Como a carga mental feminina influencia decisões profissionais e pessoais
CEO da TEC4U explica como o acúmulo de responsabilidades invisíveis afeta mulheres que conciliam carreira, empreendedorismo e gestão pessoal
A chamada carga mental feminina, termo usado para descrever o esforço cognitivo relacionado ao planejamento, organização e tomada constante de decisões no cotidiano, tem se tornado um tema cada vez mais discutido em pesquisas sobre trabalho e gênero. No Brasil, as mulheres continuam acumulando responsabilidades profissionais e domésticas, muitas vezes somadas ao empreendedorismo e à maternidade, o que amplia o volume de decisões e planejamentos que precisam administrar diariamente.
Dados do IBGE, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), indicam que as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados, enquanto os homens dedicam cerca de 11,7 horas. A diferença evidencia que, além do trabalho formal, grande parte da organização da rotina familiar ainda recai sobre as mulheres.
Esse acúmulo de funções cria o que especialistas classificam como uma sobrecarga de decisões. Desde questões profissionais e financeiras até atividades cotidianas da casa, planejamento da rotina dos filhos e organização da vida familiar, muitas mulheres permanecem em um estado constante de gestão e antecipação de tarefas.
Para Melissa Pio, fundadora e CEO da TEC4U, empresa que atua com soluções voltadas à organização e produtividade no cotidiano pessoal e profissional, essa carga mental frequentemente passa despercebida, embora tenha impacto direto no bem-estar e na capacidade de tomada de decisão.
“A carga mental feminina é composta por uma série de decisões invisíveis que acontecem ao longo do dia. Não se trata apenas de executar tarefas, mas de planejar, antecipar problemas, organizar agendas e administrar prioridades o tempo todo. Quando a mulher acumula trabalho externo, empreendedorismo e gestão da casa, essa pressão cognitiva cresce significativamente”, afirma Melissa.
Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre desigualdade de gênero no mercado de trabalho, a dupla ou tripla jornada contribui para níveis mais altos de estresse e fadiga mental entre mulheres, além de impactar oportunidades de carreira e tempo disponível para desenvolvimento profissional.
A especialista explica que o desafio não está apenas na quantidade de tarefas, mas no volume de decisões associadas a elas. “Muitas vezes, a sobrecarga não é visível porque está ligada ao planejamento constante. A mulher é quem lembra da consulta médica do filho, organiza a logística da casa, decide compras, acompanha compromissos familiares e ainda precisa gerenciar suas próprias demandas profissionais”, diz.
Para a CEO, reconhecer a existência da carga mental é um passo importante para discutir formas mais equilibradas de divisão de responsabilidades e uso de ferramentas que ajudem na organização do cotidiano. “Falar sobre carga mental é trazer à tona um tipo de trabalho que sempre existiu, mas que raramente foi reconhecido. Quando conseguimos tornar essa dinâmica visível, também abrimos espaço para soluções mais conscientes e para uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades”, conclui.
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