Engajamento Humano Supera Tecnologia como Diferencial Competitivo
*Por Daniel Murta, CO-Founder e CTO do Looqbox
Em meio a discussões sobre inteligência artificial, automação e produtividade, um tema aparentemente simples ganhou destaque em uma das palestras do South by Southwest, que é a necessidade humana de sentir que importa. Na apresentação “Mattering in the Modern World”, a pesquisadora Jennifer D. Wallace propôs uma reflexão provocativa: muitos dos problemas que observamos hoje no ambiente de trabalho, como solidão, burnout e desengajamento, podem ser sintomas de uma ausência crescente de pertencimento e reconhecimento genuíno.
Wallace chama esse conceito de mattering, que pode ser traduzido como a sensação de que nossa existência tem relevância para alguém ou para algum grupo. Segundo o framework apresentado na palestra, esse sentimento se sustenta em quatro dimensões principais: Significance (sentir que nossa presença tem valor), Appreciated (ser apreciado), Invested In (perceber que alguém investe em nosso crescimento) e Dependent On (saber que nossa contribuição faz diferença). Quando essas dimensões desaparecem das relações profissionais, surge o que ela define como anti-mattering, um ambiente em que as pessoas deixam de se perceber como importantes.
Esse fenômeno ajuda a explicar algumas contradições do mundo contemporâneo. Vivemos hiperconectados, mas cada vez mais solitários. Temos acesso a um volume quase infinito de informação, mas menos sinais claros de reconhecimento humano. A própria nostalgia tecnológica, que se manifesta no retorno de produtos e experiências vintage, pode ser interpretada como uma tentativa de recuperar formas mais tangíveis de conexão, em um momento em que o excesso de estímulos digitais dilui a percepção de proximidade entre as pessoas.
No ambiente corporativo, os sinais de anti-mattering aparecem de maneiras sutis, mas profundas: feedbacks raros, relações excessivamente hierárquicas ou decisões impessoais, como demissões comunicadas apenas por e-mail. Pequenos gestos podem ter impacto relevante para reverter esse cenário. Algo simples como reconhecer publicamente a contribuição de alguém, ou explicar por que determinada pessoa é essencial para um projeto, pode fortalecer a percepção de pertencimento dentro das equipes.
Isso abre espaço para experimentações interessantes dentro das empresas. Uma delas é tornar mais visível quem está por trás das entregas, por exemplo, incluir fotos ou histórias das pessoas responsáveis por cada projeto ou funcionalidade apresentada internamente. Outra possibilidade é repensar formatos tradicionais de acompanhamento, como substituir parte dos encontros individuais por momentos de feedback coletivo e 360°, tornando o reconhecimento mais social e menos dependente de relações estritamente hierárquicas.
A reflexão que fica é que dizer para alguém que seu trabalho importa custa pouco, mas pode ter um impacto enorme. Em um momento em que tecnologia e automação avançam rapidamente, talvez uma das competências mais estratégicas para líderes seja justamente a mais humana de todas, que é garantir que as pessoas saibam que fazem diferença.
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