A nova crise da atenção e seus efeitos nas relações e no trabalho
Especialistas apontam que a hiperconectividade e o excesso de estímulos digitais estão reduzindo a capacidade de concentração, impactando decisões, vínculos e desempenho profissional
A aceleração da comunicação transformou o modo como pessoas pensam, interagem e trabalham. Respostas imediatas passaram a ser esperadas em ambientes corporativos, familiares e sociais. Pausas se tornaram momentos raros. Processos reflexivos foram substituídos por reações automáticas.
Dados do relatório Digital 2024 Global Overview Report, produzido por We Are Social e Meltwater, indicam que o brasileiro passa, em média, mais de nove horas por dia conectado à internet. Parte desse tempo é dedicada a múltiplas telas simultâneas. A exposição constante a notificações e conteúdos fragmentados altera o padrão de atenção sustentada.
A psicóloga Maria Klien afirma que a sociedade passou a operar em regime de estímulo contínuo. “Responder rápido virou norma. Pensar com tempo virou exceção. O cérebro não foi estruturado para alternar foco a cada minuto sem custo funcional”, declarou.
Segundo publicação da American Psychological Association intitulada Stress in America 2023, a sobrecarga informacional está associada ao aumento de estresse e à redução da capacidade de julgamento em tarefas complexas. A instituição aponta que a exposição constante a demandas simultâneas compromete a qualidade de decisões e a regulação emocional.
Maria Klien explica que o excesso de tela estimula a liberação recorrente de dopamina e cortisol. “Quando esses sistemas operam em descompasso, surgem desatenção, fadiga psíquica e prejuízo de memória. Não se trata de desinteresse, mas de saturação neurobiológica”, destacou.
No cotidiano, os sinais aparecem de forma gradual. Sensação de esgotamento ao final do dia, dificuldade em manter concentração por períodos prolongados, irritabilidade diante de frustrações e lapsos de lembrança se tornam frequentes. Tarefas que exigem elaboração profunda passam a ser evitadas.
No campo das relações, a fragmentação interfere na escuta. Conversas são interrompidas por notificações. Presença física não garante envolvimento real. “Quando a atenção se dispersa, a empatia diminui. O vínculo exige continuidade de foco”, ressaltou.
No ambiente profissional, a confusão entre urgência e prioridade afeta resultados. Decisões são tomadas sob pressão constante. Planejamento cede espaço à reação imediata. Estudo publicado na revista Journal of Experimental Psychology: General demonstrou que alternância frequente de tarefas reduz desempenho cognitivo e aumenta erros operacionais.
A especialista destaca que o problema não está relacionado exclusivamente à produtividade. “A crise não é de rendimento. É de atenção. Quem não protege o próprio foco perde a capacidade de aprofundamento”, afirmou.
Para Maria Klien, o enfrentamento passa por mudanças estruturais e individuais. Redução de estímulos simultâneos, delimitação de horários para uso de dispositivos e intervalos destinados ao silêncio são medidas que favorecem recuperação neural.
“O cérebro precisa de tempo para consolidar memória, reorganizar pensamento e acessar estados criativos. Sem isso, se instala um ciclo de reação permanente”, concluiu.
Sobre Maria Klien:
Maria Klien exerce a psicologia, se orientando pela investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, visando atender às necessidades emocionais dos indivíduos em seus universos particulares. Como empreendedora, empenha-se em ampliar a oferta de recursos terapêuticos que favorecem a saúde psíquica, promovendo instrumentos destinados ao equilíbrio mental e ao enfrentamento de questões que afetam o bem-estar psicológico de cada paciente.
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