Empresas adotam IA, mas enfrentam desafios para monetizar a tecnologia
Empresas automatizam tarefas com IA, mas ainda aplicam a tecnologia em processos de baixo impacto e sem métricas claras de resultado
A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a operar no centro das decisões corporativas, mas o impacto financeiro ainda não acompanha o avanço tecnológico. Estimativas indicam que a IA pode gerar até US$ 4,4 trilhões por ano em valor para a economia global, com potencial de elevar o PIB mundial em até 0,5% até 2030. Ao mesmo tempo, projeções apontam que até 95% das tarefas podem ser automatizadas até o fim da década. Ainda assim, muitas empresas de médio porte enfrentam um paradoxo: implementam a automação, mas não conseguem converter essa ação em redução de custo, aumento de receita ou melhoria de margem.
Para medir o ganho de produtividade, especialistas defendem que o ponto de partida não está na tecnologia, mas na estratégia. “A implementação de IA exige um diagnóstico da maturidade digital da empresa e o mapeamento das principais dores do negócio que podem ser resolvidas com a tecnologia. Sem isso, não existe ganho real”, afirma Celso Camilo, professor de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás. Segundo ele, a adoção eficiente passa por um plano estruturado de transformação digital, que envolve capacitação, contratações e até desligamentos, mudança de cultura, investimentos em infraestrutura, governança de dados, suporte dos stakeholders, definição de métricas de sucesso e construção de um roadmap de projetos, pilotos e produtos. “O ganho só aparece quando a empresa escolhe pontos realmente relevantes, com potencial de impacto direto no negócio, e acompanha o desenvolvimento dos projetos e indicadores como redução de tempo, custo e retrabalho”, afirma.
Esse erro de origem ajuda a explicar por que muitas iniciativas não entregam resultado. Empresas frequentemente aplicam IA de forma superficial, com falhas na escolha de ferramentas e uso limitado da tecnologia. Outro problema recorrente está na seleção equivocada dos processos: muitas organizações atacam tarefas pouco relevantes ou oportunidades mal definidas, o que impede qualquer ganho significativo. A ausência de governança também pesa, já que decisões ficam pulverizadas entre áreas, sem alinhamento com a estratégia central. Mesmo em setores onde a IA já permite automatizar grande parte das tarefas de uma função, a substituição completa ainda é relativa. “Dependendo do setor e da empresa, é possível automatizar praticamente todas as tarefas de uma função, mas muitas atividades ainda exigem supervisão humana, principalmente por conta do risco de alucinação e de direcionamentos equivocados”, explica Celso.
Para empresas de médio porte que buscam eficiência, o caminho passa necessariamente por estrutura. A adoção de IA exige uma transformação digital completa, que começa na análise de maturidade e avança até a governança dos pilotos e produtos, sempre alinhada à estratégia do negócio. Isso inclui organização de dados, revisão de processos e, em muitos casos, mudanças no próprio modelo operacional. “O erro mais comum não está só na ferramenta escolhida, mas na falta de preparo das equipes e lideranças. Sem governança e sem clareza sobre quais problemas são prioritários para abordar, a IA se torna esforço disperso e não gera resultado significativo”, conclui. Nesse cenário, a tecnologia evidencia quais empresas conseguem usar a IA para transformar a organização e gerar resultado financeiro e quais apenas adotam a ferramenta sem impacto real no negócio.
Sobre Celso Camilo
Celso Camilo é Mestre e Doutor em Inteligência Artificial e professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG). Com trajetória acadêmica e internacional consolidada, foi professor visitante na Carnegie Mellon University (EUA) entre 2015 e 2016, no Indian Institute of Technology Gandhinagar (Índia) em 2022 e na Mohamed bin Zayed University of Artificial Intelligence (MBZUAI) em 2026, nos Emirados Árabes Unidos, além de representar o Brasil em fóruns globais de inovação e tecnologia.
Atua como pesquisador, consultor e palestrante, com destaque para a apresentação realizada na NASA (JPL, em Los Angeles), e coordena o desenvolvimento da GAIA, a primeira inteligência artificial aberta especializada em português. Sua atuação também se estende ao setor privado, onde contribui como conselheiro em empresas de diferentes segmentos, como transporte, educação, mercado imobiliário e venture capital, conectando tecnologia e estratégia de negócios.
No setor público, acumulou experiência em posições estratégicas, tendo sido Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia de Goiânia e Subsecretário de Tecnologia da Informação do Estado de Goiás, com foco na implementação de políticas e projetos voltados à inovação, digitalização e desenvolvimento econômico.
Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
<::::::::::::::::::::>