O futuro da computação quântica na energia elétrica
Por Alexandre Pierro
O setor elétrico global vive em 2026 um momento de crescente complexidade operacional. A expansão das fontes renováveis variáveis, a maior presença de recursos energéticos distribuídos e o aumento acelerado da demanda tornam o planejamento e a operação ainda mais desafiadores.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda mundial cresce acima de 3% ao ano, projetando recordes históricos de consumo nos Estados Unidos para os próximos anos, puxados por data centers. No Brasil, só eles já consomem cerca de 770 MW/ ano, pressionando ainda mais a demanda.
Neste cenário, a computação quântica desponta como ferramenta estratégica de otimização, capaz de lidar com problemas que desafiam os limites da computação clássica. Na prática, ela utiliza princípios da mecânica quântica para processar informação de forma distinta do bit clássico, proporcionando mais eficiência.
Estudos da McKinsey e BCG projetam que o mercado de tecnologias quânticas pode atingir entre US$ 90 e 170 bilhões até 2040, com forte expansão de aplicações comerciais. Em 2025, empresas do setor já ultrapassaram US$ 1 bilhão em receita, sinalizando a saída do laboratório para o mercado.
No setor elétrico, a oportunidade está em abordagens híbridas, onde o quântico atua como acelerador parcial em problemas específicos. Isso significa que ela passa a ser tratada como capacidade estratégica, com parcerias, provas de conceito e equipes internas dedicadas.
No Brasil, onde já existe uma matriz 83% renovável, a computação quântica não irá alterar a matriz, mas pode otimizar sua eficiência, apoiando o planejamento de rede. Obviamente, ela também não irá substituir a computação clássica, mas pode complementá-la em cenários de alta complexidade. O setor já vive a fase de pilotos e provas de conceito, e a próxima década promete ampliar escopo e impacto econômico, em um contexto de forte crescimento da demanda e maior complexidade da rede.
Cabe destacar que a adoção da computação quântica no setor elétrico não depende apenas da tecnologia, mas também de processos estruturados de gestão da inovação. É aqui que a ISO 56001, norma internacional de sistemas de gestão da inovação, se torna fundamental.
Por meio da estruturação de processos, essa metodologia garante que a inovação seja conduzida de forma sistemática, com objetivos claros e métricas de desempenho, avaliando e priorizando projetos quânticos em função de impacto, maturidade tecnológica e retorno esperado. Além disso, fornece mecanismos para mitigar incertezas associadas a tecnologias emergentes, assegurando que a computação quântica seja incorporada alinhada às metas de eficiência, confiabilidade e sustentabilidade do setor.
A tecnologia começa a gerar valor justamente nos casos em que o retorno sobre investimento (ROI) é mais tangível, como na expansão de rede e resposta da demanda. Nessas aplicações, os impactos esperados incluem redução do custo marginal de operação, melhor aproveitamento dos ativos existentes, diminuição das perdas técnicas e menor necessidade de novos investimentos.
Do ponto de vista operacional, os benefícios se traduzem em menor uso de térmicas caras, redução de desperdício e melhor utilização da rede elétrica. Entretanto, é importante reconhecer que esses ganhos requerem investimentos em digitalização e infraestrutura de TI, necessários para suportar a integração dessas soluções.
Portanto, a computação quântica não deve ser vista como substituta da computação clássica, mas como aceleradora de otimização em problemas críticos. Com o suporte de processos de inovação bem estruturados, o setor elétrico pode transformar pilotos em resultados concretos, capturando valor econômico e operacional já nesta década, enquanto se prepara para impactos ainda maiores no horizonte de 2030.
Alexandre Pierro é mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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