Saúde mental nas empresas: arte surge como aliada no combate ao Burnout
Depressão e a ansiedade geram custo global estimado de US$ 1 trilhão por ano
O debate sobre saúde mental no ambiente corporativo nunca esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão simplificado. O termo “burnout” ganhou visibilidade e ajudou a nomear o sofrimento de milhares de profissionais. No entanto, especialistas e iniciativas na área alertam: o problema é mais amplo, mais profundo e não pode ser reduzido a soluções rápidas.
Dados recentes ajudam a dimensionar o cenário: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão e a ansiedade geram um custo global estimado de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. No Brasil, transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, de acordo com o INSS. Além disso, pesquisas indicam um aumento consistente de relatos de exaustão emocional, falta de propósito e dificuldade de conexão nas relações profissionais.
Diante desse contexto, muitas empresas têm adotado medidas emergenciais, como aplicativos de bem-estar, palestras motivacionais e programas pontuais de incentivo à produtividade saudável. Embora relevantes, essas ações dificilmente alcançam a raiz do problema: a ausência de espaços reais de escuta, reflexão e construção de sentido no cotidiano profissional.
É nesse cenário que surge o Poesia pra comer, projeto que propõe uma abordagem distinta para a saúde emocional no trabalho. A iniciativa utiliza a arte, incluindo literatura, cinema, música e artes visuais, como mediadora de encontros que favorecem o diálogo e o desenvolvimento humano, sem recorrer a fórmulas prontas ou discursos prescritivos.
“A arte cria uma distância segura para falar do que é difícil. Ao invés de dizer ao participante o que ele deve sentir ou fazer, ela abre espaço para que cada um construa suas próprias reflexões”, explica Sylvia P. Roquette Campanati, psicanalista e idealizadora do projeto.
Nos encontros, temas como empatia, pertencimento, liderança, comunicação e saúde emocional emergem a partir das obras apresentadas, funcionando como ponto de partida para conversas mais profundas e genuínas. O resultado é a construção de ambientes mais seguros, nos quais o vínculo e a escuta ganham protagonismo.
Depoimentos de participantes reforçam o impacto da proposta, revela Estela Modena, também idealizadora do projeto. “Muitos relatam que, pela primeira vez em um contexto corporativo, puderam falar de forma autêntica sobre suas experiências, sem a pressão por respostas imediatas ou soluções padronizadas. Outros destacam o fortalecimento das relações interpessoais e uma nova forma de olhar para o próprio trabalho”.
Em um cenário marcado pelo excesso de estímulos, cobranças constantes e pouca escuta, iniciativas como o Poesia pra comer apontam para um caminho possível: menos respostas prontas e mais espaços de encontro. Porque, quando se trata de saúde mental, talvez o mais importante não seja acelerar soluções, mas aprofundar a experiência humana no trabalho.
Sobre as idealizadoras
Estela Modena é formada em Letras (PUC-SP) e Cinema (FGV; Paris 1 - Panthéon -Sorbonne; Escac Barcelona). Atuou por 15 anos como professora de línguas e literatura e hoje se dedica à escrita de roteiros e livros. É autora de três livros e participou, como roteirista, diretora e produtora, de curtas-metragens exibidos em festivais no Brasil e no exterior. No teatro, atua como atriz e bailarina.
Sylvia P. Roquette Campanati é psicanalista e advogada, com especializações na área do Direito. Servidora pública municipal de carreira, foi presidente de uma Organização Social voltada à educação de crianças e atuou por seis anos como conselheira tutelar, ampliando seu olhar para as complexidades humanas e sociais.
Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
<::::::::::::::::::::>