Mais de 70% dos créditos de carbono usados por empresas no Brasil são “problemáticos”, aponta estudo
Uma nova investigação do Wall Street Journal revela que multinacionais aposentaram créditos de carbono de um projeto da Verra no Brasil enquanto ele estava "sob investigação"
Análise adicional da Corporate Accountability mostra que a maioria dos créditos de carbono gerados por projetos no Brasil não pode ser considerada confiável para reduzir emissões
Uma investigação publicada no dia 6 de março no Wall Street Journal revela que mais de 140 empresas foram autorizadas a contabilizar compensações de carbono com créditos provenientes de um dos maiores projetos do mundo registrados no sistema da Verra no Brasil, apesar do projeto estar sob investigação por questionamentos sobre sua legitimidade. Empresas como BlackRock, Mastercard e Philip Morris International puderam aposentar esses créditos e contabilizá-los em suas metas de redução de emissões enquanto o projeto estava suspenso. Evidências indicam que o projeto pode ter sido ilegítimo desde a sua origem, devido a alegações de que estava localizado em terras públicas onde não possuía direito legal de operar. A investigação do Wall Street Journal baseou-se, em parte, em pesquisa conduzida pela Corporate Accountability.
Um novo levantamento da Corporate Accountability divulgado na mesma data revela que mais de 70% de todos os créditos de carbono recentemente aposentados no Brasil são “problemáticos” e não podem ser considerados confiáveis para entregar as reduções de emissões prometidas. Os pesquisadores examinaram os 50 maiores projetos de compensação de carbono no Brasil entre janeiro de 2024 e junho de 2025 — que também estão entre os maiores projetos do mundo — e constataram que milhões desses créditos problemáticos foram aposentados por empresas multinacionais e contabilizados em suas metas de redução de emissões, apesar da baixa probabilidade de realmente gerar essas reduções.
A pesquisa mostra que 32 dos 50 maiores projetos de compensação de carbono no Brasil provavelmente não reduzem emissões. Esses projetos aposentaram 15,7 milhões de créditos de carbono entre janeiro de 2024 e junho de 2025. Em teoria, as compensações de carbono deveriam ajudar a reduzir emissões ao permitir que empresas comprem esses créditos e aleguem que estão reduzindo sua poluição graças a atividades de redução de emissões realizadas por outros atores em outro lugar. Mas esta nova análise destaca um crescente conjunto de evidências que expõe as falhas das compensações de carbono e do mercado voluntário de carbono (MVC), onde esses créditos são certificados e comercializados.
Isso significa que uma parcela significativa dos créditos de compensação desses projetos, que as empresas contabilizavam como parte de suas reduções de emissões, provavelmente estava fazendo pouco ou nada para realmente reduzir emissões. Tudo isso enquanto comunidades ao redor do mundo enfrentam o agravamento de enchentes, secas e eventos climáticos extremos, além de violências sistêmicas alimentadas e viabilizadas por algumas das maiores corporações poluidoras do planeta, em lugares como Palestina, Sudão, Venezuela, Irã e outras regiões.
A Verra, a maior certificadora de créditos de carbono do mundo, abriga 23 dos 32 projetos considerados problemáticos no Brasil. Isso corresponde a 12,8 milhões de créditos de carbono aposentados entre janeiro de 2024 e junho de 2025. Apesar das promessas de reforma diante de repetidas preocupações sobre a integridade desses créditos, a Verra aparenta continuar registrando projetos cuja capacidade de gerar reduções reais e duradouras de emissões não está comprovada. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) abriga os nove projetos problemáticos restantes, responsáveis por 2,9 milhões de créditos aposentados nesse período. O MDL possui um histórico de registrar projetos que não apresentam reduções reais, mensuráveis e adicionais de emissões, e estima-se que tenha inclusive aumentado as emissões globais em cerca de 6,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono ao aprovar compensações que não representavam reduções efetivas de emissões.
“As compensações de carbono não têm levado à redução das emissões globais de gases de efeito estufa”, afirmou Rachel Rose Jackson, Diretora de Pesquisa e Política Climática da Corporate Accountability. “Enquanto isso, relatos de danos causados por esses projetos a comunidades e ecossistemas continuam se acumulando. Mais uma vez, as evidências sugerem que não se pode contar com quem promove e lucra com esses projetos para proteger o planeta. Com vidas em jogo, quem deve ser responsabilizado pelos fracassos recorrentes desses projetos e do mercado de carbono de forma mais ampla? E quantas vezes ainda precisaremos ver evidências de seu fracasso antes de reorientarmos nossos esforços para soluções mais efetivas e comprovadas, capazes de reduzir emissões e manter os combustíveis fósseis no subsolo?”
A pesquisa da Corporate Accountability também revelou que diversas grandes corporações internacionais de diferentes setores aposentaram créditos de carbono provenientes desses projetos problemáticos localizados no Brasil. A Petrobras aposentou quase 200.000 créditos desses projetos problemáticos durante o período analisado. A Shell aposentou aproximadamente 66.500 créditos e a Equinor quase 21.000. A BlackRock aposentou cerca de 137.000 créditos problemáticos provenientes desses projetos.
Empresas de consultoria também fizeram uso significativo desses créditos questionáveis. A EY aposentou quase 179.000 créditos de projetos problemáticos no Brasil. A BCG retirou cerca de 90.000 créditos. A KPMG e a Deloitte aposentaram aproximadamente 5.500 créditos cada. Outras empresas que utilizaram essas compensações problemáticas incluem Barilla, Philip Morris, Uber, SWIFT, Mastercard, S&P Global, Engie, Yamaha Motor e Dell.
A investigação do Wall Street Journal e a pesquisa da Corporate Accountability levantam questionamentos sobre a contínua popularidade de projetos de compensação de carbono que até mesmo atores do próprio setor, como a BeZero, avaliam como improváveis de gerar reduções de emissões. Isso reforça a necessidade de discutir por que compradores e formuladores de políticas continuam participando de um sistema com problemas tão significativos, e quem deve ser responsabilizado pelas repetidas falhas nos mecanismos de controle e verificação dentro do mercado voluntário de carbono.
Prevê-se que o mercado voluntário de carbono cresça significativamente nos próximos anos. Defensores do clima, acadêmicos, comunidades e especialistas vêm pedindo ações imediatas para interromper os danos e falhas associados ao mercado de carbono e redirecionar esforços para soluções reais que coloquem o mundo em um caminho comprovado rumo ao Zero Real de emissões.
Carlos Augusto Pantoja Ramos, engenheiro florestal e doutorando no Instituto Amazônico de Agricultura Familiar da Universidade Federal do Pará, no Brasil, tem trabalhado amplamente com comunidades impactadas por projetos de compensação de carbono. Ele explica que não são as comunidades próximas a projetos como o Pacajaí que têm se beneficiado desses empreendimentos. “A tentativa de captura de bens públicos e comuns, como a terra, por projetos como o Pacajaí pode intensificar a concentração de renda nas mãos de algumas corporações e investidores institucionais, aprofundando a grave desigualdade social em regiões como a Amazônia. Isso revela relações de ganho profundamente desiguais entre as partes envolvidas, muitas das quais não possuem estrutura e/ou conhecimento técnico suficientes para defender seus direitos.”
O relatório aprofunda as conclusões do relatório "Built to Fail?: World’s Largest Carbon Offset Projects Unlikely to Deliver Promised Emissions Reductions Despite Reforms (Feito para Falhar? - Os maiores projetos de compensação de carbono do mundo provavelmente não cumprirão as reduções de emissões prometidas, apesar das reformas)" e analisa especificamente os maiores projetos de compensação de carbono localizados no Brasil. Apesar de seus fracassos, os mercados de carbono continuam sendo promovidos como um pilar central da ação climática. O relatório "Build to fail? (Feito para falhar?)" constatou que 47,7 milhões de créditos problemáticos de compensação foram aposentados por meio de 43 dos maiores projetos de compensação do mundo em 2024. Esse volume representa quase um quarto de todo o mercado voluntário de carbono naquele ano.
Muitos dos maiores projetos de compensação de carbono no Brasil também estão entre os maiores projetos do mercado voluntário de carbono em escala global.
O briefing está disponível aqui em inglês, e também disponível em espanhol e português nos próximos dias. O relatório completo da pesquisa "Feito para falhar? Os maiores projetos de compensação de carbono do mundo provavelmente não cumprirão as reduções de emissões prometidas, apesar das reformas." oferece uma análise mais aprofundada de diversos setores, empresas e regiões do mundo.
Rachel Rose Jackson e Carlos Augusto Pantoja Ramos estão disponíveis para entrevistas.
Corporate Accountability desafia o poder político desproporcional das corporações para abrir caminho a um futuro justo e próspero. Há décadas, nossas campanhas enfrentam abusos corporativos e conquistam vitórias históricas em defesa dos direitos humanos e do planeta.
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