A estratégia e a falta de coragem
Por Pedro Signorelli
As empresas precisam inovar mais, testar mais, fazer mais? Quem não ouviu isso recentemente? Ontem até, quem sabe. Será que esse é o caminho? Será que é isso que está faltando na busca por melhores resultados? Na prática, isso tem gerado: organizações dispersas, times sobrecarregados e estratégias que não saem do papel.
O problema não é falta de ferramenta. Afinal, nunca tivemos tantas. O problema é a falta de foco. E é justamente por isso que os OKRs (Objectives and Key Results) estão sempre no centro do debate, não como novidade, mas como um incômodo. Porque, quando bem aplicados, eles expõem o que muitas empresas evitam encarar: a dificuldade real de priorizar.
Para começar porque o OKR obriga a liderança a responder perguntas simples, mas que pedem ação e muitas vezes, pedem uma mudança de rota:
- O que realmente importa agora?
- O que estamos dispostos a deixar de lado?
- Como sabemos que estamos avançando de verdade?
Em um ambiente corporativo viciado em múltiplas frentes e iniciativas paralelas, essas perguntas são quase disruptivas. Pois é fato que muitos dizem que usam OKRs, mas poucos de fato usam.
Estamos numa era de hiperatividade corporativa. A ascensão da inteligência artificial, das plataformas digitais e da cultura de experimentação contribuem de forma eficaz para este cenário. Tudo parece urgente. Tudo parece prioridade. Algumas empresas chegam a definir escala de urgência. Como assim, é ou não urgente? Times acumulam projetos, lideranças inflacionam metas e a organização passa a operar em um estado constante de movimento, sem necessariamente gerar impacto proporcional.
É nesse cenário que os OKRs deixam de ser uma ferramenta de gestão e passam a ser um mecanismo de contenção. Eles não servem para organizar o excesso. Servem para eliminá-lo. Existe uma mudança silenciosa acontecendo nas empresas mais eficientes: elas estão fazendo menos: menos projetos, menos metas, menos dispersão. Em contrapartida: mais clareza, mais consistência e mais resultados.
OKRs bem definidos funcionam como um corte estratégico. Eles forçam escolhas. E toda escolha real envolve renúncia, algo que muitas organizações ainda resistem em fazer. Sem esse corte, o que se vê é um acúmulo de iniciativas que competem entre si e diluem qualquer possibilidade de execução de excelência.
O mercado de ferramentas de gestão de OKRs cresce rapidamente, impulsionado pela promessa de visibilidade e acompanhamento em tempo real. Mas existe um erro recorrente: acreditar que tecnologia resolve desalinhamento estratégico. Não resolve. Sem clareza na definição dos objetivos, qualquer plataforma vira apenas um painel sofisticado de confusão.
OKR não é acompanhar metas é definir as metas certas
E isso continua sendo uma decisão humana e, muitas vezes, política. Empresas que não toleram transparência, que valorizam volume em vez de impacto tendem a distorcer completamente a lógica da metodologia. O resultado é previsível:
- metas infladas para parecer ambicioso
- resultados-chave irrelevantes para garantir “sucesso”
- desconexão entre discurso e prática
Nesse cenário, OKRs viram teatro corporativo. Culpar a gestão por Objetivos e Resultados por falhas de execução é conveniente, mas as empresas não falham por usar a metodologia errada. Falham por não sustentar as decisões que ela exige.
Porque, no fim, implementar OKRs de verdade significa abrir mão de prioridades falsas, reduzir o volume de iniciativas e assumir clareza estratégica. Num mercado obcecado por fazer mais, talvez o maior diferencial competitivo hoje seja ter a coragem de fazer menos, propositalmente, com intenção e saber onde se quer chegar. Por isso, o que parece faltar nas organizações é a coragem de dizer não.
Pedro Signorelli é um dos maiores especialistas do Brasil em gestão, com ênfase em OKRs. Já movimentou com seus projetos mais de R$ 2 bi e é responsável, dentre outros, pelo case da Nextel, maior e mais rápida implementação da ferramenta nas Américas. Mais informações acesse: http://www.gestaopragmatica.com.br/
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