Logo
Imprimir esta página

Kompromat à brasileira no seguro? (Destaque)

Armando Luis francisco Armando Luis francisco

Existe uma palavra russa que a maioria das pessoas nunca ouviu, mas que talvez explique mais sobre o funcionamento de certos mercados do que qualquer relatório de auditoria. A palavra é kompromat - uma abreviação de "material comprometedor". Durante a Guerra Fria, os serviços de inteligência soviéticos transformaram a coleta desse tipo de material numa ciência. O princípio era elegante na sua crueldade: você não precisa ameaçar ninguém se tiver, guardado numa gaveta, algo que a pessoa não quer que o mundo saiba. Fotos, gravações, recibos, registros de encontros que não deveriam ter acontecido, financiamento de eventos com retorno ao que assinou o financiamento etc. A partir do momento em que o material existe, o controle se exerce sozinho, em silêncio, sem que ninguém precise levantar a voz.

O método, claro, não morreu com a União Soviética. Ele apenas trocou de endereço. E a suspeita que paira sobre certos escândalos recentes no sistema financeiro brasileiro é de que a lógica do kompromat — criar vínculos comprometedores para garantir lealdade, silêncio e cooperação — pode ter sido reproduzida, talvez sem que os envolvidos sequer conhecessem o termo, numa versão tupiniquim regada a champanhe caro e suítes de hotel com vista para o mar e eventos profissionais ou não!

A suspeita, quando se olha de perto para os casos que vêm surgindo, não é apenas de fraude contábil ou gestão temerária. É de que existiu um método. Primeiro vem o evento, o encontro, a ocasião especial. Depois vêm as benesses, os contratos, as facilidades. E entre um momento e outro, algo acontece que muda a natureza da relação — algo que ninguém vai querer contar depois.

Mas é preciso falar também de outro tipo de suspeita, mais sutil, que envolve encontros e eventos dentro de um mesmo ramo ou nicho de atividade. Convenções, jantares de premiação, encontros setoriais em resorts, congressos temáticos e profissionais com patrocínio milionário. A pergunta que deveria ser feita — e que raramente é — diz respeito a uma conta simples: quanto custou o evento e quantas pessoas efetivamente participaram? Quando o valor investido por um patrocinador não encontra proporção razoável com o tamanho do público presente, surge uma suspeita legítima sobre a verdadeira finalidade daquele investimento. Se um evento para duzentas pessoas custa o que custaria um para duas mil, onde foi parar a diferença? E, principalmente, por que ninguém pergunta?

A suspeita se agrava quando se percebe que esses encontros reúnem, num mesmo ambiente controlado, atores de diferentes elos da mesma cadeia — quem vende, quem compra, quem regula, quem audita, quem distribui, quem financia. Tudo junto, tudo misturado, tudo regado a uma hospitalidade que não cabe em nenhuma rubrica contábil. Não há nada de ilegal em organizar um jantar ou qualquer encontro profissional, mas o que fica sempre é qual a finalidade?. Não há nada de ilegal em patrocinar uma convenção, nada! Mas quando o custo declarado não encontra justificativa no resultado visível, a suspeita de que o verdadeiro produto do evento não é o evento em si — mas sim o que acontece nos bastidores — ganha corpo.

E é aí que o kompromat encontra terreno fértil. Porque o material comprometedor não precisa ser fabricado. Basta criar a circunstância. Basta juntar as pessoas certas, no ambiente certo, com as condições certas, e deixar que a natureza humana faça o resto. O presente de aniversário, a garrafa de fim de ano, o convite para o camarote, a passagem aérea que aparece sem explicação — tudo isso, isoladamente, é gesto de cortesia. Acumulado ao longo de meses e anos, vira outra coisa. Vira dependência. Vira cumplicidade. Vira um fio invisível que conecta pessoas que, no papel, não têm relação nenhuma, mas que na prática não conseguem mais agir uma sem a outra.

A suspeita de que esse tipo de dinâmica existe em determinados mercados brasileiros não é paranoia. É observação. É o tipo de coisa que qualquer profissional com alguma experiência percebe, mesmo que não saiba nomear. Percebe no padrão das renovações que acontecem sem concorrência. Percebe nas parcerias que ninguém explica mas que ninguém questiona. Percebe nos eventos em que o orçamento não fecha e ninguém pede para fechar.

E onde isso aparece nos relatórios? Em lugar nenhum. Esse é justamente o ponto cego. A auditoria olha para números. Olha para contratos, provisões, reservas, demonstrações financeiras. Olha para o que está nos sistemas. Mas o kompromat não mora nos sistemas. Mora nas relações que não deixam rastro formal. Mora nos encontros que não entram na agenda. Mora nas mensagens que são apagadas antes que alguém pense em pedir acesso.

A suspeita — e insisto na palavra suspeita, ou melhor: previsão para a possibilidade de nunca acontecer -- porque é apenas disso que se trata — é de que existem mercados inteiros operando com uma camada invisível de compromissos pessoais que nenhum programa de compliance está desenhado para detectar. Mas eu saberia onde olhar nas contas, onde pedir comprovantes, extratos pessoais etc. Não porque os programas sejam ruins, mas porque foram feitos para olhar na direção errada. Foram feitos para garantir que os processos formais estejam em ordem. E os processos formais, nesses casos, costumam ser impecáveis. O problema nunca está no que é formal. Está no que é informal. Está no que não tem registro, não tem contrato, não tem recibo, mas que todo mundo sabe que existe, mas deixa pistas, fáceis de seguir, de fazer tremer a corrupção e o corrupto. Sim, corrupção pública, privada ou corporativa!

A culpa, se é que cabe falar em culpa numa reflexão que se propõe apenas a levantar pontos para evitar suspeitas, é do caráter individual de quem aceita o primeiro convite sabendo que ele não é gratuito. Não existe almoço grátis nem em eventos, alguém paga a conta, às vezes sem saber! É uma decisão pessoal, tomada em silêncio, de cruzar uma linha que depois não tem como descruzar. Nenhuma reforma regulatória resolve isso. Nenhuma lei nova impede que alguém aceite uma gentileza envenenada. O máximo que se pode fazer é saber que o risco existe, nomeá-lo e parar de fingir que não está ali.

Compliance, no fim das contas, não é departamento. É limite. É saber onde o kompromat começa — e ter a coragem de não dar o primeiro passo. Fechar as contas corporativas é mais do que um dever.

Divagações? Talvez. Fatos reais? Não sei. Mas o conselho fica. E se acontecer? Existe uma grande possibilidade de vir à tona!

Armando Luis francisco
Jornalista


Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
 
https://www.facebook.com/groups/portalnacional/

<::::::::::::::::::::>
IMPORTANTE.: Voce pode replicar este artigo. desde que respeite a Autoria integralmente e a Fonte...  www.segs.com.br
<::::::::::::::::::::>
No Segs, sempre todos tem seu direito de resposta, basta nos contatar e sera atendido. -  Importante sobre Autoria ou Fonte..: - O Segs atua como intermediario na divulgacao de resumos de noticias (Clipping), atraves de materias, artigos, entrevistas e opinioes. - O conteudo aqui divulgado de forma gratuita, decorrem de informacoes advindas das fontes mencionadas, jamais cabera a responsabilidade pelo seu conteudo ao Segs, tudo que e divulgado e de exclusiva responsabilidade do autor e ou da fonte redatora. - "Acredito que a palavra existe para ser usada em favor do bem. E a inteligencia para nos permitir interpretar os fatos, sem paixao". (Autoria de Lucio Araujo da Cunha) - O Segs, jamais assumira responsabilidade pelo teor, exatidao ou veracidade do conteudo do material divulgado. pois trata-se de uma opiniao exclusiva do autor ou fonte mencionada. - Em caso de controversia, as partes elegem o Foro da Comarca de Santos-SP-Brasil, local oficial da empresa proprietaria do Segs e desde ja renunciam expressamente qualquer outro Foro, por mais privilegiado que seja. O Segs trata-se de uma Ferramenta automatizada e controlada por IP. - "Leia e use esta ferramenta, somente se concordar com todos os TERMOS E CONDICOES DE USO".
<::::::::::::::::::::>

Copyright Clipping ©2002-2026 - SEGS Portal Nacional de Seguros, Saúde, Veículos, Informática, Info, Ti, Educação, Eventos, Agronegócio, Economia, Turismo, Viagens, Vagas, Agro e Entretenimento. - Todos os direitos reservados.- www.SEGS.com.br - IMPORTANTE:: Antes de Usar o Segs, Leia Todos os Termos de Uso.
SEGS é compatível com Browsers Google Chrome, Firefox, Opera, Psafe, Safari, Edge, Internet Explorer 11 - (At: Não use Internet Explorer 10 ou anteriores, além de não ter segurança em seu PC, o SEGS é incompatível)
Por Maior Velocidade e Mais Segurança, ABRA - AQUI E ATUALIZE o seu NAVEGADOR(Browser) é Gratuíto