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MSF dá apoio e atendimento médico a pessoas que fogem da violência na Etiópia

  • Segunda, 30 Novembro 2020 10:38
  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Médico sem fronteiras
  • SEGS.com.br - Categoria: Saúde
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Milhares de etíopes cruzaram a fronteira rumo ao Sudão desde o início de novembro

Em 4 de novembro, o primeiro-ministro da Etiópia ordenou uma ação militar contra a Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF) na região de Tigray, no norte do país, após um ataque a uma base militar. A escalada do conflito já afeta centenas de milhares de pessoas e pode desestabilizar outras partes da região, com consequências humanitárias potencialmente catastróficas.

Três dias após a ação militar, a primeira leva de pessoas fugindo da Etiópia começou a chegar ao vizinho Sudão. Em 25 de novembro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) registrou 42 mil chegadas, mas o número é provavelmente maior, já que muitas não foram contabilizadas.

Hoje, as pessoas estão entrando no Sudão em três locais: o principal é Hamdayet, no estado de Kassala, no leste do país, que responde por dois terços (68%) das chegadas. Quase um terço (30%) está entrando pelo estado de Gedaref, no sudeste, enquanto um número muito pequeno (2%) está entrando mais ao sul, no estado do Nilo Azul. Equipes de MSF trabalham em duas das áreas que estão acolhendo refugiados etíopes no leste e sudeste do Sudão.

Ponto de Travessia Hamdayet, em Kassala

Equipes de MSF testemunharam em primeira mão pessoas cruzando o rio que separa a Etiópia do Sudão. Muitas pessoas relatam ter fugido de casa rapidamente, sem nem mesmo conseguirem organizar suprimentos básicos para a viagem. Elas abandonaram seus pertences e tiveram que caminhar por horas, às vezes dias, em um ambiente árido antes de chegarem ao Sudão.

Após a chegada, a grande maioria dos refugiados vai para uma área de trânsito, onde abrigo, acesso a alimentos, saneamento e água potável continuam sendo problemas significativos. A maioria dos refugiados em Hamdayet, especialmente aqueles sem abrigo, está tendo que dormir ao ar livre - perto das estradas, debaixo de árvores - ou em um local onde há um mercado. Outros estão sendo hospedados em casas e, até agora, as pessoas que vivem em vilarejos fronteiriços no Sudão têm sido muito abertas e solidárias com seus vizinhos da Etiópia.

Também estamos vendo refugiados voltando para a Etiópia, seja para ajudar a trazer parentes que ficaram para trás ou para recolher seus pertences. Alguns voltam para vender seus bens e retornar ao Sudão com algum dinheiro.

Um pequeno número dos refugiados que chegam é originário da Eritreia e foram anteriormente deslocadas para a Etiópia, antes de fugirem novamente para o Sudão.

A primeira equipe de MSF chegou a Hamdayet no dia 16 de novembro. Três dias depois, começaram as atividades. Como uma primeira resposta para atender às necessidades de um número crescente de refugiados, MSF começou a fornecer cuidados de saúde, dar orientações de saúde, atividades de saúde mental e fazer uma triagem do estado nutricional dos recém-chegados. Também realizamos atividades de água e saneamento.

Nossas equipes realizam atualmente cerca de 300 consultas por dia; o maior número de doenças está relacionado a infecções respiratórias, malária ou diarreia, mas um pequeno número de refugiados feridos e algumas pessoas que sofreram violência de gênero também foram atendidas. Adicionalmente, muitas pessoas precisam de tratamento contínuo para doenças crônicas, como tuberculose e outras.

Acampamento Um Rakuba, em Gedaref

Após passarem por triagem e serem registradas pela ONU, algumas pessoas que chegam a Hamdayet estão sendo colocadas em ônibus e levadas para o campo Um Rakuba, no estado de Gedaref, o único campo oficial na área dedicado a chegadas da Etiópia. Um Rakuba fica entre 7 e 8 horas de carro da fronteira. O acampamento foi projetado para 10 mil pessoas e atualmente já conta com mais de 8 mil. Há discussões para a criação de um campo adicional, visto que o número de refugiados continua a aumentar.

As condições sanitárias no acampamento são extremamente precárias. Não há latrinas suficientes e as pessoas são forçadas a defecar ao ar livre.

No campo de Um Rakuba, equipes de MSF forneceram 453 consultas médicas entre 19 e 23 de novembro. As equipes estão tratando principalmente diarreia e infecções urinárias. Dois pacientes chegaram com ferimentos a bala e foram encaminhados ao hospital Gedaref. Quinze pessoas com desnutrição aguda grave e 154 pessoas com desnutrição moderada foram identificadas e receberam suplementos nutricionais. Algumas pessoas apresentam sintomas de ansiedade e insônia por causa da violência que viram ou sofreram na Etiópia e das condições de viagem ao Sudão.

“Em 3 ou 4 de novembro, eu estava trabalhando na loja, de repente ouvi sons que pareciam de guerra, um barulho muito alto”, disse um etíope na casa dos 30 anos que compartilhou sua história com MSF. “Não sei por que estão brigando. Vi muita gente morrendo, até pessoas mais velhas. Conheço tantas. Estou confuso, não sei por que eles fizeram isso. Em Tigray, as pessoas estão escondidas no mato, jovens e idosos. O mais difícil é que não temos dinheiro, nada para cozinhar, ninguém trouxe nada de casa. Tivemos que sair. Eu vim só com duas calças. Antes do início da guerra, estávamos sem eletricidade, a rede telefônica não funcionava e bancos estavam todos fechados. Tenho dinheiro lá na Etiópia, mas não aqui”, acrescentou.

Um grande problema é a falta de medicamentos para doenças não transmissíveis e doenças crônicas. Estamos trabalhando com outras organizações localmente para garantir os suprimentos necessários.

Nossa equipe também identificou muitos médicos entre os recém-chegados da Etiópia, que estão no campo como refugiados. Como as equipes de organizações humanitárias não têm permissão para pernoitar no acampamento, estamos trabalhando com esses médicos para encontrar um sistema que permita suporte médico 24 horas por dia.

Em Cartum, capital do Sudão, MSF está negociando com as autoridades para facilitar a importação de suprimentos médicos e agilizar concessões de visto para que mais profissionais cheguem ao país para ajudar na emergência.


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