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Indignação e o poder sobre a mudança

  • Segunda, 24 Agosto 2020 11:49
  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  Domenica Cristine
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Por José Papa e Frei David Santos

Grandes líderes da história, como Martin Luther King e Nelson Mandela, motivaram multidões a se movimentar, em prol de uma causa comum, como os direitos civis, ao propor que concentrassem suas energias para exigir um mundo melhor. Hoje, milhares de pessoas seguem se movimentando nesse sentido, a partir de “energias” causadas por situações inesperadas. Um dos grandes exemplos - e que ainda estamos vivenciando suas consequências - é a injustiça, filmada ao vivo, contra George Floyd, homem negro norte-americano que foi sufocado em uma abordagem policial. Tal injustiça gerou uma forte energia, que se materializou numa incontrolável indignação de pessoas em todo o mundo, as quais passaram a cobrar mudanças de comportamento das estruturas opressoras da sociedade. E que agora estão sob o olhar atento dos agentes sociais.

Desde a denúncia da postura fortemente discriminatória de uma Defensora Pública da Bahia, revelando que uma estrutura criada para ajudar o povo, agora, descobre-se carregada de vícios contra os direitos da população, à denúncia de racismo na Igreja Católica, dentro da Igreja Universal do Reino de Deus, em Angola, entre outros casos que chamaram atenção recentemente. Até mesmo em instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), desnudando o racismo estrutural presente na Instituição que nunca incluiu em sua lista, chamada de quinto constitucional, advogados/as negros/as para serem desembargadores.

Esses são fatos que revelam porque o mundo, em pleno século 21, ainda sofre os traumas profundos da desigualdade, da ausência de empatia, das peculiaridades secularmente persistentes, que tanto mal fazem a importantes setores da humanidade. Escancaram os motivos do porquê não conseguimos convergir naquilo que nos une, de forma ampla, porém básica, que é a nossa condição humana. Vivemos em um mundo onde os interesses políticos, econômicos e de grandes grupos de comunicação, ao invés de pregarem a sincronia, promovem uma ainda maior desagregação. Não é à toa que ainda exista tanta miséria, tanto ódio e tanta guerra.

Não estamos aqui fazendo apologia alguma à esquerda, direita, capitalismo ou socialismo. Estamos somente tentando abrir nossas consciências ao que nos faz igual. Imagine um mundo onde os quase US$ 2 trilhões que a humanidade gasta anualmente para prevenção bélica fossem usados para alimentar, educar e incluir as pessoas. Um mundo onde o verdadeiro direito universal que cada pessoa tem ao nascer fosse, de fato, exercido. No entanto, o que vemos é um mundo que, nos próximos 90 dias, verá mais gente pobre morrer de fome do que da COVID-19.

Chegamos num ponto em que não devemos esperar mais tragédias globais, como a COVID-19, ou a morte do George Floyd, para escancarar nossos problemas. Não é possível que, com tudo que conquistamos até aqui, precisemos de mais tragédias para indicar a urgente necessidade de uma sociedade que coloque como prioridade o combate às desigualdades. Essa prioridade é urgente nos EUA, onde a polícia, só em 2019, matou 1.014 pessoas, ou no Brasil, onde, no mesmo período, matou 5.804 pessoas negras e, dessas, 40% foram só no estado do Rio de Janeiro. Todas as injustiças precisam ter visibilidade dos grandes meios de comunicação, virem à luz, para que sejam debatidas por todos os que têm poder de abrirem suas mentes para as mudanças.

O Brasil, principalmente por se tratar ao mesmo tempo de uma potência econômica e um dos países mais desiguais do mundo, precisa se revisitar e resolver seu passado injusto contra os afro-brasileiros, os indígenas e demais minorias sociais, se quiser almejar um futuro justo e sólido.

As pessoas têm muita coisa em comum apesar de experiências de vida muito diferentes. O que nos une profundamente é a certeza de querermos jogar energias para ampliar as bases para a construção de um mundo novo, onde condições mínimas de igualdade são garantidas desde a primeira infância e prosseguem envolvendo a todos na construção de uma economia não mais acumulativa, mas justa e distributiva, a exemplo do que aponta a “Economia de Francisco”.

José Papa é CEO da Trace Brasil e Frei David Santos OFM, Diretor Executivo da Educafro


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