Desafio cultural marca a modernização das instituições financeiras além da tecnologia em 2026
Mauricio José Alpendre*
A transformação tecnológica no setor financeiro brasileiro costuma ser associada a novas plataformas digitais, Inteligência Artificial (IA) e computação em nuvem. Contudo, a experiência prática mostra que a tecnologia raramente é o principal obstáculo. O maior desafio é cultural. Modernizar sistemas legados e incorporar IA exige mudanças profundas na forma como as organizações trabalham, tomam decisões e colaboram.
Os grandes bancos brasileiros carregam décadas de evolução tecnológica. São ambientes complexos, com sistemas interdependentes e equipes altamente especializadas. Migrar esse universo para arquiteturas modernas exige mais do que investimento em infraestrutura. Exige mudar mentalidades e formas de trabalho. Estudos sobre transformação digital em bancos brasileiros mostram que liderança, capacitação e mudança de modelo organizacional são fatores centrais para que a inovação realmente aconteça.
Esse desafio fica ainda mais evidente com a chegada da IA. Embora a maioria das instituições financeiras já tenha iniciado sua jornada com a tecnologia – com 85% delas já tendo adotado ou planejado adotar IA –, ainda são poucas as que conseguiram integrá-la plenamente aos processos de negócio. Isso ocorre porque o verdadeiro salto não está apenas em adotar IA, porém em aprender a pensar com IA incorporando-a como parte do processo decisório, e não apenas como uma ferramenta periférica ou experimental.
Pensar com IA implica uma mudança sutil, porém profunda. Não se trata mais de perguntar “onde aplicar IA?”, mas de redesenhar fluxos, produtos e jornadas considerando a inteligência como elemento nativo. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser um apoio e passa a atuar como uma camada integrada à operação, influenciando desde a concepção até a entrega de valor ao cliente.
Durante muitos anos, bancos operaram com estruturas separadas entre tecnologia e negócios. As áreas comerciais definiam demandas e a TI executava projetos com longos ciclos de entrega. Esse modelo se mostrou inadequado para um ambiente em que a inovação precisa ser contínua. A mudança cultural passa por integrar equipes multidisciplinares, responsáveis por produtos de ponta a ponta e com autonomia para evoluir soluções rapidamente, agora potencializadas por IA.
Outro elemento essencial dessa transformação é a capacidade de aprender continuamente. Instituições financeiras que conseguem avançar mais rápido em inovação são justamente aquelas que criam ambientes de experimentação, testam novas tecnologias e estabelecem parcerias estratégicas. Nesse cenário, a IA também passa a ser uma aliada no próprio processo de aprendizagem organizacional, acelerando ciclos de teste, erro e evolução.
Mas é importante destacar: quanto mais a IA avança, mais relevantes se tornam as competências humanas. Criatividade e resiliência ganham protagonismo. Criatividade para reinterpretar problemas, desenhar novas soluções e explorar o potencial da tecnologia de forma estratégica. Resiliência para lidar com ciclos constantes de mudança, testar hipóteses, aprender com falhas e se adaptar rapidamente a novos contextos.
A competição com fintechs e bancos digitais acelerou esse movimento. Organizações que nasceram digitais operam com menos restrições tecnológicas e com estruturas mais ágeis, pressionando bancos tradicionais a evoluir rapidamente. Essa pressão torna inevitável a transformação cultural, especialmente na forma como decisões são tomadas, riscos são avaliados e a inovação é incorporada ao dia a dia.
Ao mesmo tempo, existe um equilíbrio delicado entre inovação e responsabilidade. Instituições financeiras lidam com dados sensíveis e sistemas críticos, o que exige níveis elevados de controle e compliance. Pensar com IA, nesse contexto, também significa garantir que essa inteligência opere dentro de princípios claros de governança, segurança e transparência.
Hoje, a vantagem competitiva dos bancos depende menos das ferramentas tecnológicas disponíveis e mais da capacidade de integrá-las à cultura organizacional. Modernização, IA e experiência do cliente só avançam quando pessoas, processos e tecnologia evoluem juntos. No fim, a transformação digital no setor financeiro não é apenas uma mudança de sistemas, mas sim uma mudança de mentalidade. E são justamente as instituições que conseguem alinhar cultura e tecnologia que terão maior capacidade de inovar em escala nos próximos anos.
*Mauricio José Alpendre é Business Director no Brasil da GFT Technologies
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