Recuperação judicial: o que é e por que empresas recorrem ao processo
Alta dos juros e crédito mais restrito ampliam número de companhias em reestruturação no Brasil
O número de empresas brasileiras em recuperação judicial voltou a crescer e atingiu um novo recorde no fim de 2025. Segundo o relatório “Monitor RGF da Recuperação Judicial”, da consultoria RGF, 5,6 mil companhias estavam em processo de reestruturação no quarto trimestre, alta de 7,5% em relação ao trimestre anterior.
Já no primeiro trimestre de 2026, diversos casos de grande visibilidade reforçam o movimento. Na última terça-feira, 10, o Grupo Pão de Açúcar anunciou pedido de recuperação extrajudicial. Antes disso, redes varejistas como Casa & Video e Le Biscuit também recorreram a mecanismos de reorganização financeira.
Para Rodrigo Baraldi, advogado, empresário e conselheiro estratégico em fusões e aquisições (M&A), os casos refletem uma mudança no ambiente econômico e financeiro das empresas. “Mais do que episódios isolados, esses casos mostram uma realidade cada vez mais comum no mercado brasileiro: empresas que cresceram em ciclos de capital abundante agora precisam ajustar o balanço à geração real de caixa”, afirma.
Segundo o especialista em M&A, processos desse tipo não significam necessariamente o colapso do negócio. “Reestruturações financeiras desse tipo não são necessariamente sinal de falência. Em muitos casos há ativos sólidos, marcas relevantes e operações rentáveis, mas sufocadas por endividamento mal estruturado ou decisões tomadas em um contexto econômico diferente”.
O que é recuperação judicial
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite que empresas renegociem suas dívidas enquanto mantêm as operações em funcionamento. Durante o processo, a companhia apresenta aos credores um plano de pagamento que pode incluir alongamento de prazos, descontos ou reorganização do passivo.
Segundo Affonso Ribeiro, sócio da Alfaiate Consultoria, o instrumento busca evitar o encerramento de empresas que ainda possuem capacidade operacional. “A recuperação judicial cria um ambiente jurídico para reorganizar dívidas sem interromper a atividade da empresa. O objetivo é preservar valor econômico, empregos e cadeias produtivas que dependem daquele negócio.”
De acordo com o consultor, o aumento recente de pedidos também reflete mudanças no ambiente econômico dos últimos anos. “Muitas empresas cresceram em um período de crédito abundante e juros mais baixos. Com a mudança do cenário macroeconômico, estruturas de endividamento que pareciam administráveis passaram a exigir reestruturações mais profundas.”
Além da recuperação judicial, existe também a recuperação extrajudicial, modelo em que a renegociação das dívidas ocorre diretamente entre a empresa e parte dos credores, fora das vias judiciais, com ou sem homologação posterior do juiz. Para Baraldi, esse formato pode ser mais ágil em determinadas situações. “A recuperação extrajudicial permite reorganizar o passivo mantendo a operação funcionando e evitando processos mais complexos. Pode ser um caminho mais rápido e eficiente para estabilizar a empresa.”
Juros altos e crédito restrito pressionam empresas
Entre os principais fatores por trás do aumento das recuperações está o custo elevado do capital. A taxa básica de juros permanece em 15% ao ano, após cinco reuniões consecutivas do Comitê de Política Monetária (Copom) sem mudanças. O acesso ao crédito também ficou mais restrito após a fraude contábil da Americanas em 2023, que levou instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos de financiamento.
Para Igor Mazaki, economista e CEO da Plug and Play Brazil, o cenário impacta o equilíbrio financeiro das empresas. “Quando o custo do capital sobe e o crédito fica mais seletivo, companhias com alto nível de endividamento sentem primeiro. Muitas empresas que antes conseguiam refinanciar dívidas agora precisam reorganizar sua estrutura financeira para manter a operação.”
Impactos para funcionários e parceiros
Apesar de buscar preservar a atividade empresarial, o processo de recuperação costuma gerar impactos na rede de relações da companhia. Durante esse período, é comum que empresas revisem contratos, renegociem prazos com fornecedores e adotem medidas de ajuste para recuperar o equilíbrio financeiro.
Segundo Atarão, funcionários, fornecedores e parceiros comerciais podem enfrentar um período de incerteza durante a reorganização. “A empresa entra em um ciclo de ajustes operacionais e financeiros. Isso pode envolver renegociação de contratos, revisão de custos e mudanças estratégicas. Por outro lado, a recuperação judicial existe justamente para evitar o cenário mais extremo, que seria a falência.”
Sobre Rodrigo Baraldi
Rodrigo Baraldi dos Santos é advogado, conselheiro estratégico de M&A e mentor de empresários, com mais de R$ 10,2 bilhões em operações assessoradas. Empresário e advogado com mais de 20 anos de atuação em direito societário e M&A, Baraldi possui formação multidisciplinar em direito societário, tributário, contabilidade e finanças, é especialista em preparar empresas para processos de compra e venda e já participou de mais de 100 transações. Seu método de Pré-M&A combina governança, gestão, finanças e planejamento tributário para aumentar o valuation, reduzir contingências e evitar os principais fatores que derrubam negociações.
Sobre Alfaiate Consultoria
A Alfaiate Consultoria em Estratégia é uma consultoria que gera inteligência competitiva para as empresas criada para apoiar empresários na tomada de decisões qualificadas e conscientes em um ambiente de negócios cada vez mais complexo, trazendo clareza sobre onde atuar, como crescer e quais decisões realmente impactam o futuro do negócio. A atuação começa com diagnóstico profundo do negócio e do mercado, evolui para a definição da estratégia e planejamento e segue até a execução, com o acompanhamento próximo dos donos e diretores. Entre os clientes atendidos estão empresas como Morana Empreendimentos, MSC Advogados, Tecpon, Dobil Engenharia e Seibt. Mais informações: https://alfaiateconsultoria.com.br/
Sobre Plug and Play Brazil
A Plug and Play é uma plataforma global de inovação, conectando startups, corporações e investidores. Sediada no Vale do Silício, está presente em mais de 60 locais em cinco continentes e é referência no fomento a novas tecnologias e na criação de oportunidades para empreendedores ao redor do mundo. Com atuação no Brasil desde 2016, possui mais de 36 investimentos ativos e já firmou parcerias com empresas como Claro, BNP Paribas, CPFL Energia, Bunge, Shell e Tetra Pak.
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