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TikTok dissemina uso de "drogas digitais"; professor da PUC-SP explica seu funcionamento

  • Quinta, 12 Mai 2022 11:44
  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  SZS Comunicação
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Meses atrás, quando um jovem mostrou na plataforma TikTok como “viajar” sem o uso de drogas alucinógenas, ouvindo apenas determinados sons, muitos se espantaram. O vídeo acendeu o sinal de alerta em pais, educadores e médicos. Tecnicamente, essas drogas digitais, como passaram a ser chamadas, são sons que utilizam frequências e intensidades variadas, formados com base em uma técnica conhecida como binaural beats.

“Os sons binaurais estão relacionados às frequências de Solfeggio, que são tons que ajudam a promover a saúde do corpo e da mente em vários aspectos”, explica o doutor em Neurologia e professor da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) da PUC-SP, Sandro Blasi Espósito.

Origem na Antiguidade

Há registros de uso dessas frequências desde a Antiguidade. “Documentos indicam que esses sons estavam presentes na formação das religiões cristãs ocidentais e indianas orientais, sendo encontrados nos cantos dos monges gregorianos e no sânscrito indiano antigo”, relata Sandro Blasi. A escala original de Solfeggio foi desenvolvida por um monge beneditino chamado Guido d’Arezzo (c. 991 – 1050).

Como são criados

Ainda de acordo com o professor da PUC-SP, acredita-se que os sons binaurais são capazes de mudar os padrões de ondas cerebrais e induzir um estado alterado de consciência (semelhante àquele atingido ao usar drogas) ou um estado profundo de meditação.

“Eles são gerados quando o ouvinte escuta dois sons com frequências muito próximas, porém, diferentes e inferiores a 1.000 Hz. Isso faz com que o cérebro perceba uma terceira onda, que, na verdade, não existe. Os sons binaurais cresceram em popularidade nos últimos tempos, mas os biofísicos vêm explorando o fenômeno desde a década de 1970”, detalha o neurologista.

Jovens são os que mais utilizam

Em 2021, a Pesquisa Global de Drogas (GDS - Global Drug Survey), iniciada em 2010, incluiu uma breve série de perguntas relacionadas ao engajamento das pessoas com os sons binaurais. No total, 1.635 pessoas (5,3% da amostra total de 30.896 pessoas) relataram usar esses sons para experimentar estados alterados nos últimos 12 meses. Essas pessoas eram mais jovens e mais propensas a relatar o uso recente de todas as outras drogas (incluindo cannabis), em comparação com o restante da amostra. A pesquisa é anual, online e anônima, sendo realizada com pessoas de todo o mundo que usam quaisquer formas de drogas.

Brasileiros estão entre os que mais consomem

As taxas mais altas de uso de sons binaurais foram relatadas entre os entrevistados dos Estados Unidos, México, Brasil, Polônia, Romênia e Reino Unido.

Ainda há dúvidas

“Um recente estudo canadense não encontrou evidências de sons binaurais modulando o humor ou arrastando o cérebro mais fortemente do que sons não-binaurais. Descobriu-se, no entanto, que os sons binaurais eliciaram padrões diferenciais de conectividade, em comparação com o controle de sons monoaurais. Se esses padrões de conectividade têm um significado funcional, em termos de aprimoramento cognitivo e modulação do humor, permanece uma questão em aberto”, esclarece.

Danos à audição

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendou cuidado, devido aos riscos ao aparelho auditivo. Adeptos das batidas binaurais dizem ouvir os sons para relaxar, trabalhar melhor ou ter experiências sensoriais novas. As trilhas oferecem sons de frequências diferentes para cada ouvido — o que torna a experiência diversa daquela de ouvir uma música comum.

A preocupação é com danos aos ouvidos de crianças e adolescentes e com a estimulação auditiva exagerada e contínua. “Nesse caso, pode-se ocasionar a perda da neuroplasticidade e, assim, afetar as conexões necessárias para um desenvolvimento cerebral e mental saudável”, aponta a nota de alerta da SBP.

O documento da SBP destaca, ainda, que o uso indiscriminado de fones de ouvido em volumes acima do tolerável “vem repercutindo negativamente na audição, configurando um modismo que merece a atenção especial na era digital”. Segundo o órgão, o nível de intensidade de ruído de fones de ouvido varia entre 60-70 decibéis e 110-120 decibéis. Entre crianças e adolescentes, o nível seguro de ruído é de 70 decibéis. Para tentar obter o efeito alucinógeno prometido, é provável que adolescentes escutem essas batidas em níveis de intensidade superiores ao recomendado.


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