava, não ameaçava, não apregoava façanhas. Pelo contrário: conversava. E conversava de novo. E, se necessário, conversava mais uma vez.
O segundo é o diálogo. Leôncio buscava chegar a bom termo pela conversação, o que não significava fraqueza diante das adversidades que precisou superar.
O terceiro é o foco em resultados. Desde sua atuação à frente de uma Associação que ele próprio criou para se tornar conhecido, até vencer as eleições para presidente do Sincor-SP, sempre foi um guerreiro, um articulador extremamente competente e um homem orientado a resultados. Presidiu o Sincor-SP em quatro mandatos e chegou à presidência da Federação Nacional dos Corretores de Seguros. Não é pouco. Não é qualquer um. (Fonte)
Concordo em larga medida com essa descrição. Mas destaco dois traços — o primeiro e o segundo — que convergem para uma mesma virtude: o diálogo. E é precisamente isso que parece ter desaparecido. Afinal, que diálogos o corretor tem com suas entidades?
A politização como veneno institucional
O trabalho acadêmico de Oliveira (2024) demonstra, com sustentação doutrinária e jurisprudencial, que o sindicato brasileiro sofre de um paradoxo letal: nasceu para unir trabalhadores em torno de interesses comuns, mas se transformou em território de disputa ideológica e comercial. Quando a população fez de seu ideal político um estilo de vida, o senso de pertencimento migrou da classe para o partido. O resultado, nas palavras do pesquisador, é que o trabalhador passou a suportar diferenças pessoais, mas jamais divergências políticas.
A ciência política confirma. André Rabello (2019), citado no mesmo estudo, aponta que a polarização produz impasse legislativo, paralisia governamental, quebra da confiança nas instituições e falta de civilidade no debate público. Se os três Poderes sofrem com isso, imaginem o que acontece com entidades de representação profissional que dependem da adesão voluntária de seus membros.
Oliveira vai além e demonstra que a figura de Lula — crescido na política através de lutas sindicais — vinculou de forma quase irreversível a imagem do sindicalismo à esquerda. Não se trata aqui de julgar mérito. É constatar o fato. E o fato é que, num país rachado ao meio, qualquer instituição percebida como pertencente a um dos lados perde automaticamente metade do seu público potencial.
Unicidade sindical: a armadilha que prende quem quer sair
O princípio da unicidade sindical, herança direta da Era Vargas, impõe que exista apenas um sindicato por categoria em cada base territorial. Oliveira aponta com acuidade que isso contradiz frontalmente a liberdade de associação. O trabalhador não escolhe seu sindicato — escolhe apenas se quer ou não ser filiado àquele único disponível. Quando a contribuição era compulsória, a situação beirava o absurdo: pagar obrigatoriamente por uma representação que não se pediu e que não se pode trocar.
Se houvesse pluralidade sindical, como advoga parte da doutrina e como prevê a Convenção 87 da OIT — que o Brasil até hoje não ratificou —, os sindicatos que não exercessem bom trabalho sucumbiriam naturalmente, gerando competição salutar e maior preocupação dos dirigentes em efetivamente entregar resultados. Em vez disso, o que temos é monopólio sem accountability.
O que sobra quando o diálogo desaparece
Ao faltar o diálogo, as instituições diminuem. O que sobra é a vontade de poder e os penduricalhos. Um destes é exatamente a autorregulação — instrumento que deveria servir para valorizar a categoria, mas que, sem base associativa robusta, corre o risco de se tornar apenas mais um mecanismo de controle nas mãos de poucos?
Leôncio Arruda sabia que não se constrói representatividade com decretos ou imposições. Constrói-se com conversa. Com presença. Com resultado. O corretor de seguros que sai do associativismo não sai porque virou inimigo da classe — sai porque não se sente mais ouvido, não se sente representado, não vê retorno. E quando a resposta institucional a essa fuga é mais concentração de poder em vez de mais diálogo, o ciclo vicioso se retroalimenta?
O estudo de Oliveira conclui com uma frase que merece repetição: enquanto o sindicato for associado a partidos ou figuras políticas, não será capaz de exercer sua função social e política (sim, não é um erro!). Não é uma opinião. É um diagnóstico.
O caminho é conhecido. Só falta coragem para trilhá-lo.
Os dados do IBGE mostram que a população ocupada no Brasil nunca foi tão grande — 101,3 milhões em 2024. E a proporção de sindicalizados nunca esteve tão distante de refletir essa massa. A conta não fecha. O mercado cresce, a categoria se expande, mas o associativismo encolhe. Não é o trabalhador que falhou com o sindicato. É o sindicato que falhou com o trabalhador. A diferença é sair de cima do muro.
A solução não está em novas cobranças compulsórias, nem em autorregulações impostas de cima para baixo. Está em resgatar aquilo que Leôncio Arruda praticou com excelência: conversar. Ouvir. Articular. Entregar. E, sobretudo, ter coragem de reconhecer que o mundo mudou e que a receita dos anos 1990 não funciona em 2026.
O corretor de seguros precisa de um sindicato que fale por ele, não apesar dele. Enquanto isso não acontecer, a fuga continuará.
Armando Luis Francisco
JORNALISTA
Referências e Fontes:
IBGE. PNAD Contínua: Características adicionais do mercado de trabalho, 2024. Divulgado em 19/11/2025.
OLIVEIRA, Ygor Daniel Silva de. O Enfraquecimento da Classe Trabalhista Frente à Politização do Sindicato. TCC (Graduação em Direito) — Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2024.
STF. ADI 5794/DF. Relator: Min. Edson Fachin. Julgamento: 29/06/2018. Publicação: 23/04/2019.
SindsegSP. Artigo sobre Leôncio de Arruda. Disponível em
RABELLO, André. Efeitos da polarização sobre a democracia. 2019.
NUNES, Felipe; TRAUMANN, Thomas. Biografia do Abismo. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023.
Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista).
FGV/IBRE. A evolução da taxa de sindicalização no Brasil, 2024.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Cadastro Nacional de Entidades Sindicais (CNES). Atualizado em 14/04/2025.
Times Brasil/CNBC. “Entenda porque o Brasil é o paraíso dos sindicatos”. 15/10/2025.
SciELO Brasil. CARDOSO, Adalberto. “Dimensões da crise do sindicalismo brasileiro”. Caderno CRH, Salvador, v.28, n.75, 2015.
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