Brasil forma mais mestres e doutores, mas ainda falha em inovação
Por Alexandre Pierro
O Brasil nunca formou tantos mestres e doutores como agora. Ano após ano, os números desses diplomas avançam, consolidando uma base acadêmica robusta e cada vez mais qualificada. Ainda assim, quando o assunto é inovação, seguimos em desvantagem nos rankings globais. O cenário é evidente e, ao mesmo tempo, preocupante: afinal, onde está o verdadeiro gargalo? Se temos capital humano qualificado, por que seguimos ficando para trás nessa corrida inovadora?
Quantitativamente, o Brasil viveu uma expansão expressiva na formação acadêmica avançada. Dados revelados pela pesquisa “Brasil: Mestres e Doutores 2024", conduzida pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), mostraram um salto significativo nesses números: saímos de cerca de 40 mil mestres e 12 mil doutores titulados em 2010, para uma média de mais de 60 mil mestres e 25 mil doutores em 2024 – seguindo com uma tendência estável em 2025.
Esse descompasso fica evidente quando relacionamos essas informações ao desempenho nacional no último Índice Global de Inovação, em que caímos duas colocações, atingindo o 52º lugar. O problema se torna ainda mais evidente quando analisamos um dos pilares mais críticos do índice: o de instituições, um dos piores desempenhos entre todos os indicadores avaliados.
Responsável por medir, justamente, a qualidade do ambiente regulatório, a eficiência do sistema jurídico e a capacidade do país de criar condições favoráveis à inovação, nossa colocação evidencia um sistema ainda marcado por excesso de burocracia, insegurança jurídica e marcos regulatórios que não acompanham a velocidade das transformações tecnológicas. Isso faz com que, enquanto formamos pesquisadores preparados para atuar na fronteira do conhecimento, sigamos presos a estruturas institucionais que dificultam a aplicação prática desse saber.
A fragilidade também se estende ao pilar de infraestrutura, outro ponto sensível para o avanço da inovação. Embora tenhamos excelentes polos tecnológicos e centros de pesquisa, o desempenho geral ainda é comprometido por gargalos em termos de logística, conectividade e sustentabilidade dessas iniciativas – todos, elementos essenciais para que as ideias gerem valor.
Esse cenário faz com que o Brasil perca competitividade não apenas para economias desenvolvidas, mas também para países emergentes que avançaram mais rapidamente na modernização de suas bases estruturais. O resultado disso tudo é um ambiente em que o conhecimento até existe, mas encontra dificuldades concretas para circular, se desenvolver e gerar impacto econômico - sobretudo, devido à desconexão entre a academia e o mercado.
Embora as universidades e centros de pesquisa invistam em pesquisas de desenvolvimento e inovação relevantes, esse conhecimento ainda circula majoritariamente dentro do próprio meio acadêmico, com pouca capilaridade no setor produtivo. Faltam incentivos claros para parcerias com as empresas e, acima de tudo, uma cultura que realmente valorize a aplicação prática desses estudos a favor do nosso potencial inovador.
Ao mesmo tempo, muitas organizações ainda investem pouco em pesquisa e desenvolvimento, preferindo importar soluções prontas a assumir o risco da inovação local. Isso apenas leva a um ecossistema fragmentado, no qual mestres e doutores são formados para produzir conhecimento, mas encontram poucas oportunidades — ou estímulos — para transformá-lo em produtos, serviços ou processos que gerem impacto real na economia.
Enfrentar esse problema exige muito mais do que ampliar a formação acadêmica, sendo crucial reforçar a criação de pontes reais entre o conhecimento e sua aplicação, o que pode ser favorecido com o fortalecimento de mecanismos de conexão nesse sentido, com incentivos claros para projetos conjuntos, compartilhamento de infraestrutura e transferência de tecnologia, como é o caso da ISO de Inovação, a qual oferece diretrizes estruturadas para que as empresas organizem seus processos inovadores de forma consistente, conectando estratégia, cultura e execução.
É fundamental, também, que esse movimento seja acompanhado por uma evolução no ambiente regulatório e nos incentivos à inovação, com políticas que estimulem investimentos em pesquisa e desenvolvimento, reduzam barreiras burocráticas e incentivem a colaboração entre diferentes atores, de forma que possamos transformar nossa base acadêmica em vantagem competitiva.
No final, fica claro o fato de que, por mais que tenhamos talentos qualificados, formação científica relevante e um sistema de pós-graduação consolidado, ainda carecemos de um ambiente que conecte esses elementos de forma estratégica e orientada a resultados. Superar esse descompasso exige ação coordenada entre governo, academia e o mercado em si, solidificando nossa infraestrutura e adotando práticas que transformem conhecimento em valor. Do contrário, continuaremos acumulando diplomas enquanto a inovação — e as oportunidades que ela traz — segue avançando em outros países.
Alexandre Pierro é doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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