Fim do SAP ECC transforma migração em pauta estratégica corporativa
*Leandro Maniezo, CTO da Systax e Ícaro Paiva, Gerente de Integração SAP na Systax
Olhar para o calendário e achar que 2027 ainda está distante é um erro fatal para qualquer CIO à frente de uma operação baseada no SAP ECC. O fim do suporte do sistema não deve ser encarado apenas como o encerramento de um ciclo tecnológico, mas sim como um prazo limite para o negócio. No cenário brasileiro, essa transição carrega uma camada de complexidade tão profunda que muitas organizações ainda falham em dimensionar os verdadeiros riscos e custos envolvidos na operação.
O primeiro tropeço estratégico é enxergar a ida para o S/4HANA como uma simples atualização de software. Na verdade, trata-se de uma ruptura de modelo corporativo, saindo de um sistema de registros estáticos para uma plataforma de inteligência de dados em tempo real, moldando a eficiência operacional e a previsibilidade do caixa. O segundo obstáculo, e talvez o mais urgente, é a severa escassez de profissionais capacitados. Com o mundo inteiro correndo contra o mesmo relógio, a busca por arquitetos de dados e consultores SAP seniores já esbarra na falta de oferta. Deixar o pontapé inicial para a segunda metade de 2026 significará disputar talentos em um mercado inflacionado, ameaçando diretamente o sucesso do go-live.
Outro ponto de alerta é a pesada herança das chamadas "tropicalizações". Durante anos, para dar conta do labirinto tributário nacional, envolvendo as infinitas regras de ICMS, substituição tributária e obrigações acessórias, as companhias injetaram customizações profundas em seus ambientes ECC. Esse histórico choca-se de frente com a premissa de Clean Core (núcleo limpo) do S/4HANA, que repudia arquiteturas engessadas. Transpor esse modelo sem uma revisão drástica não é só um equívoco de TI, é assumir um grave passivo de compliance.
Contudo, a grande questão dessa jornada reside na qualidade do dado fiscal transferido. Ter em mãos um banco de dados poderoso, capaz de processar milhares de transações em frações de segundo, perde o sentido se as regras tributárias que o alimentam estiverem ultrapassadas ou incorretas. Ao migrar dados "sujos", a empresa não ganha eficiência; ela apenas adquire a capacidade assustadora de gerar erros fiscais e multas na velocidade da luz. É o momento em que a dívida técnica e tributária de uma década apresenta sua fatura.
Para agravar o cenário, a janela de 2026 e 2027 coincide com um marco histórico sem paralelos: a sobreposição da migração SAP com a transição da Reforma Tributária e a implementação do IVA Dual (IBS e CBS). Na prática, os times precisarão garantir que o sistema legado continue operando sob as novas regras fiscais, enquanto desenham e constroem a arquitetura do novo ERP simultaneamente. É o equivalente corporativo de trocar a turbina de um avião em pleno voo.
Por isso, seja qual for o caminho escolhido, uma conversão da estrutura atual (Brownfield) ou uma implementação do zero (Greenfield), a decisão exige, obrigatoriamente, um raio-X do risco fiscal. As companhias que negligenciarem a integração de uma inteligência tributária especialista, aderente ao conceito de Clean Core, flertam com o perigo real de paralisarem suas operações de faturamento logo no dia seguinte à virada de chave.
Nossa experiência acompanhando essas transições revela um panorama decisivo: a ida para o S/4HANA representa a melhor janela de oportunidade em anos para limpar a casa, arrumar o cadastro de materiais e modernizar a governança fiscal rumo à nova economia digital. No entanto, para aqueles que não se anteciparem, o choque de realidade será brutal e custoso. O relógio continua girando. Enquanto os prazos da SAP não cedem, a complexidade brasileira não perdoa atrasos.
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