Paradoxo explica como a inteligência artificial transforma empregos e decisões
- Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por Maria dos Santos
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*Por Christian Pedrosa, fundador e CEO da DigAÍ.
Existe uma palavra que aparece com frequência demais nas discussões sobre inteligência artificial e quase nunca chega acompanhada de evidência: colapso.
O fim do emprego, a extinção das profissões, o desmanche do mercado de trabalho. Esse discurso ganhou respaldo de nomes de peso, como Geoffrey Hinton, um dos pais da IA, e se instalou no imaginário coletivo com uma força bem diferente do que os dados, até agora, sustentam.
O Brasil é um exemplo dessa onda. Segundo pesquisas anuais do Pew Research Center, em 2025, quase metade (48%) dos brasileiros relataram pessimismo com a tecnologia, o que coloca o país entre as quatro nações que mais temem a IA no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Itália e Austrália.
No campo de recursos humanos, esse pessimismo tem nome e endereço certos na triagem automatizada, na entrevista conduzida por algoritmo, no software que "lê" currículos mais rápido do que qualquer recrutador. A pergunta que se repete nos corredores das empresas e nos eventos do setor é sempre a mesma. E o meu trabalho, vai sobrar?
A resposta, incômoda para os dois lados do debate, vem de um economista do século XIX. Em 1865, William Stanley Jevons observou algo contraintuitivo ao analisar o consumo de carvão na Revolução Industrial. À medida que as máquinas ficavam mais eficientes, o consumo do recurso aumentava, não diminuía. A lógica era simples, eficiência barateia o uso, e o que fica mais barato se expande. Esse princípio, conhecido como Paradoxo de Jevons, nunca foi tão atual.
Aplique esse raciocínio ao RH de hoje. Quando uma ferramenta de IA reduz de dias para horas o tempo de triagem de candidatos, a empresa não contrata menos, ela contrata mais vezes, avalia mais perfis, abre processos que antes consideraria inviáveis. A eficiência não enxuga a área, ela amplia o seu raio de ação.
O ponto que o debate costuma ignorar é que a IA não elimina decisões, ela multiplica as possibilidades de decidir. Com maior volume de informações, mais comparações disponíveis e ferramentas que organizam dados em escala, o processo decisório fica mais complexo. E decidir sobre pessoas continua sendo, em essência, um ato humano. Requer leitura de contexto, julgamento sobre o que os números não dizem e responsabilidade sobre consequências que vão além de uma planilha.
Durante décadas, o RH foi consumido por tarefas operacionais que limitavam sua atuação estratégica. A tecnologia resolve boa parte disso. Mas ao assumir o trabalho repetitivo, ela também desloca a régua. Se antes bastava executar bem os processos, agora o que se cobra é a qualidade das decisões, a capacidade de ler o ambiente organizacional e a habilidade de transformar dados em estratégia.
Nos próximos anos, processos que hoje são pontuais, como contratação, avaliação e movimentação interna, vão se tornar contínuos. O RH vai operar em tempo real, integrado ao ritmo do negócio.
Quem não estiver preparado para esse papel vai ser, sim, substituído. Não pela IA, mas por profissionais que souberem trabalhar com ela.
Em vez de encerrar o papel do RH, a inteligência artificial eleva o nível mínimo de exigência para exercê-lo. A pergunta que as organizações deveriam estar fazendo não é "a IA vai substituir nosso RH?", mas "nosso RH está à altura do que a IA vai liberar?" Eficiência sem evolução é só velocidade; e velocidade, sozinha, não leva a lugar nenhum.
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