IA recebe R$ 2,6 bilhões em investimentos, mas maioria das empresas ainda não avança
Por Ana Carolina Mello
O mercado de seguros brasileiro vai investir R$ 2,6 bilhões em inteligência artificial em 2026. O número, divulgado pela CNseg, é expressivo e sinaliza uma aposta clara do setor na tecnologia como vetor de eficiência e crescimento. Mas há outro dado na mesma pesquisa que merece igual atenção, e que raramente ocupa o centro do debate: 69% das seguradoras apontam a integração com sistemas legados como o principal obstáculo à adoção efetiva de IA.
Esse é o paradoxo que define o momento do setor. Investimos mais. Crescemos menos do que poderíamos. E o gargalo não está onde a maioria imagina.
A tentação é tratar esse problema como técnico. Migrar sistemas, atualizar infraestrutura, contratar engenheiros de dados. Há verdade nisso, mas é uma resposta incompleta. Porque o que sustenta os sistemas legados não é apenas tecnologia antiga. É cultura antiga. São processos construídos ao longo de décadas por pessoas que nunca precisaram pensar em interoperabilidade, padronização ou governança de dados. É a planilha que cada área mantém como sua fonte de verdade particular. É o campo de formulário ignorado porque "sempre foi assim".
A IA não resolve isso. Ela amplifica.
Um modelo de precificação dinâmica treinado com dados fragmentados produz resultados imprecisos em escala. Um sistema de detecção de fraude alimentado por registros inconsistentes gera falsos positivos que custam tempo, dinheiro e confiança do cliente. Um agente autônomo de atendimento construído sobre uma base de conhecimento desatualizada responde com segurança o que está errado.
A qualidade da IA é, em última instância, a qualidade dos dados que a precedem. E dados de qualidade não se compram com investimento em tecnologia. Constroem-se com decisões humanas cotidianas: o que registrar, como registrar, com qual critério e para qual finalidade.
Há um ponto que pouco se discute quando falamos de sistemas legados: eles foram construídos por pessoas, e só serão superados por pessoas. A transformação tecnológica que o setor precisa fazer é, antes de tudo, uma transformação de mentalidade. Isso exige que lideranças entendam que governança de dados não é responsabilidade exclusiva do time de tecnologia. Que profissionais de subscrição, sinistros, comercial e atendimento sejam parte ativa da construção da base de dados da empresa. Que a qualidade da informação que entra em um sistema seja tratada com o mesmo rigor que a qualidade do produto que sai dele.
O Open Insurance aprofunda essa urgência. Com a evolução do ecossistema aberto e a chegada do SRO v3, o mercado caminha para um ambiente de maior integração entre plataformas, compartilhamento de dados e exigências crescentes de padronização e conformidade. Empresas com bases de dados bem estruturadas vão se integrar com mais velocidade, menos custo e menos risco. As que chegarem a esse momento com legados mal organizados vão pagar um preço alto para se adequar.
O estudo da CNseg mostra que 88% das organizações que adotaram IA afirmam que a tecnologia ampliou suas capacidades existentes. É um dado positivo. Mas ampliação de capacidade é diferente de transformação. O setor ainda avalia que o impacto da IA permanece incremental, sem provocar disrupção significativa no modelo de negócios. Isso não é surpreendente. Disrupção real exige fundação real.
Há um caminho claro para quem quiser sair na frente: antes de perguntar qual ferramenta de IA adotar, pergunte em que condições estão os dados que essa ferramenta vai usar. Antes de contratar um cientista de dados, invista em formar as pessoas que alimentam os sistemas todos os dias com a consciência de que cada campo preenchido é parte de uma decisão futura. Antes de automatizar um processo, entenda se ele está bem desenhado o suficiente para que a automação produza resultado e não apenas velocidade no erro.
O mercado de seguros tem todas as condições de ser um dos mais avançados do mundo em uso de IA. Temos cultura de dados, temos escala, temos regulação que empurra para a transparência e temos um volume crescente de investimento. O que ainda precisamos construir é a consciência de que tecnologia sem base sólida é promessa sem entrega.
R$ 2,6 bilhões é um número que impressiona. O que vai determinar o retorno sobre esse investimento não é o tamanho do aporte. É a qualidade do que existe antes de ligar o modelo.
Ana Carolina Mello é sócia-diretora da Avanza. Especialista com mais de 20 anos de atuação no mercado de seguros, construiu sua carreira em grandes multinacionais antes de empreender na criação de novos modelos de negócio. Atua como voz ativa em debates sobre inovação, digitalização e qualificação profissional no setor.
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