Inovação: por que a próxima onda não deve nascer dos grandes hubs
- Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por Graziela Cristina Silva
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Por Guilherme Hoppe, coordenador do Ibrawork
Durante décadas, a inovação global foi associada a grandes polos tecnológicos. Vale do Silício, Shenzhen, Tel Aviv, Londres e Berlim tornaram-se sinônimos de progresso, capital de risco e vanguarda científica. Esses ecossistemas continuam sendo fundamentais para o avanço tecnológico, mas começam a revelar uma fragilidade estrutural pouco discutida.
Em um mundo cada vez mais instável geopoliticamente, volátil economicamente e fragmentado socialmente, a concentração excessiva da inovação em poucos territórios cria riscos sistêmicos. O Índice Global de Inovação 2024, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), confirma que os países líderes seguem altamente concentrados. Ao mesmo tempo, o próprio relatório aponta uma desaceleração dos investimentos globais em P&D e capital de risco desde 2022, especialmente fora desses grandes centros.
O paradoxo é claro: o modelo dos grandes hubs é poderoso, mas pouco resiliente. Estudos da McKinsey mostram que setores intensivos em inovação cresceram quase o dobro da média da economia norte-americana nas últimas décadas. Essa performance explica por que governos continuam apostando em grandes polos. No entanto, disputas comerciais, guerras tecnológicas envolvendo semicondutores e inteligência artificial, além de mudanças regulatórias abruptas, têm mostrado que ecossistemas excessivamente dependentes de decisões centralizadas e fluxos globais de capital podem entrar rapidamente em ciclos de retração.
Há ainda um fator menos visível, mas decisivo: a armadilha da atenção. Nos últimos anos, diversos territórios passaram a competir por visibilidade, moldando seus ecossistemas em torno de modismos tecnológicos. Blockchain, criptoativos e metaverso atraíram investimentos intensos entre 2017 e 2021. Quando o ciclo virou, muitos desses hubs encolheram quase na mesma velocidade com que cresceram.
Quando a inovação depende do palco, ela se torna refém do próximo ciclo de entusiasmo coletivo. É nesse espaço de fragilidade que começam a emergir, de forma silenciosa, os micros ecossistemas de inovação. Diferentemente dos grandes hubs, esses sistemas operam em escala territorial reduzida, profundamente conectados à identidade local e aos problemas reais de suas comunidades.
Pesquisas recentes indicam que empresas inseridas em ecossistemas locais apresentam maior capacidade de inovação incremental contínua. Um estudo sobre a região de Campinas mostrou maior adoção de tecnologias digitais avançadas em empresas fortemente conectadas ao território, universidades e cadeias produtivas locais. A razão é simples: quando a inovação nasce próxima de desafios concretos — saúde, mobilidade, educação, inclusão produtiva — ela encontra demanda mais estável e ciclos de aprendizado mais rápidos.
Experiências internacionais reforçam essa lógica. Em Barcelona, o projeto 22@ transformou um antigo bairro industrial em um distrito urbano de inovação, integrando empresas, universidades, habitação e cultura. Em St. Louis, o Cortex Innovation Community gerou milhares de empregos e mais de US$ 2 bilhões em impacto econômico sem a criação de um mega hub artificial. No Oregon, regiões fora dos eixos tradicionais concentram centenas de empresas de tecnologia, sustentadas por formação técnica e identidade produtiva clara.
A força desses micros ecossistemas não está na escala, mas na arquitetura. Eles são menos dependentes de capital especulativo internacional, ajustam-se mais rapidamente a mudanças regulatórias e constroem um ativo invisível, porém essencial: capital social. Confiança, cooperação e proximidade reduzem custos de transação e aumentam a resiliência em momentos de crise.
Isso não significa dispensar o palco. Visibilidade continua sendo importante para conectar mercados e ampliar impacto. Mas a experiência internacional mostra que políticas públicas eficazes são aquelas que apoiam sem capturar, financiam sem controlar e dão visibilidade sem substituir a identidade local. Israel é um exemplo claro desse equilíbrio, com clusters regionais especializados coexistindo dentro de uma estratégia nacional robusta.
Para países emergentes como o Brasil, a aposta em micro ecossistemas oferece vantagens estratégicas claras: reduz dependência de capitais voláteis, aproveita vocações regionais, integra inovação e inclusão social e cria trajetórias de desenvolvimento de longo prazo. Talvez o erro das últimas décadas tenha sido tentar replicar modelos estrangeiros, em vez de cultivar redes de ecossistemas locais interconectados.
Os grandes polos continuarão sendo essenciais para a fronteira tecnológica global. Mas o futuro mais resiliente da inovação provavelmente será construído de forma diferente: em bairros, distritos e cidades que conhecem profundamente seus próprios desafios.
Menos espetacular. Menos dependente de holofotes. E, justamente por isso, mais duradouro.
Guilherme Hoppe tem mais de 16 anos de experiência em gestão de projetos sociais e econômicos e na criação de ecossistemas e comunidades inovadoras. Entre 2023 e 2024, atuou como agente de inovação na ADE SAMPA. Atualmente coordena o Ibrawork, hub dedicado a cidades inteligentes, inovação e desenvolvimento social.
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