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Quase metade das moradias no Brasil têm problemas relacionados a saneamento básico, qual o impacto disso à saúde da população?

  • Segunda, 29 Abril 2024 18:47
  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Milena Almeida
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Mais de 12 bilhões de litros de esgoto sem tratamento são despejados diariamente na natureza. Médico da área de Infectologia aponta os riscos e os cuidados face à falta de acesso a um direito básico universal

Imagine 5 mil piscinas olímpicas cheias de esgoto despejadas em território nacional diariamente. Imaginou? Pois isso acontece todos os dias no Brasil, onde cerca de 12,5 bilhões de litros de esgoto sem tratamento são despejados na natureza diariamente, segundo a projeção do Instituto Trata Brasil. Isso porque, no país, 76 milhões de pessoas moram em domicílios não conectados à rede de esgoto, o que corresponde a 37,5% da população nacional, sendo as regiões Norte e Nordeste as que concentram os piores índices, de acordo com o Censo Demográfico 2002, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há duas décadas, esse índice impactava negativamente cerca de metade da população brasileira.

O acesso à água potável e ao saneamento básico são direitos humanos universais, reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), sendo indispensáveis à vida com dignidade, por seu caráter essencial à saúde, à sustentabilidade ambiental e à prosperidade econômica.

De acordo com o médico da área de Infectologia da rede AmorSaúde, Dr. Guilherme Mendonça Roveri, saneamento básico é o conjunto de estrutura, tecnologias, equipamentos e logística para prover o básico para a população, que é água potável e esgoto encanado em conformidade com as leis ambientais, com as diretivas e planejamento urbano e rural dos municípios, estados e outras unidades federativas. “A água potável é utilizada para a manutenção da vida, sendo suprimento para os atos de cozinhar, tomar banho, limpar ambientes, incluindo eliminar os dejetos que compõem o esgoto — a exemplo de urina e fezes — que não podem ser jogados diretamente na água, porque isso gera a contaminação”, explica o profissional da maior rede de clínicas médico-odontológicas do Brasil.

Quando o saneamento básico é insuficiente ou inexistente, há o aumento dos riscos de proliferação de doenças. “Nós vamos ter mais parasitas na água e, com isso, infecções parasitárias, infecções diarreicas, vômitos, doenças transmissíveis, infecções virais, bacterianas e fúngicas”, cita o Dr. Guilherme.

As consequências da falta de saneamento básico adequado são também de ordem econômica. “Além das infecções citadas, a falta de saneamento básico impacta no atraso do desenvolvimento dos bebês e das crianças, reverberando no desempenho escolar. Acarreta também a queda no desempenho do trabalho das pessoas, pois a pessoa doente vai render menos, já que vai faltar mais e ficar mais tempo afastada”, explica o médico, que continua. “Numa última análise, gera impacto econômico negativo, porque essas pessoas vão ter menos renda. Com menos renda, o país se desenvolve menos e isso atrasa a economia, resultando em um impacto coletivo. Há também o aumento de custos dos sistemas público e privado de saúde, porque essas pessoas adoecem mais”, aponta o médico.

A falta de saneamento básico faz o Brasil gastar R$ 108 milhões com hospitalizações, segundo o DataSUS. Há ainda o risco de morte. Cerca de sete pessoas morreram por dia por falta de acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário, em 2019, pré-pandemia, conforme dados do Instituto Trata Brasil.

Como ocorre a contaminação e quais são as doenças mais comuns

A contaminação se dá por meio do ciclo fecal-oral. “As pessoas vão excretar, ou seja, vão fazer cocô e xixi, e, quando esses dejetos não são liberados de maneira adequada, contaminam o solo, a água e as plantações ao redor. O ciclo se completa, propagando as infecções, quando a pessoa ingere a água e os alimentos contaminados. Assim, esses patógenos, ou seja, esses agentes infecciosos causadores de doenças vão entrar pelo trato gastrointestinal, atingir a corrente sanguínea e os órgãos, causando os danos, ou seja, adoecendo a pessoa”, explica o médico.

Entre as doenças mais comuns estão cólera, rotavírus e leptospirose. “A hepatite A também é uma doença bastante transmitida pelo ciclo fecal oral, por fezes em água contaminada e alimentos contaminados”, diz. Embora cada doença tenha suas especificidades, no geral os sintomas são vômito, diarreia, infecções intestinais, febre, letargia (cansaço) e, muitas vezes, desnutrição.

Segmentos da população que mais sofrem com a falta de saneamento

As populações mais impactadas por um saneamento básico insuficiente são as que têm menos condições econômicas, ou seja, menor renda, menor nível de escolaridade e menor infraestrutura na área em que residem.

“Por exemplo, vamos pensar em alguém de alta renda, que esteja em um bairro nobre que teve falta de água, ou teve uma contaminação de um lençol freático de um sítio de alguém com grande posse financeira. Porventura essa pessoa talvez tenha condição de comprar galão de água potável, ou colher e trazer alimentos de hortifruti de maneira alternativa, de uma maneira rápida. Porém, as pessoas com menor renda, com dificuldade de locomoção, aquelas que são mais vulneráveis têm poucas alternativas para fugir ou para escapar dos males de um não saneamento básico ou de um saneamento básico ineficiente”, ilustra o médico.

Há ainda um grupo mais suscetível aos impactos dessas infecções, por condições intrínsecas, que é composto por gestantes, crianças, idosos e imunossuprimidos.

O que fazer para se proteger

É essencial consumir água potável, porém em condições adversas, o conselho é ferver a água antes do consumo. “Se você não tem convicção da qualidade da água a ser utilizada para consumo pessoal, que inclui beber, lavar ou cozinhar alimentos, o ideal é ferver essa água por alguns minutos e depois esperar entrar em temperatura ambiente. No momento da fervura, para evitar acidentes domésticos, afaste as crianças e os animais”, ensina o médico do AmorSaúde.

O acompanhamento médico regular é essencial para proteger a saúde e identificar rapidamente qualquer risco de infecção. “Se você desenvolver algum sintoma, não espere que a situação piore. Procure imediatamente alguma clínica, sua Unidade Básica de Saúde (UBS) ou algum outro sistema para realizar uma consulta médica de avaliação”, indica o Dr. Guilherme.

O futuro da rede de esgoto no Brasil

Comparando os anos de 2000 e 2022, a porcentagem de crescimento dos domicílios conectados à rede de coleta de esgoto é de 40,7%, porém esse número está aquém do necessário.

Em 3.505 municípios, menos da metade da população mora em domicílios com coleta de esgoto e 49 milhões de pessoas vivem em domicílios com soluções de esgotamento sanitário precárias, incluindo utilização de fossa rudimentar – o famoso buraco –, cuja absorção dos desejos se dá no próprio terreno, promovendo uma contaminação ambiental.

Até 2033, o Brasil deve cumprir as metas do novo Marco Legal do Saneamento (2020), assim como as metas do ODS6 – Água Potável e Saneamento, firmado pela ONU, fornecendo condições para que 90% da população tenha acesso à coleta de esgoto, o que significa um aumento de 44% diante das condições atuais. Já em relação à agua potável, a meta é garantir que 99% da população tenha acesso.

“Se você não dispõe de esgoto tratado, procure os responsáveis pela vigilância sanitária do seu município. Se você não consegue fazer isso diretamente, procure seus líderes comunitários para que haja uma conversa com essas autoridades sobre a maneira mais segura de descartar esses desejos”, indica o profissional da rede AmorSaúde.


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