Quando falhas de TI afastam os melhores talentos das empresas
Por Kai Werner - Diretor de Recursos Humanos da TeamViewer
Os líderes de RH acompanham índices de engajamento, fazem entrevistas de acompanhamento e analisam métricas de saída que identificam com eficiência os riscos de retenção. Mas há uma ameaça evidente que muitos ainda ignoram.
Pense em uma situação comum: você precisa conectar o notebook ao projetor minutos antes de uma apresentação. A conexão falha. Em vez de revisar seus pontos finais, perde tempo tentando resolver o problema. Quando finalmente funciona, já perdeu foco e energia. Não é apenas um atraso técnico – é uma quebra de ritmo que mina a confiança.
Esse tipo de obstáculo, a chamada fricção digital, corrói silenciosamente os esforços de retenção. Uma pesquisa global da TeamViewer mostra que 28% dos profissionais já pensaram em deixar a empresa por causa de falhas de TI. Quase metade relata insatisfação e irritação e muitos informam queda na motivação, enquanto outros fazem associação direta com burnout.
Com 69% dos entrevistados acreditando que a fricção digital contribui para a saída de colegas, a questão não é se a tecnologia impacta a retenção, mas por que tantos líderes ainda não enxergam a dimensão dessa crise.
A Lacuna de Percepção
Os dados apontam um descompasso claro: 56% dos funcionários sem cargo de gestão dizem que as falhas de TI têm impacto relevante na rotatividade, contra apenas 36% dos gestores. Entre os que já cogitaram sair, a diferença também é marcante: 36% dos empregados versus 20% dos líderes.
Parte da explicação pode estar no acesso desigual a recursos: gestores tendem a ter equipamentos mais atualizados ou simplesmente usam menos sistemas no dia a dia. Outra razão é o silêncio dos funcionários, uma vez que muitos não registram chamados até que o problema se torne grave. E nesse ponto, o dano já está feito e a insatisfação instalada.
O resultado é um ciclo perigoso: os indicadores sugerem normalidade, mas a frustração cresce nos bastidores.
Intolerância da Geração Z
Os nativos digitais têm expectativas muito diferentes em relação às ferramentas de trabalho — e não hesitam em se desligar de suas funções quando elas não são atendidas. Funcionários da Geração Z perdem em média 1,5 dia de trabalho por mês devido à fricção digital, mais que o dobro dos Baby Boomers. Quatro em cada dez jovens já pensaram em deixar a empresa por esse motivo, contra apenas 12% dos mais velhos.
O comportamento diante das falhas também preocupa: mais da metade dos mais jovens recorre a dispositivos ou aplicativos pessoais para contornar problemas, o que abre riscos sérios de segurança e conformidade. Alguns chegam a extremos, com reações físicas contra equipamentos, críticas públicas ao empregador e até lágrimas diante da frustração.
Enquanto os mais velhos toleram melhor os problemas, os jovens não aceitam barreiras. E é justamente essa geração que definirá o futuro da força de trabalho.
O que Realmente Importa
Por muito tempo, empresas disputaram talentos com salários competitivos, pacotes de benefícios ou carros corporativos. Hoje, há uma mudança clara: 59% dos entrevistados consideram uma boa estrutura tecnológica mais importante que benefícios tradicionais. Isso revela uma verdade mais profunda: satisfação vem da sensação de produtividade e realização. Quando barreiras impedem o avanço das tarefas, surgem insatisfações e logo após esgotamento e exaustão extrema
Engajamento depende de ambientes que sejam ao mesmo tempo modernos e humanos, com foco na eliminação do atrito digital como estratégia de retenção. Afinal, quando a tecnologia falha, os melhores profissionais são os primeiros a sair.
O Papel dos Líderes de RH
As perdas financeiras são significativas. Substituir talentos custa caro e consome tempo: em média, oito semanas para integrar um novo colaborador. Quando alguém sai por um problema que poderia ser resolvido, não se perde apenas produtividade, mas também meses de recursos para voltar ao ponto inicial.
A boa notícia é que reduzir a barreira digital não exige uma revolução imediata. É possível começar pequeno, ganhando visibilidade sobre os pontos de atrito, monitorando redes de forma proativa, identificando falhas recorrentes e antecipando problemas antes que se tornem críticos.
A fricção digital é uma crise de retenção que acontece diante dos nossos olhos. A questão é se os líderes de RH vão reconhecê-la antes que seus melhores talentos decidam ir embora.
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